7.03.2017

Dos latidos dos cães negros


Fazer emergir, do mais profundo dos desertos, a fonte primeva que apazigua a Sede Infinita que empurra nosso espírito fáustico rumo aos confins da Criação. Aeons futuros feitos de Gozo e Grandiosidade, nascidos sobre os ossos esmagados de gerações de humanos que cimentaram as pontes do Porvir. Aventura feita de escolhas indizíveis, de histórias secretas que não são mais ouvidas por ninguém. Ósculos trocados entre delícias e profanações, e de cada um nascerá uma nova revelação, uma nova gnose deixada aos pés do Mais Alto, daquilo que nos impele, a nós corações totalitários, que não cedemos nunca frente a todas as paixões feitas de ardor infinito, de incêndios sentimentais que transformam todos os amantes - mesmo os mais indecentes - em simples personagens de inofensivas historinhas eróticas para senhoras bem comportadas. 

Ladram os cães negros da noite, como sempre trazendo novas mensagens vindas dos mundos mortos, onde até mesmo o Amor é infecundo; nós lemos nos latidos as cartas que vem destes mundos longínquos, cartas com cheiro de incenso e sangue grafadas com estranhas letras que enlouquecem os homens ponderados, os homens cuja vida é rotina e apequenamento. Nós entramos nas casas dos homens com a Boa Nova dos Aeons Futuros, sussurramos poesias pervertidas e os convidamos a participar em júbilo das orgias com suas mulheres e lindas filhas. Eles negam o prazer e nós rimos do medo que exala de suas palavras covardes; envergonhados, choram como bebês seus cornos frescos nascidos da devassidão que embala o cavalgar indecente de suas esposas no falo que levantamos ao ar como um culto a tudo que é feito em nome da Beleza e da Eternidade. E é isso que faz pulsar o nosso desejo: Beleza nas Formas! Eternidade na Indulgência! A tudo isso sorvemos um último gole nos lábios úmidos das sorridentes filhas dos homens covardes. E extasiados morremos em um vórtex escuro que reluz, e no seu brilho secreto que apenas poucos podem ver toda a escuridão é feita de ouro.

(experiência de escrita automática após imersão meditativa em "The Book of Pleasure", de Austin Osman Spare)

4.08.2017

Carta a Cioran


São Paulo, 8 de abril de 2017

Caro Cioran,

É raro escrever cartas hoje em dia, e ainda mais para os que estão mortos. Mas hoje é uma data especial, a noite já morreu (sic) e a madrugada está no seu ápice demoníaco, com o relógio a marcar exatas três horas da manhã. Deveria ser por volta dessa hora que você fazia seus passeios em Sibiu, caminhando por ruas vazias, comungando do silêncio que traz consigo paz apenas para os covardes – seres como tu e eu não vemos nada no silêncio, a não ser um convite irrecusável para pensamentos delirantes e inconsequentes. E quero aproveitar o silêncio dessa madrugada onde o sono não vem para a ti confessar algumas coisas. 

Hoje seria o seu aniversário de 106 anos. Sinceramente, eu nunca sequer te imaginei com uma vida tão longa. Acho que você também não gostaria de estar aqui hoje, nesse mundo de polêmicas virtuais que precisam estar ferrenhamente circunscritas a regras e fronteiras. Oscilando entre o sangue e a tolerância, como você uma vez disse (não com essas palavras, perdoe minha memória falha), a história dos homens só parece mesmo avançar no calor que emana do Caos: é na lista dos crimes dos Césares que vemos o motor que anima o Tempo girar com força redobrada. “Safe spaces” (perdoe o anglicismo, mas isso é normal atualmente, os idiomas todos foram estuprados pela língua inglesa) e polêmicas que não podem exceder seus limites são exatamente o contrário do que esse mundo precisa. É como se a História fosse um ator ridiculamente tímido, que precisa ser empurrado para o palco, que não consegue ficar face a face com suas verdades - como você disse, “o homem prefere apodrecer no medo do que enfrentar a angústia de ser ele mesmo” (isso eu cito de cabeça de um de seus livros, e agora tenho certeza que citei corretamente). Hoje eu não sei dizer se vivemos na calmaria, na febre ou nos instantes que antecedem a passagem para a epilepsia, mas estou convicto que, se você resolvesse escrever as coisas que escreveu em uma fan page do Facebook, bastante provável que sua aventura virtual não duraria nem cinco minutos, seja por tédio (você sempre me pareceu um ranzinza), seja por legiões de pessoas que iriam te xingar de todas as formas possívei e pedir a algum poder qualquer (privado ou público, não importa: o que vale é deixar disponível aos insetos alguma forma de denunciar os outros nessa era onde todos são panópticos de todos) para tirar você e suas infantilidades do ar.

Enfim, você não teria nada o que fazer aqui.

Não leve isso demasiado a sério: conheço muitos que gostam das coisas que você escreveu. Eu sei bem a opinião que você nutriu quando jovem sobre a avidez das pessoas em ler os “autores tristes”: as pessoas procuram esses textos pois estes as “poupam de sofrer ou lhes dão a ilusão do sofrimento” (e eu acho que muitos que o lêem o consideram um homem irremediavelmente triste, embora eu veja mais petulância do que tristeza, além de muitas doses de humor, nas suas obras: certamente alguns trechos foram escritos em meio a risadinhas de satisfação). Busca-se sangue e lágrimas nas palavras do outro para, medindo-o a partir de nossa própria mediocridade, encontrar um destino singular, que possa ser colocado em uma espécie de pedestal. “A admiração da plebe é plena de sadismo”, você disse, e eu não poderia concordar mais. Mesmo sabendo dessa sua opinião tão negativa sobre seus leitores, eu segui lendo tudo o que você escreveu, e isso foi ao mesmo tempo uma desgraça irremediável e uma fagulha fatal que deu início a uma crise libertadora que jamais cessou.

Digo desgraça pois – e você sabe disso, não negue – a inconsciência é sempre a mais virginal e benfazeja das dádivas que um homem pode ter. Seria outro eu vivendo agora se, naquele momento da primeira desilusão amorosa, aquela que você fala que precisa ser vivenciada na juventude para que possa se amar pela primeira e única vez na vida, se naquele momento eu não tivesse lido seus elogios ao isolamento e à insônia. Talvez eu tivesse me casado mais cedo, talvez eu tivesse acumulado menos livros, talvez até mesmo ficado rico? Questões todas absolutamente irrelevantes: o absurdo rege a vida e nela eu só posso me deliciar com as coisas que não sei. Enfim, com as leituras de seus livros eu fui mergulhando em um lodaçal de questionamentos e pensamentos horrorosos que foram experimentados no limite da exaustão física. Ao mesmo tempo fonte de admiração e de inspiração, seus textos passaram de faíscas para o elemento combustor que mantinha destruidoramente selvagens as chamas da transfiguração.

Imitando você, busquei refúgio na escrita. Derramava-se em textos sem fim como forma de fuga, mas também como um exercício de investigação dos meus estados internos, explorando todas as contradições em uma exasperante ebulição de ódio, desespero e caos. Foi inspirado em ti que neguei a todos os ideais, pisoteando-os como devem ser pisoteados. Minhas delícias estavam naqueles devaneios onde “ninguém mais necessitasse da ilusão dos ideais, em que toda satisfação imediata da vida e toda resignação ilusória se tornariam impossíveis, em que todos os limites da vida normal rebentariam definitivamente” – e olha aí, nisso até mesmo você tinha um sonho, um sonho! Tirânico e cheio de soberba, certamente, mas ainda sim um sonho de disseminar a desilusão dos ideais como uma praga por toda a humanidade. Não se tratava de agir como Prometeu (deus que você odiava e que me ensinaste também a odiar), levando aos ignorantes a Boa Nova da consciência – que, longe da felicidade, trouxe para os homens somente os horrores da História e as torturas do espírito – mas sim de restituí-los ao nosso estado primordial, ao que éramos antes de entrar na humilhação do Tempo. “Os homens escutavam, que necessidade tinham de compreender?”, você perguntou, e isso se esfrega na nossa cara até hoje, castigando sem piedade, e assim até o Fim dos Tempos.

Foi na sua fonte também que alimentei meu ódio ao Cristianismo, essa religião feita da vingança e da inveja dos escravos e dos sofredores. Também abdiquei de tratar de minhas dores quando li seu relato sobre a velha que encontraste no hospital, queixando-se de suas enfermidades como se delas dependessem o Universo, como se a nossa existência tivesse alguma espécie de dignidade fundamental. E igualmente ambicionei, nos mais altos cumes do desespero, a sonhar com uma Elêusis de corações desiludidos, com um Mistério claro, sem deuses e sem as veemências da ilusão. Iniciados nos ritos secretos do Nada através de seus livros, os domingos todos se tornaram expressões circulares do arquetípico Domingo da Vida, o símbolo do tédio que sufoca os homens saudáveis, isto é, os animais. Não tenho hoje, assim como você, nenhum gosto em existir em tempos tão irremediavelmente medíocres. Só posso viver no início ou no fim do mundo. No caos primordial ou nos momentos finais do Apocalipse. Contemporâneo dos primeiros meteoros ou então vendo o espetáculo da Criação resfriar até tornar-se um astro frio e solenemente silencioso. 

E dentre todos os aprendizados que tu me proporcionaste, o mais valioso foi transformar cada ideia em uma obsessão. Só quando o pensamento sangra, quando se debate como fera enlouquecida e deixa atrás de si um rastro de grandiosidade e devastação, só quando chega a esse nível começo a levar uma ideia a sério. O comedimento e o bom senso passaram a me causar ânsias de vômitos. Eu imagino que você, quando estava ali em Paris reescrevendo pela terceira vez o Breviário, também experimentou e muitas vezes esse mesmo nojo pelos parisienses arrumadinhos que encontrava em suas caminhadas. Chegou a maltratar algum deles? Isso jamais saberei.  Você morreu há quase 22 anos e certamente nem lerá essa carta. E hoje, 8 de abril, dia de seu nascimento, onde passei a madrugada em uma espécie de rito necromântico, confessando a ti minhas opiniões e experiências a respeito de sua obra, de longe uma das mais avassaladoras tempestades do pensamento que o século XX nos legou, hoje senti – com uma força antes não experimentada – a dor que você expressou nessas palavras:

“De que serve ser conhecido se outrora não nos conheceu tal sábio ou tal louco, um Marco Aurélio ou um Nero? Não teremos existido nunca para tantos de nossos ídolos, nosso nome não terá perturbado nenhum dos séculos anteriores; que importam os que vêm depois? Que importa o futuro, essa metade do tempo, para quem adora a Eternidade?” 

Respeitosamente,

L.


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Emil Cioran nasceu em 1911, na Romênia, formando-se em Filosofia pela Universidade de Bucareste. Em 1937, mudou-se para a França, onde escreveu seus principais livros. Morreu em 1995, em Paris. Sua perturbadora obra, cuja densidade é tão alta quanto os vôos poéticos que marcam seu estilo, é um convite para o universo do niilismo nas suas mais extremas contradições e limites. Mestre da concisão e do aforismo, esse trecho do Breviário de Decomposição - considerado seu magnus opus - sintetiza o coração de sua filosofia:

“Queria semear a Dúvida até nas entranhas do globo, impregnar com ela toda a matéria, fazê-la reinar onde o espírito jamais penetrou e, antes de alcançar a medula dos seres vivos, sacudir a quietude das pedras, introduzir nelas a insegurança e os defeitos do coração. Arquiteto, teria construído um templo à Ruína; predicador, revelado a farsa da oração; rei, hasteado a bandeira da rebelião. Eu teria estimulado em toda parte a infidelidade a si mesmo, impedindo multidões de corromperem-se no podredouro das certezas."

4.03.2017

Vishudha Kali


Vishudha Kali é um projeto russo de música industrial que utiliza como base de suas composições sons produzidos pela boca, além de muitas camadas de distorção e efeitos variados. As longas composições - muitas vezes ultrapassando os dez minutos - produzem atmosferas que levam o ouvinte atento a uma jornada por áridos desertos de introspecção.

Encontrei o texto abaixo no site do projeto, onde seu idealizador, Andrei Komarov, fala um pouco mais sobre o conceito do Vishudha Kali. A revolta ao estilo "vamos destruir toda a humanidade" presente nas linhas abaixo pode soar demasiado colegial para muitos (para mim também, e muitas vezes), mas eu não consigo deixar de admirar as mentes obcecadas por inconsequentes sonhos de destruição. Mais de uma vez já escrevi aqui que, em um momento onde fazer arte (seja ela qual for) parece cada vez mais estar vinculado a atender as expectativas do público seguindo uma certa cartilha princípios não declarados, só me interessam os retardados, extremistas e solitários, que estão menos preocupados com reconhecimento (o "valor de mercado" intangível de suas obras) e mais com alargar a percepção que tem sobre si mesmos em um mundo que convulsiona no seu leito de morte.

Antes da leitura, clique no play abaixo para ouvir o som "Rituals from fire", do álbum de estreia "Psenodakh=" lançado em 2002.




"Vishuddha significa em sânscrito antigo o lugar, ou chakra, onde a energia de expressão e criação é concentrada. Está localizado na parte inferior da garganta e opera igualmente com respiração e a voz. Kali é a deusa da idade do ferro - este é o tempo de pensamentos escuros, guerras, muros & destruição, era de involução. 

Vishudda Kali é um projeto musical baseado apenas em sons produzidos através da boca do homem. Todos os sons dos discos são sons vocais, produzidos de diferentes formas de controlar a respiração e modular a fala, e apesar de terem sido gravados com diferentes tipos de processos e bastante distorcidos, são ainda sons da voz somente. As composições não são música propriamente. O trabalho criativo de Vishuddha Kali é devotado ao total genocídio da sociedade humana e ao esforço da humanidade por auto-aniquilação e destruição.

Mas também Vishuddha Kali quer observar que nem todos vocês são humanos reais. Há três tipos de seres humanos: os primeiros têm o espírito, a alma e o corpo. Estes são reais humanos, um tipo raro - um a cada um milhão, provavelmente. Cerca de 1% de toda a população humana. O segundo tipo tem a alma e o corpo - estes estão procurando a evolução. A quantidade de tais seres é próxima de 10% de todos os humanos - um entre milhares. O terceiro tipo tem o corpo somente, e o espírito e a alma estão em grau embrionário. Eles não têm nenhum objetivo espiritual, apenas uma lista de programações sociais - nascer, comer, obter o dinheiro, obter coisas diferentes e finalmente morrer e ter uma tumba apropriada com suas flores. Eles ainda podem confiar em Deus, e fazem isso da mesma forma como limpam os dentes - automática e inconscientemente. São biomassa: nascem, trabalham, tem filhos, morrem; nascem de novo, trabalham, procriam e depois morrem mais uma vez. O universo precisa que eles continuem a humanidade como espécie animal - são a fonte para produzir o homo sapiens.

Também há alguns seres especiais com vetor anti-espiritual em seu ser. Organizam ideologias, religiões e movimentos políticos. Iniciam todas as guerras, promovem progresso científico e econômico; em outras palavras, ensinam as biomassas para deslocar a energia da vida não para o progresso interno, mas para atuar no vazio. Tais seres anti-espirituais manipulam os membros da biomassa e os utilizam como escravos. Estes escravos criam as possibilidades para as pessoas anti-espirituais tenham vidas esplendorosamente ricas. Anti-espirituais criam uma infinidade de coisas vazias, fetiches como religiões, jogos e um monte de produtos diferentes para fazer com que os membros da biomassa sejam dóceis e facilmente manipuláveis. Eles também criam guerras e crises às vezes, e conduzem a energia vital e atenção das biomassas cegas para elas. As pessoas de biomassa existem somente para realizar todos os planos insanos dos anti-espirituais, tornando-se uma refeição para demônios e animais. Anti-espirituais controlam as estruturas do poder. Todos os sacerdotes, políticos, ídolos pop, etc são utilizados como fontes de energia para que consigam seus objetivos. Com isso, fazem com que os seres que têm a alma e o corpo vivam em uma atmosfera estranha, que tenham sua imaginação adoecida. Eles promovem a formação pensamentos idiota e estúpidos onde os indivíduos se imaginam muito importantes e únicos, como uma criação perfeita de Deus, como um rei de natureza, como se houvessem deuses ou anjos ou Satanás em algum lugar. Esse tipo de pessoa é o típico homem culto, ou funcionário do mundo das artes. Eles não são perigosos para um regime anti-espiritual porque eles estão escondidos dentro de sua mente interior. Sua esquizofrenia está progredindo através de diferentes eventos artísticos, naquele tipo de público interessado por colecionar coisas, fanclubs, ciência ou negócio. 

Vishuddha Kali - esta "Arte de Destruição" - tem uma intenção muito séria de mostrar a todos os seres o seu real lugar nesta vida. Sendo criado somente dos sons de respiração, ativa alguns processos de consecução. Mostra a todos que a necessidade de progresso demanda um certo tipo de violência - violência contra todos os pensamentos falsos e os programas sociais, discursos religiosos e idéias falsas. Todos nós necessitamos de um processo através da violência para limpar nossas mentes. Vishuddha Kali ajuda a abrir os olhos, para realizar que agora é tempo de parar de enganar-se, que é tempo de olhar a si mesmo de forma honesta antes de continuar a viver, antes que a poluição informativa e as mais diversas influências em nossas mentes destrua nossas almas e espíritos.

Pare de obedecer aos comandos hipnóticos de sua consciência doente para produzir famílias, crianças, acumular coisas sem sentido, ler jornais e ver TV. Pare de ter medo de qualquer coisa, de orar por qualquer um. É demasiado fácil & difícil simultaneamente - simplesmente pare e comece a viver. Destrua o seu ego. Nós não somos princesas ou reis ou anjos ou demônios - nós nem sabemos qualquer coisa sobre o cosmos e a Terra, sobre químicas e física. Todos os nossos conhecimentos sobre essas coisas estão velhos, ultrapassados  - é somente um conglomerado de ilusões, parte de um processo de involução, como uma magia negra perpetrada pelos meios de comunicação. É hora de parar esta loucura. Nenhuma religião, nenhuma política, nenhuma ideologia. Isso é tudo."


Discografia

Álbuns
Vishudha Kali - "Psenodakh" - 2002
Vishudha Kali - "Prem Genocide" - 2002
Vishudha Kali - "Myths about Srontgorrth" - 2003
Vishudha Kali - "The White Stone" -2004
Vishudha Kali & Chaos As Shelter - "Mirror" - 2004
Vishudha Kali - "Unfinished Devastation Narrative" -2005
Vishudha Kali & Velehentor & Closing The Eternity - "Ishopanishad" - 2008
Vishudha Kali & Moon Far Way - "Vorotsa" - 2011








3.01.2017

Thursatru: o lado sinistro da religiosidade nórdica


Thursatru pode ser definido como uma tradição mágico-religiosa moderna originada da antiga crença escandinava nos poderes de Ginnungagap (o Caos Primordial), poderes esses denominados Thurses (singular Thurs), geralmente traduzidos como “gigantes”. Essa crença ancestral é o substrato do Thursatru, que a desenvolve dentro de uma perspectiva do Caminho da Mão Esquerda e da Gnose Anticósmica. E embora não exista nenhuma evidência concreta de que os povos do norte da Europa adorassem essas forças, o estudo dos textos presentes nas Eddas evidencia que havia uma crença muito bem estabelecida na existência de Ginnungagap e que dele provinha uma série de forças obscuras e poderosas – forças essas que antecediam a criação dos homens e até mesmo a dos deuses. 

A seguir, buscarei resumir os pontos principais dessa tradição, tendo como base o livro þursakyngi volume 1, segunda edição, lançado pela Ixaxaar em 2014. Seu autor, Ekortu, além do livro citado, lançou também o þursakyngi volume 2, que descreve de modo mais aprofundado a gnose de Loki, e também (assinando como Vexior, seu codinome anterior) as obras Panparadox e Gullveigarbók, além de artigos para a revista Clavicula Nox nas edições I, II e IV, todos pela editora Ixaxaar. Você pode acessar o site da editora aqui e ver o (genial) site de Ekortu nesse link aqui.

Para iniciar esse texto, é importante desde já estabelecer uma distinção entre Asatru e Thursatru, pois a similaridade de nomes pode levar a uma falsa conclusão de que este último nada é mais que uma degeneração e versão “malvada” do primeiro.

Detalhe da lombada do livro, com o apuro característico das edições da Ixaxaar

O Asatru nasce na Islândia em 1972 com o intuito de reconstruir a antiga religiosidade nórdico-germânica, tendo como panteão os Ases (deuses da luz e criadores/protetores dos homens, como Odin e Thor) e os Vanires (deuses ligados à fertilidade, como Freya).  Rapidamente se disseminou para outras regiões, sendo reconhecido como religião no seu país de origem e também, alguns anos depois, na Dinamarca e na Noruega.  Ao longo dos anos espalhou-se pelo mundo, alcançando Portugal, Espanha e até mesmo Argentina e Brasil. Mas é nos Estados Unidos que obteve um avanço significativo, com centenas de entidades Asatru espalhadas por todo o território. Esse crescimento teve como impulso tanto o interesse por paganismo iniciado a partir da década de 70 como também, infelizmente, no entusiasmo com que adeptos da supremacia branca ingressaram no Asatru, buscando uma religiosidade que se originasse em suas imaginárias raízes ancestrais (na verdade, um pretexto para dar ao seu ódio certo ar de legitimidade).


O Thursatru não tem absolutamente nada a ver com isso: não busca reconstruir nenhuma religiosidade “autêntica”, mas sim, de modo consciente, criar uma fusão de tradições nórdicas com inovações modernas, acreditando que o sincretismo é não somente fonte de poder, mas também algo que opera em sintonia com o aspecto amórfico e anticósmico dos Thursa. Além disso, o Thursatru não distingue magia de religião (o Asatru é uma religião bastante exotérica) e volta-se radicalmente para a jornada interior do adepto e pela busca de um conhecimento supramundano. É uma tradição cuja perspectiva da existência tem muitas similaridades com a gnóstica, concepção onde os deuses criadores (seja Odin, Jeová, Zeus, Allah, etc) são tiranos responsáveis pelo aprisionamento da essência divina primordial do homem no seu corpo físico. Por isso, qualquer tipo de racismo ou nacionalismo nada tem a ver com Thursatru, posto que nessa tradição a única coisa que importa é o espírito. Embora nascendo com cores regionais, no seio da mitologia de um povo específico, transcendeu essa barreira meramente mundana e se coloca como uma tradição mágico-religiosa universal, aberta a qualquer um cuja devoção seja sincera.

É com base nessas premissas que se funda o objetivo principal do Thursatru: liberar o adepto das amarras cósmicas, entendidas como barreiras para sua evolução espiritual. Essa liberação é obtida através da criação de um nexo onde o adepto pode receber a thursastafir, ou gnose thursa, conhecimento acausal e desconhecido até mesmo pelos deuses Ases. Na criação de tal nexo, a principal dificuldade é vencer o que os textos gnósticos chamam de “intoxicação demiúrgica” (Ekortu faz uma recorrente aproximação entre Thursatru e gnoticismo). Ímpetos destrutivos, hedonismo e busca constante por distração e entretenimento são algumas das características dessa intoxicação, cujo poder aniquilador não conhece limites. O trabalho espiritual na via Thursatru visa opor-se a isso dissolvendo o hugr (ego) e liberando a Chama Negra das amarras demiúrgicas, posto que hugr coloca estreitos limites sobre como você identifica a si mesmo e aos demais (vaidades, desejos, preconceitos, etc – tudo entra aqui). “Consciente” de si mesmo, podemos acreditar que vivemos uma existência plena e livre quando, na verdade, apenas respondemos a estímulos pré-programados. É necessário morrer muitas vezes para vencer a morte e espiritualmente conectar-se com a Luz Thurs que emana dos domínios anticósmicos. Cito um trecho:

"Because of layers of cosmic powers which tie you down onto earth, you must search and find Thursian guidance and assistance; without their blessing, receiving and guidance you will always be a worthless tumor of flesh wandering the earth as a blind and weak slave, superficially loving yourself and your hugr."

Importante destacar aqui que, quando falamos em estabelecer um nexo com os poderes thursa, trata-se de forças fora das determinações de moralidade que conhecemos. Mais do que isso: são forças que agem, de modo radical e odioso, contra a criação - e nós somos parte dela. O trabalho com elas é, portanto, feito de extremos: uma vontade sincera e profunda encontrará gnoses radicalmente transformadoras e liberadoras, enquanto outra que seja vacilante e viciosa obterá um acúmulo de desgraças destrutivas e implacáveis. Ao aprendiz é recomendado cautela, mas também perseverança.


A criação do mundo: Ginnungagap
Nos escritos épicos, os Thurses são identificados com os gigantes primordiais que residem nas regiões limítrofes (e interditas aos deuses demiúrgicos) de Múspelheimr, ao sul, e Nieflheimr, ao norte de Midgard (Terra do Meio, que é o nosso plano causal). 

Em Múspelheimr há as chamas destruidoras da existência, relacionadas com as figuras de Sutr e Loki. O primeiro fica à porta desse reino incandescente, empunhando a espada que liberará as forças do Caos na batalha final de Ragnarök. Já Loki é o emissário do Caos no plano causal, a divindade-gigante que tem como objetivo trazer o distúrbio e a dissolução para o mundo manifestado. Seu papel nas narrativas mitológicas como um ardiloso maquinador de armadilhas para os deuses harmoniza-se com essa concepção.

Nieflheimr é o território da escuridão e do frio implacável. Nele reina suprema Hel, conhecida como “A Negra” (In Svarta), o aspecto feminino e terrível dos Poderes Thursa. Sua ancestralidade está além de qualquer compreensão humana. Cito um trecho do livro:

“The Nifl-powers or Rime-Thurses, Hrímthursar, are primordial powers even their alien world, and they are wise and powerful beyond cosmic comprehension. They are The Ones called ÚR, which is such an old conception that there is no synonym for it in modern English. ÚR could de explained to mean “the very uncontaminated origin of an essence”, and that is what they are: primordial antecedents, Fathers of great grandfathers and Mothers of great grandmothers”.


Esses dois mundos limítrofes são os portais para os elementos dissolutivos da criação que emanam de Ginnungagap – o abismo do Caos Primordial, onde reside o verdadeiro Deus Absconditus (outra concepção gnóstica que Ekortu aplica ao Thursatru). Quando teve início a criação de Asgard pelos Ases, o gigante Aurgelmir penetrou o cosmo através de Ginnungagap e enfrentou os deuses. Na batalha ele foi morto, os Ases despedaçaram o seu corpo e, com ele, fizeram o nosso mundo: seu sangue formou o oceano, os rios e todas as águas existentes; sua carne, o húmus e a terra; seus ossos, as montanhas; e com seus dentes, as rochas e as pedras. Disso é possível concluir que a criação demiúrgica tem um substrato acósmico que permite compreender o mundo de dois modos distintos: um mundano e outro sinistro. Por exemplo, a terra é tanto regida por Freya, deusa da fertilidade e da colheita, como também é, sinistramente, um atributo corporal de Aurgelmir, e pode ser tomada como veículo de comunicação com forças dissolutivas da vida. Nisso se explica também a relação especial que o Culto aos Thurses tem com rios e lagoas, considerados locais onde flui o sangue de Aurgelmir e portais poderosos para conexão com Hel e seus atributos necrosóficos.  

O livro ainda contém indicações práticas de como realizar o culto aos Thursa: montagem do altar, consagração de armas mágicas, correspondência entre elementos para feitura de espaço ritual, etc. Por ser o primeiro grimório de uma (aparente) série de três livros, é uma introdução mais do que completa.

A perspectiva de þursakyngi abriu meu olhar para elementos da mitologia nórdica geralmente negligenciados, estabelecendo paralelos entre os panteões da Europa Central e da Escandinávia que me escapavam. A interpretação de Ekortu, que estabelece uma ligação forte e genuína entre a gnose anticósmica e a crença em Ginnungagap, basilar em Thursatru, é instigante, especialmente a aposta de que no ecletismo e na correlação entre diferentes tradições o adepto encontrará fontes de poder. A todos os interessados pelo Caminho da Mão Esquerda, o Thursatru é uma tradição que vale a pena ser estudada.



12.31.2016

Retrospectiva mágica de 2016


Retrospectivas são, via de regra, um amontoado de coisas ridículas. Olhamos os erros como lições, convictos de que nos tornaremos seres humanos melhores no ciclo novo que se inicia. Fazemos dezenas de promessas que – pressentimos, no íntimo oculto que não se revela jamais – que serão logo esquecidas, repensadas com zelo até encontrarmos uma boa e infalível justificativa para nossos novos fracassos. Isso é o cotidiano banal das massas amorfas que, seja por uma condição material angustiante, seja por um embotamento radical da vontade (ou uma corrosiva combinação de ambos, o que é mais comum) passa os anos que separam do nascimento até a morte em um estado letárgico, sendo empurrados  de circunstâncias, sempre novas e desafiadoras, sugando-lhes cada partícula de energia vital até que o estado semimorto se torne definitivo. À mercê dos caprichos da Matéria e de suas armadilhas: é esta a sina de tudo que respira nessa era cada vez mais densa e enlouquecida. Não é, definitivamente, o que uma pessoa sã escolheria para si de livre e espontânea vontade. 

Foram mais ou menos essas as reflexões que tive nos momentos finais de 2015, e que me levaram a almejar que o ano de 2016 seria diferente. Um ano onde eu dedicaria o máximo de tempo possível a um desejo muito antigo, que pulsava desde bem cedo e tinha se manifestado de diferentes formas e intensidades ao longo dos anos. Olhando agora, nos derradeiros momentos de dezembro, posso dizer que o plano foi bem sucedido. O desejo a qual me refiro é o estudo da magia e do universo do oculto, e nesse post – repleto do ridículo que são todas as retrospectivas – falarei um pouco do resultado desses estudos e de perspectivas para 2017.

Não é exagerado afirmar que me interesso pela magia e o oculto desde a infância. Isso não é o mesmo que dizer que eu fazia o ritual menor do pentagrama aos cinco anos de idade, mas tudo que tinha relação com mundos fantasiosos e criaturas demoníacas despertava meu interesse de modo imediato. Favoreceu esse interesse crescer em uma casa onde, se não abundavam livros, sempre houve algo para se ler e especialmente sobre temas ocultos ou correlatos. Encantava-me especialmente uma enciclopédia da Disney, que eu folheava sem nem ao menos saber ler, onde entre tantas ilustrações me chamava a atenção a imagem de um quadro com uma mulher deitada em uma cama, com um demônio sentado sobre ela e uma horrenda cabeça de cavalo sendo projetada através da parede (trata-se do quadro “O Pesadelo”, de Fuseli, abaixo reproduzido). Apesar da admiração por esse quadro não ter rigorosamente nada a ver com magia, ele relaciona-se com o meu interesse pelo universo do onírico, pois eu sabia que aquele quadro retratava as imagens que atormentavam o sono daquela mulher. As possibilidades que havia no mundo dos sonhos eram para mim incríveis, e isso favoreceu imensamente, um pouco mais tarde, já tendo aprendido as primeiras letras, que eu devorasse apostilas de um curso de parapsicologia que meu pai havia feito, especialmente a parte que falava sobre viagens astrais. Saber que era possível adentrar o mundo dos sonhos de modo consciente foi uma descoberta incrível e por muito tempo tentei aplicar a técnica de sonhos lúcidos, mas com pouco sucesso.  Além dessas apostilas, em casa sempre havia revistas de Ufologia (uma paixão de meu pai), revistas onde amiúde era possível encontrar matérias sobre magia e ocultismo. Foi mais ou menos nessa época que, através do Círculo do Livro da Ediouro (um clube de compras de livros por reembolso postal, relativamente comum nos anos oitenta), pedi aos meus pais que me comprassem alguns livros e, entre títulos de ficção da coleção Você Decide, também pedi títulos como: O Xamanismo, A Sabedoria da Índia, O Livro da Cabra Preta, Os Mistérios da Cabala, As Clavículas de Salomão e As Chaves Ocultas do Poder. Eu devia ter 10 anos quando comprei esses títulos e, até onde consigo recordar, foram lidos com um misto de terror e fascinação. O destino deles também não sei precisar, alguns foram emprestados para pessoas com as quais não tenho mais nenhuma espécie de contato. O curioso nisso tudo é que meu interesse prematuro por magia colocou-me em contato com alguns textos que podem ser considerados como fundacionais da magia ocidental, que é o caso das Clavículas. Obviamente, a compreensão da leitura era bastante limitada. A herança que permaneceu de tais leituras, que subsistiu em meio a uma educação fervorosamente católica, é que existia algo além do mundo físico, que era pleno de poder e conhecimento, e esse algo não era apenas Deus.

Por que não desenvolvi os estudos sobre magia e ocultismo de modo sistemático desde aquele então? – essa pergunta retorna a mim de tempos em tempos, e hoje, graças ao distanciamento, consigo entender o que ocorreu: houve um “movimento de ofensiva” da esfera demiúrgica, cristalizada na figura do catolicismo. Foi mais ou menos na época da aquisição dos livros que me colocaram na primeira comunhão e, embora eu não me recorde de detalhes, pelo menos alguma parte de mim deve ter ficado bastante confusa. Com o Crisma e participação em grupos de oração eu entrei total e definitivamente no catolicismo, deixando, então, tudo relacionado ao oculto de lado.  Isso durou do final da infância à pré-adolescência, mais ou menos. Com a puberdade veio o furacão das contradições, acendendo a chama da revolta, alimentada pela descoberta do rock, em especial o punk e o metal. Foi principalmente por influência destes que fui apresentado ao ateísmo, que surgiu como a negação radical tanto do catolicismo como do ocultismo. Naquele momento, parecia ser um salto para além daquelas limitações, daqueles conflitos, um deixar-para-trás as tolices cristãs e as superstições da magia. Niilista total, enxergava em ambas as vias, a da Luz e a das Trevas (quer dizer, em como eu compreendia essas vias naquele momento), apenas muletas espirituais para ignorantes e fracassados (tenha nisso o leitor a exata medida da minha ingênua arrogância...). O posterior envolvimento mais intenso com o punk e o anarquismo esvaziaram-me de qualquer espiritualidade e, convicto da ausência de qualquer metafísica, via nas manifestações de qualquer fé um fórmula pronta feita de esperanças vazias e manipulação de consciências. O texto “Dez provas da inexistência de Deus”, de Sebastien Faure, tornou-se meu guia absoluto, substituindo o catecismo dos padres com as luzes do esclarecimento. Incapaz de ver além dos limites de um ateísmo militante e severo, sustentado com o fervor da bandeira vermelho e negra, tornei-me um guerreiro da descrença e do materialismo. Dediquei zines ao tema, e nas bandas nas quais toquei o tema era sempre presente. 
O período de ateísmo não foi, entretanto, “puro”: aqui e ali houve flertes com o mundo da magia. Por exemplo, uma das músicas que escrevi para uma das bandas que toquei, o Life is a Lie, chamava-se “Estrela”, e era Thelema puro. Eis um trecho da letra:

Olhe o céu, veja as estrelas, estão sempre a brilhar
uma órbita para cada estrela estar
E assim continuam seu luminoso movimento
A dançar no infinito firmamento
E de passos tão perfeitos é este balé estelar
que, embora estejam próximas, nunca chegam a se tocar
continuam seguindo a si próprias, fiéis somente ao seu instinto
fazendo do seu caminho, um caminho nunca antes visto
e enquanto observava a riqueza das constelações
uma estrela aproximou-se e começou a me dizer :
"Nasceste como estrela , e como estrela deves viver
levanta-te agora, está na hora de você saber!"
"o Homem é como uma estrela
só tem uma órbita , a única verdadeira
somente a ela deve obedecer
sua vontade é sua única lei
fazer aquilo que o coração deseja
eis a liberdade que tanto se almeja"

Ali já estavam as sementes do interesse genuíno que floresceria mais adiante.  Estava em sintonia, também, com a veia anarquista que me alimentava naquele momento, assim como aos outros membros da banda. O apelo de liberdade de Thelema, aliás, é perfeitamente harmonizável com uma ótica libertária, e talvez tenha sido o meu interesse primitivo por magia e essa “licença” anarquista que me fizeram comprar livros de Crowley e sobre a Golden Dawn nesse período, realimentando o interesse pela magia, agora já em um momento mais maduro da vida. Começava aí o caminho de retorno ao ponto no qual eu havia parado anos atrás, quando o impulso demiúrgico interrompeu o fluxo dos estudos sobre o Oculto, e a lenta porém constante abertura para realidades além-da-matéria (que foram completamente erradicadas da minha vida por muito tempo). As leituras sobre o tema foram se acentuando, as reflexões me dominando, de modo que não conseguia deixar de me arrepender de não ter me dedicado a isso antes, muito antes... Mas também aprendi que as coisas acontecem porque sim, em seu próprio tempo, e por insondáveis vias nossos caminhos são construídos até um ponto onde precisamos assumir a responsabilidade pelo que vem em seguida. Hoje, não consigo imaginar-me sem a magia, sem estar permanentemente em uma atmosfera do sagrado que seja desafiadora e integral. Porque é só nessa atmosfera, nesse ambiente, que me sinto em casa. Todas as situações mundanas me causam uma espécie de tédio. Passo por elas como um estrangeiro: com curiosidade e prazer, mas sem fazer parte. Não é o meu mundo e tampouco quero que seja.

Foi com isso em mente que busquei desenvolver, de modo sistemático, um plano de estudos mágickos para 2016. Era como retomar um caminho há muito tempo trilhado, deixado quase no esquecimento, agora com vontade e condições muito melhor desenvolvidas. Nessa busca, três leituras foram mais do que fundamentais. Comentarei brevemente cada uma delas a seguir.

A primeira foi o “O renascer da magia”, de Kenneth Grant. Uma resenha detalhada do livro foi publicada aqui no blog. Considerada uma obra fundamental do revival mágico, dos anos 70, Grant reconstrói a meta-história da Corrente Draconiana, tomando como base os sistemas desenvolvidos por Crowley e Austin Osman Spare. Nessa reconstrução, o autor busca estabelecer o vínculo essencial entre o culto primordial a Shaitan, cuja origem se perde na noite dos tempos, com o deus egípcio Set e, deste, com o sistema thelêmico – sistema esse que, na assim chamada “Operação do Cairo” de 1904, quando Crowley recebeu o Livro da Lei através da entidade praeter humana Aiwass, representa o renascimento da magia no seio da humanidade. Tal renascimento tem como propósito despedaçar as antigas verdades da Era de Peixes e preparar o advento da Era de Aquário, onde os aspectos masculinos e femininos encontrarão o equilíbrio e a sexualidade será, após milênios de culpa e repressão, reverenciada como sagrada e portal para acesso a novos patamares de consciência e liberdade. 


A leitura dessa obra teve duas capitais importâncias: a primeira foi clarificar uma série de conceitos que aparecem nos Livros de Thelema, que havia lido há muitos anos, como por exemplo Babalon, Nuit e Ra-Hoor-Khuit (após a leitura de “Renascer”, eu percorri de novo as páginas dos Livros de Thelema e, embora ele ainda permaneça pleno de enigmas, foi como descobrir uma nova e maravilhosa obra); a outra foi o grande panorama sobre o Caminho da Mão Esquerda, onde se percebe que o conceito de Shaitan – representando o poder das forças obscuras e incontroláveis do Cosmo – tomou formas impressionantemente diversas ao longo dos tempos e lugares. E embora no renascimento mágico capitaneado por Thelema o panteão egípcio seja adotado como forma-deus principal ele é apenas uma das formas possíveis para se experimentar conceitos e forças incrivelmente mais antigos e abstratos (e pesa nessa decisão não somente o simbolismo ancestral, mas o fato do Egito ser uma ex-colônia inglesa: há milhares de tesouros egípcios amontoados nos museus – e residências – da Inglaterra... A egiptologia nasce como uma forma de tratar espólios de guerra). E é interessante também a genealogia da concepção de tempo mágico demonstrada por Grant, que partiu de uma concepção estelar – com ciclos cósmicos muito maiores, onde nem o Sol nem a Lua tinham um papel preponderante – para depois ir rumo a uma concepção solar-lunar onde havia um parco equilíbrio das forças luminosas e obscuras, com Set e Hórus não sendo mais poderes iguais brigando entre si, mas potências cada vez mais distintas e separadas, até culminar na rejeição completa de Set como senhor dos infernos e outorgar a vitória completa ao Sol, símbolo de Hórus. Desse meta-evento a conseqüência histórica foi a demonização da Lua, rebaixada como um astro menor e que apenas refletia o brilho do Sol, que passou a encarnar o apogeu de toda a divindade; e como decorrência disso, o aspecto feminino da existência (representado pelo aspecto lunar) também foi rebaixado e considerado impuro e perigoso. Coincidência ou não, é partir desse momento que tem início as grandes civilizações históricas, onde amiúde a divindade máxima era relacionada ao Sol, acompanhada de uma preponderância do elemento masculino e um desprestígio mais intenso do feminino – e é sobre esse desequilíbrio fundamental que se desenvolveram as Eras de Áries e especialmente a de Peixes, onde não apenas a figura da mulher foi ainda mais rebaixada como a demonização do prazer e do sexo.

A segunda leitura importante foi “Cabala, Qliphoth e Magia Goética”, do sueco Thomas Karlsson. Nascido em 1972, Karlsson é um erudito em história, religião, mitologia, runosofia e filosofia, com doutorado em história da religião pela Universidade de Estocolmo onde, em 2007, criou a primeira cátedra universitária em Esoterismo Ocidental. É também fundador da Dragon Rouge, ordem mágico-iniciática que trabalha com o Caminho da Mão Esquerda, a Tradição Draconiana e o lado obscuro da Cabala, as Qliphoth. É justamente sobre esse lado negro da Cabala que ocupa a maior parte do livro e, também, o que mais me interessou. Resumidamente, o cerne da Cabala é Árvore da Vida onde as Sephiroth, ou “emanações” da divindade, organizam-se em níveis, do mais denso (Malkuth, que corresponde ao plano material) até Kether (o topo da árvore sephirótica e o aspecto incognoscível de Deus). As qliphoth são uma espécie de contraponto dessa árvore, compondo elas também uma contra-estrutura oposta a esta, chamada de Árvore da Morte ou Árvore do Conhecimento, e relaciona-se com as forças demoníacas e opositoras da Criação. Sua origem é controversa: alguns dizem que se trata de uma obra do próprio Deus, como forma de balancear a criação; outros sustentam que se tratam de fagulhas de mundos criados muito antes do nosso, que enveredaram por erros grotescos até se transformarem em mundos sem nenhuma espécie de bondade ou esperança e, por isso, foram destruídos por Deus; essas fagulhas contaminaram a criação do nosso mundo, erigindo a Árvore da Morte. Seja como for, fato é que as qliphoth são praticamente ignoradas pela imensa maioria dos estudiosos da Cabala, quando muito comentadas como notas de rodapé. O livro de Karlsson tem o mérito de ser um estudo conciso e rigoroso sobre o tema, contextualizando as qliphoth dentro do panorama geral da Cabala e dando a este saber obscuro o valor que merece ter – um caminho iniciático cuja meta, diferente daquela buscada pela Mão Direita (a integração do homem com a divindade), é tornar-se um deus. O homem, então, tem em si potencialidades divinas que só podem aflorar através do Caminho da Mão Esquerda, fazendo a travessia dos abismos profundos e desconhecidos de si mesmo (processo de interiorização), saindo dos limites seguros (e aprisionantes, vale dizer) da Luz e entrando no mundo de possibilidades e perigos infinitos da Escuridão. É a única possibilidade de deixar de ser criatura e tornar-se um criador amplo do próprio destino. Thomas Karlsson coloca esse pensamento de forma exemplar nesse trecho:

“O esoterismo da luz conduz à unidade com os deuses masculinos da luz, como Jeová e Marduk; por outro lado, o esoterismo da escuridão conduz às formas-dragão primevas, como Leviatã, Tehom e Tiamat, que existiam muito antes dos deuses da Luz divina. Para o adepto iniciado no caminho qliphótico, a escuridão do infinito é uma luz oculta tão infinitamente mais poderosa que a luz dos deuses é percebida como treva” (94)

O grifo no trecho anterior é meu, e nele reside o grande ensinamento que retirei desse livro de Karlsson: a primordialidade do Mal. Mais de uma tradição coloca que os deuses obscuros antecedem a criação e os próprios deuses demiúrgicos. E aqui vale esclarecer que esse Mal nada tem a ver com a maldade humana e banal do cotidiano, que assume as formas que todos conhecemos através das páginas dos jornais e dos livros de história: como Karlsson coloca, a “maldade cinza é humana, demasiada humana, enquanto o mal metafísico é negro como a noite e inteiramente inumano” (13). O Mal aqui é tanto uma força de destruição quanto de criação, que provoca os limites do ser e o instiga a ir além da Criação, para o Outro Lado, o Sitra Ahra, o mundo amorfo e acausal das Qliphoth. Aqui saímos daquela concepção tão fantasiosamente rockeira do Mal como uma coleção de vestimentas negras, cruzes invertidas e imagens de Baphomet (que por mais tosca que possa ser, é muitas vezes o primeiro contato que o indivíduo tem com esses temas, e nisso eu e muitos dos meus comparsas estamos incluídos com orgulho) para entrar na complexidade do satanismo anti-cósmico, que conheci através do Temple of the Black Light e que, após a leitura de Karlsson, consegui compreender de modo muito mais completo.  Não só isso: a diferença essencial entre os tipos de iniciação também ficou muito mais nítida e completa.
a Árvore do Conhecimento ou Árvore Qliphótica

A terceira leitura foi uma grata surpresa e espécie de caldeirão que serviu como aglutinador não só das duas anteriores, como de outros livros que li ao longo do ano (seria desnecessário comentar todos aqui, mas gostaria de citar outros três títulos importantes: “Psiconauta” e “Liber Null”, de Peter Carrol, obras fundacionais da Magia do Caos, e “Þursakyngi: the essence of Thursian Sorcery”, de Ekortu, que explora o lado obscuro das runas e dos deuses nórdicos para além daquela baboseira sem fim de Odin, Thor, etc). E diferente das duas leituras anteriores, essa não foi um livro, mas uma entrevista publicada no site francês Rat Holes com o Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, que o leitor pode conferir nesse link. Foi o meu primeiro contato com trabalho do templo e uma verdadeira aula sobre quimbanda, culto brasileiro que eu desconhecia quase completamente. Basicamente, diferente da umbanda e do candomblé, cujos orixás são representações de forças da natureza, na quimbanda as entidades reverenciadas são espíritos do mundo dos mortos, representadas por Exus e Pombas-gira. O templo também busca uma autenticidade e originalidade para sua visão de quimbanda, cuja proposta tem como cerne a não-estagnação, isto é, ser um polo aglutinador de outras tendências sinistras tendo como base cultos ancestrais de origem africana, indígena, xamânica e de bruxaria européia – um culto onde os três grandes troncos formadores da “identidade nacional” (entre aspas pois considero que no Brasil somos uma coleção de identidades regionais, sendo difícil estabelecer um substrato comum a todas elas) , o negro, o índio e o europeu, tem sua parcela de colaboração. 

Por muitos anos, a quimbanda sofreu incontáveis preconceitos – até mesmo maiores e mais fortes do que outros cultos de matriz africana. Esse preconceito não vinha apenas de intolerantes cristãos, mas também de umbandistas que rebaixavam a quimbanda como uma prática de pura e mesquinha feitiçaria, sem nenhum propósito engrandecedor. Isso é, segundo o templo diz na entrevista, ainda muito recente; mas com o advento da Internet, interessados por temas ocultos começaram a pesquisar mais sobre a quimbanda, tanto no Brasil quanto no exterior, possibilitando que equívocos fossem desfeitos e a real face da quimbanda se manifestasse. A proposta do templo é ser uma força atuante nesse contexto. Cito um trecho da entrevista abaixo (traduzido):

“Apesar de espalhar a palavra "Quimbanda", entendo que o nome é apenas uma maneira de dar graças, glorificar e dar continuidade ao legado dos feiticeiros índios, africanos e europeus por suas lutas e contribuições feitas a uma religião onde seus adversários eram os verdadeiros escravos. Tudo o que acreditamos ter sido feito pelo sangue de nossos antepassados e baseado em uma mistura de suas crenças, medos e amores. Damos continuidade à tradição dos totens macabros, estátuas com chifres e caudas, e os feitiços que corrompem a estrutura da fé. Não buscamos um retorno à pureza, vivemos em um estado de combate diário e precisamos da força dos espíritos ancestrais para que possamos incutir medo e pânico nos descendentes dos colonos. Quimbanda é a religião da Liberdade!”

foto de divulgação do livro "Quimbanda: o culto da chama vermelha e negra", editado pelo Templo
A entrevista foi o passaporte para conhecer o site do templo e ler outros textos, donde destaco “Exu – entre o cosmo e o caos”, que apresenta uma visão sobre essa entidade tão complexa e temida. Mas nela eu já havia aprendido muito, e principalmente fez olhar para eu mesmo, para todas as leituras realizadas e para aquele plano feito no final de 2015, de dedicar o ano ao estudo da magia e do oculto, e perceber que não havia sequer um autor nacional, nem sequer um livro sobre cultos de mão esquerda nascidos aqui, e que esses são tão ricos e profundos quanto qualquer outro sistema. Mais do que isso: tinham em sua essência a mesma audácia, a mesma Chama Negra, só que com outros nomes. E pensando em como o Sinistro se manifesta ao longo do tempo e do espaço, vê-se que as cores locais guardam sempre mais poder e mais eficácia para o magista. Parecia, mais uma vez, a ação do Império, até mesmo no reduto da magia, fazendo com que eu negligenciasse o que estava logo aqui, ao alcance de minha mão, presente no ar que respiro e na terra que vivo, pulsando com ardor. 

É com esses pensamentos que chego ao final de 2016, ano que foi marcado por muito recolhimento e interiorização, por muito estudos e descobertas sobre temas que me interessam desde sempre, e que por anos estupidamente negligenciei. Todavia, não tenho nenhuma ambição de tornar-me um erudito em magia, decorando passagens de livros e acumulando-os pela casa: meu interesse é evoluir espiritualmente, obter a gnose que só é acessível – e nisso todos as escolas e templos concordam – através da prática. Realizar a Via Sinistra como um compromisso real, além de tudo o que é mundano, acima das banalidades do mundo moderno e suas aberrações. Qual caminho exatamente seguir, ainda não consigo saber. Mas se é real a frase “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”, o que me resta fazer é esperar. Mantenho, então, alerta, vigilante e atento aos sinais, de costas para a Luz Demiúrgica e buscando abismos cada vez mais escuros, mais profundos, mais desafiadores - pois só no esforço e na superação é possível encontrar real valor.