12.31.2016

Retrospectiva mágica de 2016


Retrospectivas são, via de regra, um amontoado de coisas ridículas. Olhamos os erros como lições, convictos de que nos tornaremos seres humanos melhores no ciclo novo que se inicia. Fazemos dezenas de promessas que – pressentimos, no íntimo oculto que não se revela jamais – que serão logo esquecidas, repensadas com zelo até encontrarmos uma boa e infalível justificativa para nossos novos fracassos. Isso é o cotidiano banal das massas amorfas que, seja por uma condição material angustiante, seja por um embotamento radical da vontade (ou uma corrosiva combinação de ambos, o que é mais comum) passa os anos que separam do nascimento até a morte em um estado letárgico, sendo empurrados  de circunstâncias, sempre novas e desafiadoras, sugando-lhes cada partícula de energia vital até que o estado semimorto se torne definitivo. À mercê dos caprichos da Matéria e de suas armadilhas: é esta a sina de tudo que respira nessa era cada vez mais densa e enlouquecida. Não é, definitivamente, o que uma pessoa sã escolheria para si de livre e espontânea vontade. 

Foram mais ou menos essas as reflexões que tive nos momentos finais de 2015, e que me levaram a almejar que o ano de 2016 seria diferente. Um ano onde eu dedicaria o máximo de tempo possível a um desejo muito antigo, que pulsava desde bem cedo e tinha se manifestado de diferentes formas e intensidades ao longo dos anos. Olhando agora, nos derradeiros momentos de dezembro, posso dizer que o plano foi bem sucedido. O desejo a qual me refiro é o estudo da magia e do universo do oculto, e nesse post – repleto do ridículo que são todas as retrospectivas – falarei um pouco do resultado desses estudos e de perspectivas para 2017.

Não é exagerado afirmar que me interesso pela magia e o oculto desde a infância. Isso não é o mesmo que dizer que eu fazia o ritual menor do pentagrama aos cinco anos de idade, mas tudo que tinha relação com mundos fantasiosos e criaturas demoníacas despertava meu interesse de modo imediato. Favoreceu esse interesse crescer em uma casa onde, se não abundavam livros, sempre houve algo para se ler e especialmente sobre temas ocultos ou correlatos. Encantava-me especialmente uma enciclopédia da Disney, que eu folheava sem nem ao menos saber ler, onde entre tantas ilustrações me chamava a atenção a imagem de um quadro com uma mulher deitada em uma cama, com um demônio sentado sobre ela e uma horrenda cabeça de cavalo sendo projetada através da parede (trata-se do quadro “O Pesadelo”, de Fuseli, abaixo reproduzido). Apesar da admiração por esse quadro não ter rigorosamente nada a ver com magia, ele relaciona-se com o meu interesse pelo universo do onírico, pois eu sabia que aquele quadro retratava as imagens que atormentavam o sono daquela mulher. As possibilidades que havia no mundo dos sonhos eram para mim incríveis, e isso favoreceu imensamente, um pouco mais tarde, já tendo aprendido as primeiras letras, que eu devorasse apostilas de um curso de parapsicologia que meu pai havia feito, especialmente a parte que falava sobre viagens astrais. Saber que era possível adentrar o mundo dos sonhos de modo consciente foi uma descoberta incrível e por muito tempo tentei aplicar a técnica de sonhos lúcidos, mas com pouco sucesso.  Além dessas apostilas, em casa sempre havia revistas de Ufologia (uma paixão de meu pai), revistas onde amiúde era possível encontrar matérias sobre magia e ocultismo. Foi mais ou menos nessa época que, através do Círculo do Livro da Ediouro (um clube de compras de livros por reembolso postal, relativamente comum nos anos oitenta), pedi aos meus pais que me comprassem alguns livros e, entre títulos de ficção da coleção Você Decide, também pedi títulos como: O Xamanismo, A Sabedoria da Índia, O Livro da Cabra Preta, Os Mistérios da Cabala, As Clavículas de Salomão e As Chaves Ocultas do Poder. Eu devia ter 10 anos quando comprei esses títulos e, até onde consigo recordar, foram lidos com um misto de terror e fascinação. O destino deles também não sei precisar, alguns foram emprestados para pessoas com as quais não tenho mais nenhuma espécie de contato. O curioso nisso tudo é que meu interesse prematuro por magia colocou-me em contato com alguns textos que podem ser considerados como fundacionais da magia ocidental, que é o caso das Clavículas. Obviamente, a compreensão da leitura era bastante limitada. A herança que permaneceu de tais leituras, que subsistiu em meio a uma educação fervorosamente católica, é que existia algo além do mundo físico, que era pleno de poder e conhecimento, e esse algo não era apenas Deus.

Por que não desenvolvi os estudos sobre magia e ocultismo de modo sistemático desde aquele então? – essa pergunta retorna a mim de tempos em tempos, e hoje, graças ao distanciamento, consigo entender o que ocorreu: houve um “movimento de ofensiva” da esfera demiúrgica, cristalizada na figura do catolicismo. Foi mais ou menos na época da aquisição dos livros que me colocaram na primeira comunhão e, embora eu não me recorde de detalhes, pelo menos alguma parte de mim deve ter ficado bastante confusa. Com o Crisma e participação em grupos de oração eu entrei total e definitivamente no catolicismo, deixando, então, tudo relacionado ao oculto de lado.  Isso durou do final da infância à pré-adolescência, mais ou menos. Com a puberdade veio o furacão das contradições, acendendo a chama da revolta, alimentada pela descoberta do rock, em especial o punk e o metal. Foi principalmente por influência destes que fui apresentado ao ateísmo, que surgiu como a negação radical tanto do catolicismo como do ocultismo. Naquele momento, parecia ser um salto para além daquelas limitações, daqueles conflitos, um deixar-para-trás as tolices cristãs e as superstições da magia. Niilista total, enxergava em ambas as vias, a da Luz e a das Trevas (quer dizer, em como eu compreendia essas vias naquele momento), apenas muletas espirituais para ignorantes e fracassados (tenha nisso o leitor a exata medida da minha ingênua arrogância...). O posterior envolvimento mais intenso com o punk e o anarquismo esvaziaram-me de qualquer espiritualidade e, convicto da ausência de qualquer metafísica, via nas manifestações de qualquer fé um fórmula pronta feita de esperanças vazias e manipulação de consciências. O texto “Dez provas da inexistência de Deus”, de Sebastien Faure, tornou-se meu guia absoluto, substituindo o catecismo dos padres com as luzes do esclarecimento. Incapaz de ver além dos limites de um ateísmo militante e severo, sustentado com o fervor da bandeira vermelho e negra, tornei-me um guerreiro da descrença e do materialismo. Dediquei zines ao tema, e nas bandas nas quais toquei o tema era sempre presente. 
O período de ateísmo não foi, entretanto, “puro”: aqui e ali houve flertes com o mundo da magia. Por exemplo, uma das músicas que escrevi para uma das bandas que toquei, o Life is a Lie, chamava-se “Estrela”, e era Thelema puro. Eis um trecho da letra:

Olhe o céu, veja as estrelas, estão sempre a brilhar
uma órbita para cada estrela estar
E assim continuam seu luminoso movimento
A dançar no infinito firmamento
E de passos tão perfeitos é este balé estelar
que, embora estejam próximas, nunca chegam a se tocar
continuam seguindo a si próprias, fiéis somente ao seu instinto
fazendo do seu caminho, um caminho nunca antes visto
e enquanto observava a riqueza das constelações
uma estrela aproximou-se e começou a me dizer :
"Nasceste como estrela , e como estrela deves viver
levanta-te agora, está na hora de você saber!"
"o Homem é como uma estrela
só tem uma órbita , a única verdadeira
somente a ela deve obedecer
sua vontade é sua única lei
fazer aquilo que o coração deseja
eis a liberdade que tanto se almeja"

Ali já estavam as sementes do interesse genuíno que floresceria mais adiante.  Estava em sintonia, também, com a veia anarquista que me alimentava naquele momento, assim como aos outros membros da banda. O apelo de liberdade de Thelema, aliás, é perfeitamente harmonizável com uma ótica libertária, e talvez tenha sido o meu interesse primitivo por magia e essa “licença” anarquista que me fizeram comprar livros de Crowley e sobre a Golden Dawn nesse período, realimentando o interesse pela magia, agora já em um momento mais maduro da vida. Começava aí o caminho de retorno ao ponto no qual eu havia parado anos atrás, quando o impulso demiúrgico interrompeu o fluxo dos estudos sobre o Oculto, e a lenta porém constante abertura para realidades além-da-matéria (que foram completamente erradicadas da minha vida por muito tempo). As leituras sobre o tema foram se acentuando, as reflexões me dominando, de modo que não conseguia deixar de me arrepender de não ter me dedicado a isso antes, muito antes... Mas também aprendi que as coisas acontecem porque sim, em seu próprio tempo, e por insondáveis vias nossos caminhos são construídos até um ponto onde precisamos assumir a responsabilidade pelo que vem em seguida. Hoje, não consigo imaginar-me sem a magia, sem estar permanentemente em uma atmosfera do sagrado que seja desafiadora e integral. Porque é só nessa atmosfera, nesse ambiente, que me sinto em casa. Todas as situações mundanas me causam uma espécie de tédio. Passo por elas como um estrangeiro: com curiosidade e prazer, mas sem fazer parte. Não é o meu mundo e tampouco quero que seja.

Foi com isso em mente que busquei desenvolver, de modo sistemático, um plano de estudos mágickos para 2016. Era como retomar um caminho há muito tempo trilhado, deixado quase no esquecimento, agora com vontade e condições muito melhor desenvolvidas. Nessa busca, três leituras foram mais do que fundamentais. Comentarei brevemente cada uma delas a seguir.

A primeira foi o “O renascer da magia”, de Kenneth Grant. Uma resenha detalhada do livro foi publicada aqui no blog. Considerada uma obra fundamental do revival mágico, dos anos 70, Grant reconstrói a meta-história da Corrente Draconiana, tomando como base os sistemas desenvolvidos por Crowley e Austin Osman Spare. Nessa reconstrução, o autor busca estabelecer o vínculo essencial entre o culto primordial a Shaitan, cuja origem se perde na noite dos tempos, com o deus egípcio Set e, deste, com o sistema thelêmico – sistema esse que, na assim chamada “Operação do Cairo” de 1904, quando Crowley recebeu o Livro da Lei através da entidade praeter humana Aiwass, representa o renascimento da magia no seio da humanidade. Tal renascimento tem como propósito despedaçar as antigas verdades da Era de Peixes e preparar o advento da Era de Aquário, onde os aspectos masculinos e femininos encontrarão o equilíbrio e a sexualidade será, após milênios de culpa e repressão, reverenciada como sagrada e portal para acesso a novos patamares de consciência e liberdade. 


A leitura dessa obra teve duas capitais importâncias: a primeira foi clarificar uma série de conceitos que aparecem nos Livros de Thelema, que havia lido há muitos anos, como por exemplo Babalon, Nuit e Ra-Hoor-Khuit (após a leitura de “Renascer”, eu percorri de novo as páginas dos Livros de Thelema e, embora ele ainda permaneça pleno de enigmas, foi como descobrir uma nova e maravilhosa obra); a outra foi o grande panorama sobre o Caminho da Mão Esquerda, onde se percebe que o conceito de Shaitan – representando o poder das forças obscuras e incontroláveis do Cosmo – tomou formas impressionantemente diversas ao longo dos tempos e lugares. E embora no renascimento mágico capitaneado por Thelema o panteão egípcio seja adotado como forma-deus principal ele é apenas uma das formas possíveis para se experimentar conceitos e forças incrivelmente mais antigos e abstratos (e pesa nessa decisão não somente o simbolismo ancestral, mas o fato do Egito ser uma ex-colônia inglesa: há milhares de tesouros egípcios amontoados nos museus – e residências – da Inglaterra... A egiptologia nasce como uma forma de tratar espólios de guerra). E é interessante também a genealogia da concepção de tempo mágico demonstrada por Grant, que partiu de uma concepção estelar – com ciclos cósmicos muito maiores, onde nem o Sol nem a Lua tinham um papel preponderante – para depois ir rumo a uma concepção solar-lunar onde havia um parco equilíbrio das forças luminosas e obscuras, com Set e Hórus não sendo mais poderes iguais brigando entre si, mas potências cada vez mais distintas e separadas, até culminar na rejeição completa de Set como senhor dos infernos e outorgar a vitória completa ao Sol, símbolo de Hórus. Desse meta-evento a conseqüência histórica foi a demonização da Lua, rebaixada como um astro menor e que apenas refletia o brilho do Sol, que passou a encarnar o apogeu de toda a divindade; e como decorrência disso, o aspecto feminino da existência (representado pelo aspecto lunar) também foi rebaixado e considerado impuro e perigoso. Coincidência ou não, é partir desse momento que tem início as grandes civilizações históricas, onde amiúde a divindade máxima era relacionada ao Sol, acompanhada de uma preponderância do elemento masculino e um desprestígio mais intenso do feminino – e é sobre esse desequilíbrio fundamental que se desenvolveram as Eras de Áries e especialmente a de Peixes, onde não apenas a figura da mulher foi ainda mais rebaixada como a demonização do prazer e do sexo.

A segunda leitura importante foi “Cabala, Qliphoth e Magia Goética”, do sueco Thomas Karlsson. Nascido em 1972, Karlsson é um erudito em história, religião, mitologia, runosofia e filosofia, com doutorado em história da religião pela Universidade de Estocolmo onde, em 2007, criou a primeira cátedra universitária em Esoterismo Ocidental. É também fundador da Dragon Rouge, ordem mágico-iniciática que trabalha com o Caminho da Mão Esquerda, a Tradição Draconiana e o lado obscuro da Cabala, as Qliphoth. É justamente sobre esse lado negro da Cabala que ocupa a maior parte do livro e, também, o que mais me interessou. Resumidamente, o cerne da Cabala é Árvore da Vida onde as Sephiroth, ou “emanações” da divindade, organizam-se em níveis, do mais denso (Malkuth, que corresponde ao plano material) até Kether (o topo da árvore sephirótica e o aspecto incognoscível de Deus). As qliphoth são uma espécie de contraponto dessa árvore, compondo elas também uma contra-estrutura oposta a esta, chamada de Árvore da Morte ou Árvore do Conhecimento, e relaciona-se com as forças demoníacas e opositoras da Criação. Sua origem é controversa: alguns dizem que se trata de uma obra do próprio Deus, como forma de balancear a criação; outros sustentam que se tratam de fagulhas de mundos criados muito antes do nosso, que enveredaram por erros grotescos até se transformarem em mundos sem nenhuma espécie de bondade ou esperança e, por isso, foram destruídos por Deus; essas fagulhas contaminaram a criação do nosso mundo, erigindo a Árvore da Morte. Seja como for, fato é que as qliphoth são praticamente ignoradas pela imensa maioria dos estudiosos da Cabala, quando muito comentadas como notas de rodapé. O livro de Karlsson tem o mérito de ser um estudo conciso e rigoroso sobre o tema, contextualizando as qliphoth dentro do panorama geral da Cabala e dando a este saber obscuro o valor que merece ter – um caminho iniciático cuja meta, diferente daquela buscada pela Mão Direita (a integração do homem com a divindade), é tornar-se um deus. O homem, então, tem em si potencialidades divinas que só podem aflorar através do Caminho da Mão Esquerda, fazendo a travessia dos abismos profundos e desconhecidos de si mesmo (processo de interiorização), saindo dos limites seguros (e aprisionantes, vale dizer) da Luz e entrando no mundo de possibilidades e perigos infinitos da Escuridão. É a única possibilidade de deixar de ser criatura e tornar-se um criador amplo do próprio destino. Thomas Karlsson coloca esse pensamento de forma exemplar nesse trecho:

“O esoterismo da luz conduz à unidade com os deuses masculinos da luz, como Jeová e Marduk; por outro lado, o esoterismo da escuridão conduz às formas-dragão primevas, como Leviatã, Tehom e Tiamat, que existiam muito antes dos deuses da Luz divina. Para o adepto iniciado no caminho qliphótico, a escuridão do infinito é uma luz oculta tão infinitamente mais poderosa que a luz dos deuses é percebida como treva” (94)

O grifo no trecho anterior é meu, e nele reside o grande ensinamento que retirei desse livro de Karlsson: a primordialidade do Mal. Mais de uma tradição coloca que os deuses obscuros antecedem a criação e os próprios deuses demiúrgicos. E aqui vale esclarecer que esse Mal nada tem a ver com a maldade humana e banal do cotidiano, que assume as formas que todos conhecemos através das páginas dos jornais e dos livros de história: como Karlsson coloca, a “maldade cinza é humana, demasiada humana, enquanto o mal metafísico é negro como a noite e inteiramente inumano” (13). O Mal aqui é tanto uma força de destruição quanto de criação, que provoca os limites do ser e o instiga a ir além da Criação, para o Outro Lado, o Sitra Ahra, o mundo amorfo e acausal das Qliphoth. Aqui saímos daquela concepção tão fantasiosamente rockeira do Mal como uma coleção de vestimentas negras, cruzes invertidas e imagens de Baphomet (que por mais tosca que possa ser, é muitas vezes o primeiro contato que o indivíduo tem com esses temas, e nisso eu e muitos dos meus comparsas estamos incluídos com orgulho) para entrar na complexidade do satanismo anti-cósmico, que conheci através do Temple of the Black Light e que, após a leitura de Karlsson, consegui compreender de modo muito mais completo.  Não só isso: a diferença essencial entre os tipos de iniciação também ficou muito mais nítida e completa.
a Árvore do Conhecimento ou Árvore Qliphótica

A terceira leitura foi uma grata surpresa e espécie de caldeirão que serviu como aglutinador não só das duas anteriores, como de outros livros que li ao longo do ano (seria desnecessário comentar todos aqui, mas gostaria de citar outros três títulos importantes: “Psiconauta” e “Liber Null”, de Peter Carrol, obras fundacionais da Magia do Caos, e “Þursakyngi: the essence of Thursian Sorcery”, de Ekortu, que explora o lado obscuro das runas e dos deuses nórdicos para além daquela baboseira sem fim de Odin, Thor, etc). E diferente das duas leituras anteriores, essa não foi um livro, mas uma entrevista publicada no site francês Rat Holes com o Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, que o leitor pode conferir nesse link. Foi o meu primeiro contato com trabalho do templo e uma verdadeira aula sobre quimbanda, culto brasileiro que eu desconhecia quase completamente. Basicamente, diferente da umbanda e do candomblé, cujos orixás são representações de forças da natureza, na quimbanda as entidades reverenciadas são espíritos do mundo dos mortos, representadas por Exus e Pombas-gira. O templo também busca uma autenticidade e originalidade para sua visão de quimbanda, cuja proposta tem como cerne a não-estagnação, isto é, ser um polo aglutinador de outras tendências sinistras tendo como base cultos ancestrais de origem africana, indígena, xamânica e de bruxaria européia – um culto onde os três grandes troncos formadores da “identidade nacional” (entre aspas pois considero que no Brasil somos uma coleção de identidades regionais, sendo difícil estabelecer um substrato comum a todas elas) , o negro, o índio e o europeu, tem sua parcela de colaboração. 

Por muitos anos, a quimbanda sofreu incontáveis preconceitos – até mesmo maiores e mais fortes do que outros cultos de matriz africana. Esse preconceito não vinha apenas de intolerantes cristãos, mas também de umbandistas que rebaixavam a quimbanda como uma prática de pura e mesquinha feitiçaria, sem nenhum propósito engrandecedor. Isso é, segundo o templo diz na entrevista, ainda muito recente; mas com o advento da Internet, interessados por temas ocultos começaram a pesquisar mais sobre a quimbanda, tanto no Brasil quanto no exterior, possibilitando que equívocos fossem desfeitos e a real face da quimbanda se manifestasse. A proposta do templo é ser uma força atuante nesse contexto. Cito um trecho da entrevista abaixo (traduzido):

“Apesar de espalhar a palavra "Quimbanda", entendo que o nome é apenas uma maneira de dar graças, glorificar e dar continuidade ao legado dos feiticeiros índios, africanos e europeus por suas lutas e contribuições feitas a uma religião onde seus adversários eram os verdadeiros escravos. Tudo o que acreditamos ter sido feito pelo sangue de nossos antepassados e baseado em uma mistura de suas crenças, medos e amores. Damos continuidade à tradição dos totens macabros, estátuas com chifres e caudas, e os feitiços que corrompem a estrutura da fé. Não buscamos um retorno à pureza, vivemos em um estado de combate diário e precisamos da força dos espíritos ancestrais para que possamos incutir medo e pânico nos descendentes dos colonos. Quimbanda é a religião da Liberdade!”

foto de divulgação do livro "Quimbanda: o culto da chama vermelha e negra", editado pelo Templo
A entrevista foi o passaporte para conhecer o site do templo e ler outros textos, donde destaco “Exu – entre o cosmo e o caos”, que apresenta uma visão sobre essa entidade tão complexa e temida. Mas nela eu já havia aprendido muito, e principalmente fez olhar para eu mesmo, para todas as leituras realizadas e para aquele plano feito no final de 2015, de dedicar o ano ao estudo da magia e do oculto, e perceber que não havia sequer um autor nacional, nem sequer um livro sobre cultos de mão esquerda nascidos aqui, e que esses são tão ricos e profundos quanto qualquer outro sistema. Mais do que isso: tinham em sua essência a mesma audácia, a mesma Chama Negra, só que com outros nomes. E pensando em como o Sinistro se manifesta ao longo do tempo e do espaço, vê-se que as cores locais guardam sempre mais poder e mais eficácia para o magista. Parecia, mais uma vez, a ação do Império, até mesmo no reduto da magia, fazendo com que eu negligenciasse o que estava logo aqui, ao alcance de minha mão, presente no ar que respiro e na terra que vivo, pulsando com ardor. 

É com esses pensamentos que chego ao final de 2016, ano que foi marcado por muito recolhimento e interiorização, por muito estudos e descobertas sobre temas que me interessam desde sempre, e que por anos estupidamente negligenciei. Todavia, não tenho nenhuma ambição de tornar-me um erudito em magia, decorando passagens de livros e acumulando-os pela casa: meu interesse é evoluir espiritualmente, obter a gnose que só é acessível – e nisso todos as escolas e templos concordam – através da prática. Realizar a Via Sinistra como um compromisso real, além de tudo o que é mundano, acima das banalidades do mundo moderno e suas aberrações. Qual caminho exatamente seguir, ainda não consigo saber. Mas se é real a frase “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”, o que me resta fazer é esperar. Mantenho, então, alerta, vigilante e atento aos sinais, de costas para a Luz Demiúrgica e buscando abismos cada vez mais escuros, mais profundos, mais desafiadores - pois só no esforço e na superação é possível encontrar real valor.

10.24.2016

Entrevista com Pharzhup (Lucifer Luciferax zine)



Essa é a primeira de outras entrevistas que desejo publicar aqui com pessoas ligadas ao Caminho da Mão Esquerda e que desenvolvem algum tipo de trabalho relevante para a Senda, seja através da escrita, música, pintura, etc. As entrevistas tem como pretensão explorar não somente o trabalho específico desenvolvido por cada um, como também saber um pouco sobre por quais vias chegaram ao Caminho Obscuro, quais foram suas primeiras inspirações e, claro, planos para o futuro.

Pharzhuph, editor do excelente zine Lucifer Luciferax, é o primeiro entrevistado. Na ativa desde 2008, o zine já conta com 10 edições, sendo uma dessas em inglês. Conheci o fanzine em 2010, quando participei do projeto I Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Independentes realizado pela Ugra Press. Dos fanzines que resenhei para o Anuário, de longe o Lucifer Luciferax foi o mais marcante, não apenas pelo tema - inusual na comunidade zineira - mas pela autenticidade que se desprendia de suas páginas. Reproduzo aqui a resenha que fiz da edição 7:

Publicação Pan-Daemon-Aeônica para uma era francamente vulgar: lemos isso logo na capa desse primor editorial satanista. Com textos excelentes, Lucifer Luciferax foi, sem sombra de dúvida, um dos zines com mais personalidade que recebemos. Não há espaço para superficialidades em suas páginas: as matérias, escritas por especialistas, são ricas em conhecimentos sobre gnose luciferiana, goetia, cabala de mão esquerda, O.N.A. e outros temas de caráter sinistro. Pontos a se destacar: a seção de resenhas de livros e a longa entrevista com Mark Alan Smith, autor de Queen of Hell, livro lançado pela Ixaxaar, casa editorial finlandesa dedicada às artes negras tradicionalmente conhecida por suas edições luxuosas. Um magnus opus luciferiano para corações negros e mentes livres.

Agradeço a Pharzhuph pela cordial disponibilidade em ceder essa entrevista. E sem mais delongas, ei-la.

Dissolve//Coagula: O primeiro número do Lucifer Luciferax foi lançado em março de 2008. Já se passaram mais de oito anos desde então, e nesse período foram publicadas dez edições. O que motivou o lançamento do fanzine e o que o mantem ativo até hoje?

Pharzhuph: Costumo dizer que a iniciativa surgiu da necessidade e da vontade de conhecer algo similar à Lucifer Luciferax. Era minha vontade ler uma espécie de revista com os assuntos que costumo abordar na publicação, mas não conhecia nenhum trabalho dessa espécie. Por volta de 2005 passei a desenvolver a ideia, pois já contribuía para outras publicações relacionadas ao Caminho da Mão Esquerda, mas de maneira um pouco diferente. Com a ideia na cabeça e um par de horas livres passei a editar a Lucifer Luciferax com a única e egoísta pretensão de tentar fazer uma espécie de revista que me agradasse. Acho que uma das chamas fundamentais que ainda fomentam a publicação é essa minha perseguição em fazer algo desse tipo que seja importante para mim e que possa espalhar algumas sementes de questionamento, destruição, morte e luz.


O mote do Lucifer Luciferax, presente em todas as capas dos zines, é "Publicação Pan-Daemon-Aeônica" para "uma era francamente vulgar". Eu vejo nesse nome algo inspirado na teoria das quatro idades (Yugas) hindu, que diversos autores utilizaram com abordagens distintas - de acepções mais, digamos, "espiritualizadas", como Frithjof Schuon e René Guenon, até outras alinhadas com a extrema direita, como Julius Evola. Para mim é muito claro que a Lucifer Luciferax não se enquadra em nenhuma dessas duas abordagens. Qual é, então, o sentido que você pretendia dar para a Lucifer Luciferax ao adotar esse mote?

Nas capas da primeira e da segunda edição achei interessante inserir algumas referências sobre os temas abordados na publicação.

Na capa da primeira edição, logo abaixo do nome Lucifer Luciferax, estava escrito “Zine, Ocultismo, Left Hand Path, Magick, Underground, Contracultura, Música Extrema, 1ª edição, março, 2008 e.v.”.
Na segunda edição as referências se expandiram um pouco e incluí alguns temas, daí a capa trazia os dizeres “Zine, Ocultismo, Left Hand Path, Magick, Underground, Contracultura, Música Extrema, Luciferiano, Draconiano, Setiano, Thelema, Dramaturgia, Humor Negro, Liberdade, Chaos, 2a edição, junho, 2008 e.v.".

Foi na terceira edição que surgiu o mote, sem muita pretensão ou sentido profundo. A ideia era dizer que a publicação estava de certa forma associada a numerosos assuntos não muito ortodoxos, um ‘pandemonium’, para furtar de Milton uma palavra.  A brincadeira se estende se formos pensar na etimologia de cada palavra e nas implicações das relações com as principais teorias das eras, mas essa é uma tarefa para cada mente.


O primeiro número que li foi o 7, na ocasião em que atuava como colaborador do projeto I Anuário de Fanzines da Ugra Press, EM 2010. Era pré-requisito do projeto receber uma cópia impressa do fanzine para poder participar do anuário. Hoje, ao que parece, a divulgação é exclusivamente online. Você distribui (ou já distribuiu) o zine impresso?

Lembro-me perfeitamente do belíssimo trabalho que a Ugra Press realizou com o anuário! Parabéns para Vocês! Admiro muitíssimo o que eles produzem e estimulam!

Sempre houve uma pequena tiragem de fanzines impressos e tivemos uma experiência em tentar manter impressões a um custo acessível para as pessoas interessadas, mas a procura pelo material impresso foi muito baixa. Ainda tivemos problemas com a qualidade das impressões e com algumas colaborações que acabaram não dando muito certo. Então preferimos manter somente a edição eletrônica das dez primeiras edições.

A Editora Coph Nia, de Curitiba, publicou duas edições especiais da Lucifer Luciferax, impressas profissionalmente com capa dura. O trabalho foi belíssimo e felizmente todas as cópias foram rapidamente vendidas e se esgotaram na fonte.


Acompanhando as edições ao longo dos anos, percebi que a densidade dos seus textos foi sendo incrementada, com a presença de textos de nomes importantes do Caminho da Mão Esquerda a nível mundial, como Thomas Karlsson , E. A. Koeting e Asenath Manson. Parece que ficou ali registrada a sua trajetória, seu desenvolvimento na Senda Obscura. Podemos considerar que o Lucifer Luciferax é uma espécie de "grimório público" de Pharzhuph?

Certamente a Lucifer Luciferax acaba carregando muitas impressões minhas e reflete algo da minha condição interior, mas não posso dizer que seja uma espécie de “grimório público”. Costumo evitar publicar material que eu mesmo tenha produzido em demasia e na maioria das vezes aproveito textos que escrevi há muito tempo. Felizmente pude sempre contar com outros autores valorosos nessa empreitada e com colaborações de vários amigos e irmãos nessa jornada. Muitos outros nomes importantes e conhecidos figuram na lista de colaboradores, mas ainda não tivemos oportunidade de publicá-los.


Ainda sobre os textos de sua autoria: a presença da Goetia nas páginas do zine é uma constante desde a primeira edição. Qual o papel da goetia em sua jornada?

Eu tenho uma impressão muito particular sobre a Goetia, penso em algo muito além de um universo de “sistemas” mágickos de labor na senda sinistra. Embora já tenha utilizado largamente os sistemas padronizados “enlatados”, vejo na Goetia uma senda artística de consecução mágicka na qual os espíritos e as inteligências podem atuar na transformação do universo pessoal do “praticante” em termos interiores e exteriores, promovendo as circunstâncias de embate para que o magista vença a si mesmo, trazendo aspectos inconscientes para a consciência juntamente com a manifestação essencial dos espíritos além de nossa própria constituição interna. Penso que é uma maneira ímpar de fundir e forjar um bom aço – o que evidentemente requer bem mais do que reunir materiais e aquecer uma pira. 


O escritor Adriano Camargo Monteiro, autor das obras "A Revolução Luciferiana" e "A Cabala Draconiana", dentre outros, é colaborador do Lucifer Luciferax desde a segunda edição e certamente é um dos maiores nomes da Mão Esquerda no Brasil. Qual é a importância dessa colaboração para você? Ela continua ativa?

Eu tenho muito apreço pelo Adriano, é um grande amigo e colaborou muito para a Lucifer Luciferax. Não falamos há tempos, mas não houve nenhum problema com nossa relação. Minha memória é um tanto falha, mas acho que fomos afiliados a uma mesma ordem internacional ligada ao Caminho da Mão Esquerda. É um autor que admiro bastante e com o qual tenho muitas ideias em comum. Há a possibilidade dele continuar colaborando sim.


Outro tema que apareceu mais de uma vez nas páginas do fanzine é a Ordem dos Nove Ângulos (ONA). O que você acha desse sistema?

Eu devo dizer que não tenho uma opinião devidamente formada sobre o sistema da ONA, acho que essa seria a melhor resposta. Conheci algumas poucas pessoas verdadeiramente envolvidas com o sistema e com a ONA, mas elas sempre estiveram totalmente fora dos holofotes. 


Parece haver, já alguns anos, uma efervescência no campo editorial do Caminho da Mão Esquerda, com editoras e autores novos surgindo em todo o mundo, além de relançamentos de obras clássicas e inéditas aqui no Brasil. Você sempre manteve a coluna "Index Librorum Prohibitorum" no Lucifer Luciferax, com breves resenhas de livros, o que me faz concluir que, além de leitor voraz, está sempre procurando saber o que está rolando de novidade não só no Brasil, como no mundo. Que novas editoras e autores, aqui e lá fora, você gostaria de destacar para os leitores?

Em nosso país eu não chamaria de efervescência, mas admito que há um levante de novas editoras surgindo por aqui.

Eu acho que falta cultura fundamental e conteúdo referencial básico aos estudantes ocultistas, especialmente os brasileiros. Alguns indivíduos compram livros somente para tê-los empoeirando nas estantes após divulgarem fotos ao lado de adagas, crânios e castiçais. 

Hoje eu citaria as editoras Coph Nia, Capelobo e Penumbra.

A Editora Coph Nia trabalha hoje numa importante coleção de grimórios que deve começar a ser lançada até o final do ano, a Bibliotheca Diabolica. O primeiro título será o Dragão Vermelho, obra na qual colaborei com revisões e introdução. Provavelmente surjam 11 títulos em capa dura, dentre os quais figurarão o Grimório do Papa Honório e outros títulos inusitados. 

A Editora Capelobo, extensão literária do Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, também tem publicado excelentes livros sobre a Quimbanda Brasileira. Em poucas semanas devem lançar o segundo volume do livro Quimbanda, Fundamentos e Práticas Ocultas no qual há um texto de minha autoria.

A Penumbra já publicou um título de Kenneth Grant – O Renascer da Magia – [NOTA DO EDITOR: confira a resenha sobre esse livro feita aqui no Dissolve Coagula] e está lançando uma dupla obra importante de Peter J. Carroll, o Liber Null e Psiconauta.

Nos Estados Unidos, a Editora Black Moon está reavivando a publicação The Occult Digest – A Journal of Esoteric Thought, Practise and Expression, que deve ser lançada em breve. Uma iniciativa bastante interessante dessa antiga e conhecida casa editorial da qual eu também estou participando.


Continuando no mesmo tema: que livros e autores foram fundamentais em sua trilha no Caminho da Mão Esquerda?

Vários autores e várias obras, a lista seria muito extensa, mas alguns foram (e são) realmente fundamentais, basilares.
Aleister Crowley e sua obra me marcaram profundamente, mas não antes de Eliphas Levi, Papus e Guaita. Kenneth Grant, Austin Osman Spare, Michael Bertiaux, Linda Falorio, LaVey, Jack Parsons, John Dee, Thomas Karlsson e muitos outros.


Já foram criadas as mais diferentes definições para Magia. Crowley a definiu como "a ciência e a arte de produzir mudanças através da vontade". Qual é a definição de Pharzhuph para Magia?

Eu sou propenso a concordar em linhas gerais com a definição que Aleister Crowley apresenta em Magia em Teoria e Prática.


Vamos falar sobre sua experiência prática com a Magia. Você pertence/pertenceu a alguma Ordem ou senda específica?

Sim, “pertenci” ou fui afiliado a algumas ordens e associações similares. Minha “formação elementar” – se é que posso utilizar esse termo aqui – é basicamente Thelêmica, “Luciferiana” e um tanto independente, com raízes na Quimbanda.

Fui membro da Ordo Templi Orientis, da Ordo Templi Orientis Antiqua, do Monastério dos Sete Raios, da Le Couleuvre Noire, da Ordo Nox Magistralis, da Ordo Baphometis, da Sociedade Polímata, da Dragon Rouge e de mais algumas outras entre os anos de 1995 e 2015. Conheci pessoas interessantíssimas nas ordens brasileiras e internacionais e tenho contatos com muitas organizações de cunho iniciático.

Atualmente, tenho uma grande aproximação com o Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra e estudo um pouco do Culto de Ifá.

Para minha “formação pessoal” achei interessante manter algumas afiliações no passado, com algumas estive muitíssimo comprometido, aprendi muito com a experiência coletiva. Hoje já não tenho mais inclinações dessa espécie.


No terreno da prática mágicka, vemos uma expansão cada vez mais forte, aqui no Brasil, da Quimbanda como caminho iniciático para a Mão Esquerda. Não sei se estou certo em minha interpretação, mas vejo que a Corrente 218, nascida do Temple of Black Light, especialmente através da figura do Dissection, foi componente fundamental para divulgar a Quimbanda para um grande público. Isso ajudou a preencher um certo vácuo de identidade que havia nas práticas sinistras aqui, auxiliando muitos a saírem de um estágio de simples blasfêmia metaleira para uma senda séria de prática e estudo. Comente.

De alguma maneira o Dissection auxiliou a espalhar diversas formas sinistras que se infiltraram em alguns indivíduos no sentido de fazê-los saírem de um certo estágio de estagnação, mas não acho que tenha sido algo especial com relação à Quimbanda para um grande público.

Há alguns pontos obscuros que envolvem o Templo da Luz Negra da Suécia e valorosos Quimbandeiros brasileiros, pontos sobre os quais eu prefiro não comentar, pois certamente chocariam os indivíduos mais presos à imagem e mais distantes do cerne das Correntes 218 e 49.

Acho que há, infelizmente, um certo modismo no que tange à Quimbanda nos dias de hoje, algo similar ao efeito “anticósmico” causado pelo Black Metal e por fatos relacionados. É até curioso como o efeito de rebanho surge justamente onde deveria não existir.


Como foi a experiência de fazer uma edição em inglês?

Foi extensamente gratificante e onerosa.

Não domino o idioma bretão e tive que recorrer ao auxílio de tradutores e amigos que ajudaram com tradução e revisão. Conseguimos até bons preços com as traduções mais difíceis, mas ainda assim acho que o investimento foi um pouco alto para uma publicação que não estava preocupada em obter lucro (ou, pelo menos, cobrir os custos fundamentais).

Algo que me surpreendeu bastante foi a receptividade do trabalho em outros países. As edições regulares, em português, circulam livremente pela Internet, mas é muito raro eu receber algum tipo de Feedback ou crítica dos leitores brasileiros. Já a edição experimental em inglês recebeu dezenas de críticas variadas, elogios e feedbacks.

Foi graças a esse trabalho que recebi o convite da Editora Black Moon para participar da publicação The Occult Digest – A Journal of Esoteric Thought, Practise and Expression, que deve ser lançada em breve nos Estados Unidos.


O que podemos esperar do Lucifer Luciferax para o futuro?

O futuro é incerto, mas alguns estratagemas estão sendo profundamente analisados.
Posso adiantar que não haverá mais lançamentos de edições digitais. A partir da próxima edição haverá somente exemplares impressos. O formato de fanzine será abandonado e a publicação se tornará em algo como uma revista [o que ainda está sendo pensado].

Há duas propostas firmes para publicarmos versões impressas em inglês e português da Lucifer Luciferax, mas ainda há algum trabalho a ser feito nos bastidores antes disso acontecer.

10.10.2016

Sobre a pedra que um dia foi homem


"O vaivém de um mosquito parece-me uma empresa apocalíptica. É um pecado sair de si mesmo... O vento, loucura do ar! A música, loucura do silêncio! Capitulando ante a vida, este mundo desfaleceu no nada.... Demito-me do movimento e dos meus sonhos. Ausência! Tu serás minha única glória... Que o desejo seja riscado para sempre dos dicionários e das almas! Recuo ante a farsa vertiginosa das manhãs que se sucedem. E se guardo ainda algumas esperanças, perdi para sempre a faculdade de esperar" ( Emile Cioran)

Houve um homem que corria desde que tinha nascido nesse mundo. Não importava se era dia ou noite, se chovia ou não - dedicava-se à corrida como sua única tarefa, e isso todos os momentos de sua vida.

Correndo vastas distâncias, o suor que escorria de seu corpo molhava a terra, fecundando-a com as sementes de seu esforço sem fim. Dessas sementes nasciam frutos diversos, muitos dos quais o homem nem prestava atenção. Esses frutos, porém, tinham em seu íntimo não uma essência de vida, mas de escravidão - da escravidão sem nome que prendia aquele homem na sua tarefa infinita de correr e correr, sem descanso, sobre a vastidão do mundo.

Um dia o sol estava muito forte e o homem corria com audácia redobrada. No turbilhão de seus pensamentos desajeitados (pois eles eram tão caóticos quanto a sua corrida absurda) perguntou a si mesmo (e foi difícil ouvir a si mesmo naquele turbilhão, mas de algum modo isso aconteceu e ficou registrado nos Livros das Proibições Destruídas, que é de onde colhemos essa história): "E se eu fosse mais devagar?". Ouvir a própria voz interior foi para ele de assombro terrível; não é possível determinar se foi algo refletido ou resultado do assombro que experimentou, mas passados alguns instantes ele, que até então só havia corrido, começou a andar. Seus olhos acompanhavam o movimento infinitamente mais lento com curiosidade. Sentia a terra sobre seus pés como nunca antes tinha sentido, como algo vivo e pulsante, e com a ponta dos dedos das mãos roçava a relva alta, e esse toque era como uma troca de carícias entre amantes silenciosos que se descobrem.

Após caminhar um pouco, resolveu aproximar-se de uma gigantesca e frondosa árvore que ficava no topo de uma colina, donde era possível perder a vista em imensidões de campos e montanhas, vastidões por onde aquele homem tinha corrido tantas e tantas vezes. Quando estava debaixo da imponente sombra da árvore, novamente aquele homem fez uma pergunta a si próprio: "E se eu parasse de andar?". Era um pensamento aterrador, mas movido por uma coragem inspirada não saberemos nunca por quais forças, ele parou - e aquele foi a primeira vez, em toda a sua vida, que parou de fazer algum movimento. Observava curioso o mundo ao redor, inebriando-se com os aromas naturais (quando corria todos eles passavam muito brevemente por suas narinas cansadas) e experimentando a quietude física quase próximo do êxtase.

Mas ficar parado não lhe parecia o bastante, e então o homem resolveu sentar no chão. Sentia o suor secando com a brisa, o cansaço desaparecendo (ele não sabia que era possível viver sem cansaço), a respiração deixando de ser ofegante como sempre fora e tornando-se calma, tranquila, normal. Fechou os olhos, pousando as mão calmamente sobre os joelhos, e ficou deslumbrado com o mundo que ali descobriu, naquela escuridão tão calma e agradável - mundo feito de sons que nunca percebera, de aromas que jamais sentira. 

Passados alguns momentos, o homem deitou-se no chão, estendendo bem os braços, deixando-se absorver totalmente pela sombra da árvore. Provou então um alívio infinito, e a experiência da corrida - a corrida que tinha sido toda a sua vida - foi relembrada não como vida, mas como um horrendo absurdo. Foi mergulhando mais naquele alívio; as sensações novas que sentira antes - o aroma do mato, a brisa suave na pele - foram se tornando mais e mais longínquas, dissipando-se suavemente, até desaparecerem. Da perspectiva do chão, aquele homem reconduziu-se a si mesmo, retirando-se do caos da borda da Roda de Samsara e alcançando o Centro, a quietude imóvel, e sentiu-se só, incrivelmente só; mas não havia nessa solidão nenhuma tristeza, e dela emergiu - titânica, deslumbrante - a consciência de que não havia para onde ir, que não havia movimento algum a ser feito, nem nada a esperar, mas também nada a temer: estava enfim livre do peso do Tempo (a maior de todas as ilusões), das debilidades do Amor, das arrogâncias do Ódio. Tinha se tornado algo a mais do que a ânsia absurda de corrida sem fim, deixando em ruínas os castelos das mentiras humanas  - e deitado ali, sob as sombras de uma árvore imemorial, deitado ali havia morrido, e essa morte o preparara para renascer não mais como homem, mas como uma pedra.

10.03.2016

O Herói de Mil Faces: uma leitura pela ótica do Caminho da Mão Esquerda

"O herói de mil faces", do americano Joseph Campbell, que serviu de inspiração para o texto a seguir. Lançado originalmente em 1949.
Falar sobre mitologia nos dias de hoje é falar, basicamente, sobre coisas mortas: as lendas dos deuses e heróis estão lá, no passado remotíssimo, enquanto nós estamos aqui, no palco das catástrofes pós-modernas, e demasiado ocupados para perder tempo com aquelas histórias cheias de poeira. Pelo menos nisso – que é algo que tem a ver com o passado – todas as diferentes definições de mitologia parecem concordar: um esforço desastrado e primitivo para interpretar a natureza, em Frazer; um conjunto de instruções alegóricas tradicionais para adaptar o indivíduo ao grupo, em Durkheim; um sonho grupal e arquetípico que registra as mais obscuras camadas da psique, em Jung; ou ainda um veículo para transmissão de verdades metafísicas, em Coomaraswamy. Durkheim e Frazer, embora com abordagens e objetivos completamente distintos, parecem concordar que o homem atual venceu o universo mitológico, considerado como parte do estágio infantil da humanidade e do qual hoje podemos prescindir – mas será que é isso mesmo? (a própria idéia por trás do desenvolvimento humano ocorrendo por etapas sucessivas, caminhando retilineamente em direção a um reino de esclarecimento infinito, já é bastante questionável). Esse texto, inspirado na leitura do livro “O herói de mil faces”, de Joseph Campbell (1904-1987), tem como proposta colocar alguns pontos sobre a importância das narrativas míticas para os homens de hoje, interpretando o texto de Campbell por uma ótica decisivamente influenciada pelo Caminho da Mão Esquerda.

[IMPORTANTE: Antes de começar o texto, é importante deixar claro: Joseph Campbell era um acadêmico especializado em mitologia comparada, tendo praticado o catolicismo em toda a sua vida. Não tinha, portanto, ligações com nada relacionada à prática da magia, seja de Mão Esquerda ou Direita, A interpretação aqui fornecida não visa aproximar Campbell da Via Sinistra em nenhum momento, mas apenas apontar paralelos entre o caminho iniciático e a sua descrição do monomito heróico. Recebi mensagens alertando que isso não estava muito claro no texto original, e que parecia endossar um certo background de Via Esquerda nas reflexões de Campbell. Ele certamente negaria qualquer tipo de filiação a isso. Considerei apropriado deixar essa advertência para evitar qualquer tipo de confusão.] 

Em primeiro lugar, para que exatamente serve a mitologia? Podemos afirmar, de modo bastante sintético, que a função primária da mitologia é fornecer símbolos que influenciem/reflitam experiências humanas. Essas mitologias, em praticamente todo o mundo, foram base para a criação de ritos os mais diversos possíveis; não havia sequer um aspecto da vivência diária dos povos antigos que não estivesse impregnado de mitos, e portanto de respectivos ritos, dos mais simples até os mais sofisticados – o universo do sagrado era TODO o universo. Além disso, os mitos forneciam base para rituais transformadores, isto é, um conjunto de experiências radicais (individuais ou coletivas) que promoviam mudanças qualitativas na vida da comunidade. Tomemos como exemplo um rito que se repete em praticamente todas as culturas: a passagem da infância para a vida adulta. Esse rito é sempre marcado por uma experiência de provação, seja com dor, habilidade, força, etc – não importa qual seja, é sempre algo que implica em uma espécie de experiência-limite que determine, tão claramente quanto possível, que antes existia uma criança e que, depois, haverá um adulto – um novo ser com deveres para com o grupo, que deve arcar com todo um conjunto de responsabilidades e, também, com o prestígio que ganha através delas. Em suma, valoriza-se esse novo status ontológico como superior ao de criança: liberto dos vínculos materno e paterno, tidos como limitadores, o novo adulto está pronto para seguir o seu próprio caminho.

Ora, no mundo pós-moderno parece que vemos o exato oposto disso: o objetivo não é prescindir das figuras do Pai e da Mãe, mas sim permanecer eternamente uma criança. Não temos mais nenhum rito decisivo em nossa cultura (burguesa e citadina) que determine, claramente, que a infância teve seu fim e a vida adulta começou. É como se vivêssemos sem ter rompido com esse grilhão primevo que é o cordão umbilical, grilhão que todas as culturas pré-modernas intuitivamente aprenderam a destruir com seus rituais de passagem. Eles sabiam (e de que forma souberam será sempre o enigma...) que era preciso traçar uma linha clara entre homens e meninos se se quisesse estabelecer um padrão de vida saudável. Não é o que acontece conosco: ficamos virtualmente infantis mesmo com trinta e poucos anos, para sempre simbolicamente presos nos carinhos ciumentos da Mãe e sob a tutela violenta do Pai. Parece que vem daí a obsessão em parecer jovem, que era algo que, até muito recentemente, animava os lucros da indústria dos cosméticos apenas com dinheiro de mulheres: hoje os próprios homens gastam fortunas com tratamentos de pele, cabelo, etc. E não é apenas aparência: é preciso ter também um “espírito jovem”, e aí vemos pessoas de terceira idade adotando estilos de vida “descolados”, em uma ridícula e desesperada ânsia de inverter o sentido do tempo. Envelhecer é visto como uma derrota, uma vergonha, como algo que pode ser evitado através da vontade. Mantemo-nos presos ao que Campbell chamou de “imagens não-exorcizadas de nossa juventude” e, nessa nostalgia infinita, tornamo-nos incapazes de dar o salto qualitativo necessário para vivenciar a experiência completa de ser adulto.

Não acho que seja possível restabelecer alguma mitologia/rito compensatório que forneça as bases para que os homens e mulheres modernos se tornem adultos em tempo integral. Nessa altura de Kali-Yuga, a materialização da vida alcançou um nível tal de densidade que a experiência profunda que o mito proporciona só está acessível a alguns poucos, enquanto a massa de escravos apenas cresce ad infinitum. Sobre isso, Campbell diz:
“Não se trata apenas da inexistência de locais nos quais os deuses possam se ocultar do telescópio e do microscópio perscrutantes; já não há sociedades do tipo a que os deuses um dia serviram de suporte. A unidade social não é um portador de conteúdo religioso, mas uma organização econômico-política. Seus ideais não são os da pantomima hierática – que torna visíveis, na terra, as formas do céu [ou do inferno, eu acrescento :-)] – mas sim os ideais do Estado secular, numa dura e incansável competição por supremacia material e por recursos. Já não existem, exceto em áreas ainda não exploradas, sociedades isoladas, limitadas em termos oníricos no âmbito de m horizonte mitologicamente carregado.”
A tarefa de realizar essa experiência profunda que o mito proporciona será, na situação atual, sempre uma aventura pessoal, que guarda muitas similaridades com o que Campbell denominou como “jornada do herói” – jornada essa que tem incríveis similaridades com a iniciação dentro do Caminho da Mão Esquerda. Mais uma vez, Campbell tem a algo a dizer:
“Naqueles períodos [o das sociedades impregnadas de mitos] todo o sentido residia no grupo, nas grandes formas anônimas, e não havia nenhum sentido no indivíduo com a capacidade de se expressar; hoje, não há nenhum sentido no grupo – nenhum sentido no mundo: tudo está no indivíduo”.
Joseph Campbell
Estudando milhares de narrativas heroicas das mais diferentes culturas em todo o globo, Campbell conseguiu identificar elementos que se repetiam sempre, como peças de um quebra-cabeça, formando um percurso que, apesar das particularidades de cada cultura específica, mostrou-se incrivelmente uniforme. De modo extremamente sintético, esse percurso cumpre três grandes etapas: separação do mundo cotidiano, iniciação em um mundo prodigioso de mistérios e perigos, retorno ao mundo cotidiano (com o herói renovado pela experiência no mundo prodigioso). Cada uma dessas mega-etapas tem seus estágios, descritos a seguir.


Separação – o início da jornada

Quatro diferentes estágios marcam essa primeira etapa:

1) o chamado para a aventura: em sua vida cotidiana e de modo inesperado, o herói é convocado para liderar uma aventura em território desconhecido/perigoso. Traçando um paralelo com o Caminho da Mão Esquerda, é quando o futuro iniciado tem a sua primeira inspiração a seguir a Senda Obscura: as primeiras leituras que despertam o seu interesse pelo mundo mágicko, sonhos recorrentes e inexplicáveis, situações onde nada parece fazer sentido, etc. Como em tudo nesse caminho, aqui é apenas um lampejar que, no turbilhão do mundo cotidiano, surge como algo impactante e inesperado;

2) a negação do chamado: o herói se recusa a aceitar o chamado; sente medo e angústia frente aos desafios que se colocam a sua frente; não se considera preparado para o que está por vir. É o temor de dar o primeiro passo rumo ao desconhecido que é inerente ao gênero humano – e responsável por incontáveis histórias de sofrimento e covardia;

3) o auxílio sobrenatural: uma entidade/deus/espírito protetor aparece para o herói, para encorajá-lo a seguir adiante. Aqui já entramos no terreno da experiência, ou melhor, da pré-experiência com o Sobrenatural, que irá se aprofundar nas próximas etapas;

4) o cruzamento do limiar: o herói cruza o limite entre o mundo cotidiano e o mundo sobrenatural, mundo pleno de perigos e leis desconhecidas. É o primeiro passo no terreno da iniciação: isolando-se das relações triviais do universo mundano, ele adentra um mundo onde as massas temem ir. Esse mundo, repleto de perigos desconhecidos, é também um mundo pleno de poder e conhecimento – em geral mais antigos e potentes que os do mundo cotidiano.

Iniciação – a imersão em um mundo de perigos desconhecidos

O herói superou as limitações de seu cotidiano mundo e adentra um universo desconhecido. Contando apenas com sua coragem e (por vezes) auxílio de seu protetor mágico (auxílio que pode ser uma arma, um mapa, um feitiço, etc), é a etapa mais longa da jornada do herói e compreende oito estágios:

1) a barriga da baleia: referência ao episódio bíblico do profeta Jonas, que é engolido e permanece três dias e três noite no ventre de um “grande peixe” (a tradição considera que se trata de uma baleia), sendo vomitado três dias depois com vida.  É o processo de reclusão que, após romper com o mundo profano, o neófito precisa passar para amadurecer sua vontade de transformar-se em um novo ser após a iniciação. No Caminho da Mão Esquerda, pode-se considerar como o período de estudo preliminares que todos devem empreender antes de iniciar as práticas mágickas propriamente ditas;

2) provas: são os desafios que o herói precisa superar para alcançar o êxito em sua jornada. Em uma perspectiva de Mão Esquerda, são as diferentes habilidades mágickas que devem ser dominadas – desde as mais simples (concentração, meditação, invocação, evocação, etc) até as mais complexas;

3) o encontro com a Deusa: o herói encontra um amor transcendente com um ser sobrenatural, amor que consegue se mostrar como total, experiência que o aproxima do encontro com a Mãe Primordial. No caminho da Mão Esquerda, o papel do divino feminino é fundamental, exaltada como a Mãe Negra nas figuras de Lilith e Kali, consideradas como “a fonte para o qual o magista obscuro regressa a fim de renascer como seu próprio filho e sua própria criação” (Thomas Karlsson em “Cabala, Qliphot e Magia Goética”, editora Coph Nia, 2015 - acesse o site da editora aqui);

4) tentação: um chamado tentador do mundo profano procura, nesse estágio, desviar o herói de sua aventura e fazê-lo voltar ao seu cotidiano prosaico. Tomando a forma de prazeres sensuais, riqueza, tranquilidade, etc, essa tentação busca potencializar as dúvidas presentes no coração do herói. Para o adepto da Mão Esquerda, são as provações que se colocam em seu caminho, seja sob a forma da incompreensão de familiares, cônjuges, amigos, etc (nisso podemos considerar a atuação de forças demiúrgicas, que atuam como focos de dispersão para o adepto com a intenção de retirá-lo da Senda Obscura – não é preciso comentar a respeito do poder dessas forças), seja por resultado de suas operações com as forças obscuras, forças que o colocam à prova para testar sua determinação;

5) confronto com o Pai: é o ponto central da jornada da iniciação. Aqui o herói entra em confronto de morte contra o ser que detém o poder sobre sua vida. Em muitas mitologias trata-se ou do próprio pai do herói, ou de uma figura com nítidos traços paternos. Segundo Campbell:
“O problema do herói que vai ao encontro do pai consiste em abrir sua alma além do temor, num grau que o torne pronto a compreender de que forma as repugnantes e insanas tragédias desse vasto e implacável cosmo são completamente validadas na majestade do ser”.
Essa compreensão profunda, no Caminho da Mão Direita, leva em seu ápice no alcance de Kether, o topo da Árvore da Vida na Cabala Sephirótica, ou seja, o tornar-se uno com Deus. No Caminho da Mão Esquerda, porém, essa compreensão leva não a integração com o divino, mas a uma rebelião contra ele, cujo propósito é despertar as potencialidades divinas adormecidas do indivíduo para, assim, liberar-se do jugo demiúrgico.
6) apostasis: termo grego que significa literalmente “estar longe de”, originou o termo “apostasia”, cuja acepção é o afastamento definitivo e deliberado da fé anteriormente professada. Aqui, o herói experimenta uma espécie de morte ritual que o libera do mundo condicional e o coloca em contato com potências sobre-humanas. Cito mais uma vez, e integralmente, Campbell:
“A agonia da ultrapassagem das limitações pessoais é a agonia do crescimento espiritual. A arte, a literatura, o mito, o culto, a filosofia e as disciplinas ascéticas são instrumentos destinados a auxiliar o indivíduo a ultrapassar os horizontes que o limitam e a alcançar esferas de percepção em permanente crescimento. Enquanto ele cruza limiar após limiar, e conquista dragão após dragão, aumenta a estatura da divindade que ele convoca, em seu desejo mais exaltado, até subsumir todo o cosmo. Por fim, a mente quebra a esfera limitadora do cosmo e alcança uma percepção que transcende todas as experiências da forma – todos os simbolismos, todas as divindades: a percepção do vazio inelutável”.

Os mitos transportam nossas mentes e espíritos não para acima deles, como a Mão Direita, ao que parece, acredita: os mitos nos transportam através deles para o imenso Vazio. Todos os deuses existem e não existem ao mesmo tempo. 

ritual de iniciação de Santeria

O estudo multicultural permite identificar que os mitos adotaram diferentes configurações de acordo com o sabor local, como forma de adaptação ao contexto sócio-histórico, mas a substância que os anima é, essencialmente, a mesma (ou pelo menos da mesma fonte primeva). Transformada em símbolo, essa substância torna-se mais inteligível e, portanto, acessível de modo mais amplo. Isso tem um motivo: nem todos estão preparados para suportar o aspecto terrífico da divindade. Se não houvesse o filtro do símbolo, era como se a todos os homens fosse permitido o contato com a divindade que fazemos via iniciação sem a preparação preliminar que o neófito percorreu. Asenath Manson, prolífica autora e fundadora do Temple of Ascending Flame, conseguiu expressar em poucas palavrar o “peso” que se abate sobre o iniciado:
"True initiation involves changes significant enough to turn the whole world upside down. The world around is shattered, all beliefs and values are questioned and lose their meaning, and the initiate feels like the whole life is falling apart, while he can only watch helplessly, without being able to stop this. In this process the initiate often goes through a breakdown, a dark night of the soul, when the ego is temporarily dissolved and consciousness is being rebuilt in order to enter the further stage of spiritual ascent." 
Não é preciso refletir muito para saber que poucos suportariam tal peso. O Caminho da Mão Esquerda é uma jornada interior, e requer do adepto uma força de vontade descomunal para mergulhar nos mais obscuros aspectos de si mesmo e dos mundos astrais;

7) o benefício final: aqui o herói alcança o objetivo de sua jornada (a obtenção de uma arma mágica, de um poder sobrenatural, etc). Toda a jornada tem aqui seu ápice vitorioso. Para o iniciado, é o final da “noite escura da alma” e o encontro dos primeiros ordálios;

8) recusa do retorno: após encontrar essa fonte de poder no Outro Mundo, em algumas sagas o herói se nega a voltar ao mundo cotidiano.  Enamorado pelo poder alcançado, deseja permanecer nesse mundo além para usufruir das benesses de seu novo estágio.

Retorno – um novo ser volta ao mundo cotidiano

O herói que saiu do mundo cotidiano no início da jornada não é o mesmo que agora retorna. A experiência no além operou nele uma transformação – radical e profunda. Essa última etapa tem cinco estágios:

1) o vôo mágico: o herói precisa escapar do mundo prodigioso tendo consigo a fonte do poder adquirido (arma, livro, pedra preciosa, etc). Essa escapada é tão perigosa quanto o início da trajetória;

2) salvamento vindo de fora: muitas vezes ocorre que, para empreender essa fuga, o herói precisa contar com a ajuda de alguém/algum poder para conseguir se safar dos perigos vindouros;

3) cruzando o limite do retorno: é a volta para o mundo cotidiano. Renovado pelas prévias experiências, o herói pode oferecer agora o conhecimento/poder obtido em sua jornada para a comunidade;

4) domínio dos dois mundos: o poder obtido pelo herói o coloca em situação onde seu conhecimento lhe possibilita uma visão equilibrada entre os mundos cotidiano e prodigioso (material e espiritual, externo e interno). Do ponto de vista do Caminho da Mão Esquerda, é o domínio sobre as práticas mágickas, a evolução em um sentido amplo e abrangente para além das condicionantes materiais;

5) liberdade: o domínio obtido sobre os mundos externo e interno possibilita ao herói uma sensação de liberdade total. Ele não teme mais a morte e, portanto, pode viver em plenitude. Sob a ótica do Caminho da Mão Direita e da Mão Esquerda, aqui é quando o iniciado alcança o nível de Kether, ou seja, a suprema integração com o divino.

É nesse ponto de nossa trajetória que ficam muito claras as diferenças de objetivo entre a Via Destra e a Via Sinistra: se a primeira, como foi dito anteriormente, busca a integração com o divino, a segunda tem como meta tornar-se um deus. Por isso, o magista obscuro que alcança o ponto máximo de seu desenvolvimento ao chegar em Thaumiel, qliphoth que é o Olho do Dragão e o Trono de Lúcifer (e que equilave a Kether na Árvore da Vida), tem diante de si uma decisão: ele pode inverter o sentido da qliphoth e unir-se ao aspecto divino luminoso, entrando em nirvana; pode voltar aos níveis inferiores da Árvore da Morte (um futuro post falará sobre esse assunto com detalhes) e neles encontrar novas fontes de poder e conhecimento; pode também fazer o que Thomas Karlsson chamou de “dar o passo final para fora do universo”, isto é, ir além do condicionamento causal da existência e ir para o plano caótico pré-existencial, de onde provem a mais negra escuridão. Os frutos combinados das árvores da Vida e da Morte em um único diamante negro e indestrutível, que guarda em si a possibilidade de criar novos mundos a partir dele mesmo.

Seja qual for o caminho adotado, o adepto da Via Sinistra está em condições de ir além dos limites traçados pelo Plano Demiúrgico e desenvolver, em plenitude, a centelha divina presente no interior do ser humano. Sua jornada de iniciação – caminho cravejado de desafios e perigos – jamais será algo para o vulgo, assim como as aventuras dos heróis também não eram feitas para o comum dos mortais. A iniciação é, sempre, um caminho para poucos. Exige disciplina, coragem, audácia; uma vontade férrea, que não se curve à preguiça; um olhar impiedoso, mas também pleno de amor; um desejo ígneo que faça a chama negra presente no coração do adepto se transformar em um incêndio de proporções apocalípticas e, em labaredas cada vez mais altas, desintegrar o Cosmos. 

9.04.2016

Introdução à Filosofia do Caminho da Mão Esquerda



Encontrei o texto desse post no Sabedoria Subersiva, excelente blog dedicado ao Caminho da Mão Esquerda em suas mais diferentes manifestações. A autora é a polonesa Asenath Manson, fundadora do Temple of Ascendig Flame, quem tem como objetivo ser "a gate to the Draconian Current, arising from inspiration received from Lucifer and Draconian Gods, and in response to inquiries and expectations of those who wished to walk the Path of the Dragon".  O texto, intitulado "Introdução à Filosofia do Caminho da Mão Esquerda", é um resumo conciso do significado da Via Sinistra, demonstrando o que a diferencia do Caminho da Mão Direita. Além desse aspecto educacional, é também um texto inspirador que pode inflamar os corações dos adeptos a trilharem essa Senda.


Introdução à Filosofia do Caminho da Mão Esquerda

O Caminho da Mão Esquerda é muitas vezes definido como “o caminho interno”, a jornada espiritual de introversão para encontrar o poder e o conhecimento no interior humano. É também uma viagem para a escuridão, o desejo de contato com as forças das trevas que, de acordo com as tradições do Caminho da Mão Esquerda, estão intimamente ligadas com os antigos cultos à natureza, e também conhecidas como correntes lunares.

Mas o que é a “auto-deificação”? É a maior conquista do Caminho da Mão Esquerda.

O desejo de contato com as forças criativas e primordiais do universo foi preservado durante séculos por algumas religiões e tradições mágickas. Nas tradições ocultistas ocidentais, o Caminho da Mão Esquerda é conhecido como satanismo, mas na verdade seu alcance é muito mais amplo. O Caminho da Mão Esquerda, ou a Via Sinistra, é um fluxo que estende as suas raízes em antigos cultos dos deuses das trevas e da natureza, como Dionísio. Acima de tudo, refere-se a cultos femininos, como Hécate, a divindade de noite, da lua e da magia.

O termo Caminho da Mão Esquerda não existe só no ocultismo ocidental, mas também no tantrismo hindu, onde o vama-chara ou Vama Marg (“Caminho da Mão Esquerda”), que é um caminho direto para a divindade muito mais poderoso do que dakashina-chara (“Caminho da mão Direita”). Julius Evola escreve sobre isso em seu livro “The Yoga of Power”:

“Há uma diferença significativa entre os dois caminhos tântricos dos graus superiores, entre o da Mão Direita e da Mão Esquerda (onde ambos estão sob a égide de Shiva - shaivachara), indicada pelo fato de que enquanto na suprema realização, siddhi, própria do primeiro caso, o adepto sempre experimenta “algo acima dele”, na siddhi do caminho da Mão Esquerda ele “torna-se o próprio soberano” (chakravarti, que significa “o que governa o mundo”)”.

A filosofia do Caminho da Mão Esquerda existe em outras tradições. Na Cabala, é o caminho das Qliphoth – que está ligada com os princípios da Árvore da Morte, a meia noite da Árvore da Vida. Na tradição nórdica é o Seid , a arte mágicka de transe para a libertação da alma. Também nos elementos da tradição do vodu o Caminho da Mão Esquerda tem sobrevivido, especialmente nos ritos Petro ou seitas também chamadas de vermelho (thomazos cabrit), baseado em um sistema semelhante ao qliphótico. É semelhante o caso do hinduísmo, onde tais grupos são conhecidos como Aghori. Todas estas tradições contém um processo de iniciação que leva à imortalidade e à divindade através da reafirmação das energias primordiais relacionados com a ideia de escuridão, as correntes lunares femininas e a recriação consciente em harmonia com o universo. Ao mesmo tempo, é o desenvolvimento de uma consciência única e poderosa que existe acima e além da consciência de todos os seres vivos.

O processo de iniciação no Caminho da Mão Esquerda e da Direita.
O caminho da iniciação assumido pelo Caminho da Mão Direita é chamado de Via Sacra. Seu objetivo é a aniquilação dos aspectos do homem (microcosmo) e do Universo (macrocosmo) que são considerados “sombrios”, ruins e indesejáveis, e que separam o homem de Deus. O Caminho da Mão Esquerda, Via sinistra, não evita esses problemas: ao contrário, incentiva a enfrentá-los e a usar o seu poder para a recriação do seu próprio universo. O Caminho da Mão Direita é o caminho da “fuga” para a luz, para longe da escuridão. É um caminho que se concentra apenas em um aspecto: a negação do fato de que a luz não pode existir sem a escuridão. O caos primordial, a partir do qual o universo surgiu, era um amálgama de todos os opostos,: de luz e escuridão, fogo e água, terra, ar e outros elementos que foram determinados e divididos pelo “ato da criação” para se tornar realidade que temos à nossa volta. Isto ocorre por meio da polarização dos opostos e está baseado na dualidade cósmica, que precisa reunir todos esses elementos para refazer a divindade. Para o Caminho da Mão Direita isso não é possível, uma vez que visa aniquilar o indesejado macro / microcosmo ao invés de buscar um equilíbrio entre estes aspectos. É diferente no caso do Caminho da Mão Esquerda, caminho iniciático com base na fórmula de alquimia “solve et coagula” (“dissolver e preservar”) e o confronto inclusive com aqueles aspectos que são reconhecidos como “negativos” pelo Caminho da Mão Direita. Em termos cabalísticos, os seguidores do Caminho da Mão Direita escolhem caminhar em uma “escala” para os mais altos níveis da Árvore da Vida (em cujo cimo está Kether). O mago do Caminho da Mão Esquerda escolhe o caminho das qliphoth da Árvore da Noite. Enquanto os adeptos do Caminho da Mão Direita trabalham só com um lado simbólico da Árvore da Vida, os praticantes do Caminho da Mão Esquerda trabalham com ambos.

Quando o mago do Caminho da Mão Esquerda atinge o nível de Kether, ele também alcança Thaumiel, a qliphoth gêmea representando os altos níveis de desenvolvimento alquímico (divindade), ao mesmo tempo. O Caminho da Mão Esquerda é o caminho do equilíbrio entre forças opostas de existência, do claro e escuro, extáticos e dinâmicos, forças destrutivas e criativas, entendidas como complementares e não podendo existir sem a outra. O equilíbrio entre elas é fonte de sabedoria e poder. A luz representa nascimento e criação, enquanto a escuridão representa morte, destruição e retorno à matriz da criação. Juntas, essas forças são a fonte de todas as formas de vida e de todo o tipo de energia que precisa de duas forças opostas para existir. A negação de uma é a negação da própria vida:

“O mago pretende tornar-se o centro da criação e destruição, uma manifestação viva das forças do caos no reino da dualidade, um microcosmo completo, um deus.”
É por isso que um dos principais símbolos do Caminho da Mão Esquerda é o Dragão ou Serpente, que representa a unidade de todos os opostos como Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda. E contem os elementos tanto do sexo feminino e masculino, ativos e passivos, criando e dando vida e devorando a si mesmo. Ouroboros representa o famoso princípio hermético “Assim como acima, assim está abaixo”. Esta regra refere-se à relação entre o homem e o mundo que nos rodeia. À medida que o mundo contém muitos princípios diferentes, o homem não é uma unidade. Peter J. Carroll escreveu que o ego do homem não é homogêneo, mas uma parte composta de inúmeras partes da consciência de outros seres. A psique não tem um centro; não algo único, mas sim uma mistura de variados elementos. Alguns deles tendem a ficar juntos, criando um senso de ego. Muitas outras tradições mágicas vêem o homem de uma forma similar. A síntese das partes, a criação de um ser humano, a principal conquista do processo alquímico conhecido como Opus Magnum.

Antinomianismo
Antinomianismo é uma atitude de oposição às normas e valores comumente aceitos e é um importante elemento do Caminho da Mão Esquerda.

Antinomianismo é a única maneira de rejeitar os valores da massa que cresceu no mundo em que vivemos. O Caminho da Mão Esquerda refere-se ao antinomianismo do caminho espiritual, é a oposição a/os deus/deuses dominantes dos sistemas religiosos e a busca da divindade individual. Para magos do Caminho da Mão Esquerda, os deuses são principalmente seres arquetípicos, relacionados com diferentes aspectos do universo e da consciência humana. Um praticante pode sair do paradigma aceito que reconhece essas forças como superiores. É essencial sair do quadro estreito estabelecido pelas religiões de massa que são o obstáculo para o progresso espiritual individual. A aceitação passiva da ordem imposta leva à estagnação. O Caminho da Mão Direita busca a integração com este fim, e é caracterizada pela extroversão (exposição ao mundo exterior). No entendimento religioso e místico, significa união com o Deus transcendente que está acima de todos os seguidores. Neste caso, a pessoa tem que ter como aspiração individual se tornar um escravo completo de forças superiores. É completamente diferente para o Caminho da Mão Esquerda, uma vez que é caracterizada por uma profunda introversão (uma viagem iniciática pela psique em busca da divindade).

A auto-deificação.
Uma das questões mais duvidosas ainda deve ser respondida: o que faz o homem se tornar um Deus? “Divindade” pode ser entendida de formas diferentes. Deve ser lembrado que a realidade que nos cerca é uma questão de como se percebe as forças existentes no universo. O mundo está fora de controle para o homem, seu inconsciente e seus poderes ocultos. O processo alquímico de iniciação que o adepto do Caminho da Mão Esquerda é submetido libera gradualmente estes poderes. O confronto com os aspectos individuais da consciência dá uma visão em profundidade da personalidade e fornece conhecimento sobre nós mesmos e o mundo ao nosso redor. Conhecimento e compreensão das forças que são partes de nós e do universo que nos permite viver a vida de acordo com a nossa vontade. Para isso, é essencial que passe por um processo difícil de transmutação alquímica interminável que começa no interior humano.

Um mago do Caminho da Mão Esquerda deve reconhecer e explorar o  interior obscuro para iluminá-lo com a luz do conhecimento e da compreensão. Sabedoria no Caminho da Mão Direita é em uma só via, ou seja, incompleta. De acordo com as religiões monoteístas, “ver Deus” significa experimentar a cognição de uma parte do paradigma da consciência humana. Mas a experiência completa também significa “ver o diabo”. “A união final com Deus”, a última conquista do Caminho da Mão Direita, significa a união da consciência individual com a consciência coletiva. Aquele que está apto a preservar a sua integridade e unidade, deve resistir ao poder da consciência coletiva. Como Peter Carroll disse, na morte a força da vida individual é reabsorvida pela “força da vida deste mundo que se faz conhecida por nós como Baphomet”. Para as religiões monoteístas esta experiência é a união com Deus. Para o mágicko é “ser comido pelo Diabo em sua busca deliberada de liberdade”.

De acordo com a filosofia do Caminho da Direita, não se pode opor-se a Deus/poder superior. Os seguidores do Caminho da Mão Esquerda não partilham desta opinião.

O exílio simbólico do homem do Jardim do Éden, como no mito da queda de Lúcifer, representa a busca da divindade individual, e a escuridão se torna uma metáfora que transcende além das limitações impostas por Deus. Na escuridão o homem brilha com sua própria luz, criando seu próprio mundo. A viagem através da escuridão também é a evolução espiritual do homem. O Jardim do Éden é uma fase da infância, o tempo em que o homem se sente seguro e dependente de forças superiores. Sair do Jardim do Éden é um passo em direção à maturidade, independência e liberdade, mas também um passo na direção da responsabilidade, quando o homem começa a decidir sobre sua própria vida. Por isso, entrar no Caminho da Mão Esquerda e andar por ele significa abandonar a segurança da luz e ver o desconhecido – e assim descer no abismo da escuridão e lá encontrar a liberdade e a divindade.

Asenath Mason. Lodge Magan.