5.31.2007

Sob a chuva e o Ragnarök

8:30 AM – 18/06
Ainda preciso ficar mais sete horas aqui dentro. Tal como o prisioneiro da solitária, conto os minutos que me separam da liberdade até o enlouquecimento. Um copinho de café e uma rápida ida ao banheiro apenas aumentam a sensação de que estou sob rígido controle. Todo meu esforço, então, vai ao sentido de transmitir aos demais que estou profundamente atarefado, olhar fixo no monitor, fazendo cálculos monstruosos, projeções de cortes de gastos para melhor multiplicação de dividendos. Em verdade minha mente está a quilômetros de distância visitando as delícias de uma cena de crime hediondo, algum excesso sexual ou relembrando o ótimo filme de ontem. Nada na tola vida corporativa que preciso aturar para garantir meu sustento me interessa. Sou incompatível com gráficos e fórmulas financeiras. E sempre quando aperto o nó da gravata penso o quão estranho são os caminhos que Deus escolhe para Seus filhos, quer acreditemos Nele ou não. Mas o que importa tudo isso? Será que eu desejo, no mais íntimo, que me paguem para fantasiar poesias? Tudo que me sobra são insatisfações e, desde a última visita ao médico, o início de uma gastrite nervosa. Nem refrigerantes, nem frituras, evite os enlatados, e passar bem meu rapaz.

3:30 PM – 27/06
O pior são as reuniões com a gerência: encontros programados para durarem duas horas, acabam se estendendo por até quase três, repletos daqueles sebentos protocolos de bons modos corporativos. Dê-me um castigo corporal, minas sem fim para escavar na Sibéria, uma noite andando nú nos domínios de Isengard, permitam-me sentir o sangue da carne escorrer e pintar no solo alguma imagem qualquer, um desenho infantil e grotesco – mas não me façam participar de mais uma reunião dessas. Até cheguei a dormir em uma delas. Sentado, a cabeça caída para frente, a expressão azeda da minha chefe louca para explodir desatinos enquanto os outros apenas esperavam meu despertar humilhado. Sempre me alegro quando lembro daquela incômoda (para os outros, não para mim) sesta corporativa, mas não gostaria de repeti-la.

5:15 PM – 29/06
Estou indo para a sala dela. O motivo eu já sei. As vendas da minha equipe não estão bem. Nunca foram. Dependendo do meu esforço, nunca serão (sou o tipo de homem que não se entende com notas ou valores; sempre quando adquiro algo me sinto como se tivesse sido enganado e na maioria das vezes faço péssimos negócios, mesmo quando compro chicletes). Era a quinta vez apenas hoje que esta prostituta me chamava na sala dela apenas para gritar. Uma gritaria e um acúmulo de palavras poucos gentis. Resultados, precisamos de resultados, sua equipe está péssima, você precisa motivá-los, não sinto comprometimento de sua parte, isso é irresponsabilidade. Friamente eu ouvia tudo, até o final. Olho no olho, como deve ser. Cada palavra era pesada, analisada, relacionada com diversos outros dados e, em questão de segundos, emaranhado em cálculos e numa queda vertiginosa de auto-estima, surgia um El Greco, os céus pesados de Toledo e o desejo de um êxtase de santo prestes a tocar o Intangível (as pinceladas velozes e o tom sobrenatural da cidadela, vista ao longe, as cores frias que quase tornam tudo opaco...).

- Você está anotando tudo que estou te pedindo?

- Sim. Tudo aqui, na minha agenda. Mais alguma coisa?

A sala tem uma larga janela no fundo. A cidade e seus prédios, posso vê-los daqui; conto o primeiro, o segundo, o terceiro, e são tantos que perde-se a conta e o olhar em meio a tantos prédios. Nas paredes predomina a candura de uma pintura nova, higiênica e desconfortante. O ambiente lembra um hospital. A mesa, em cor negra, acomoda uma agenda, canetas e um computador. Mulheres, amantes que são dos laços afetivos e (em grau ainda maior dos) seus símbolos, encheriam aquela mesa com fotos de entes queridos: o esposo, o namorado, os filhos, o amigo... Contudo não há nada que lembre afeto naquele ambiente. Nenhuma menção de carinho, nenhum traço de desorganização: ordem absoluta e fria que trazia-me enjôos.

- Eu sempre chamo você aqui pelo mesmo motivo. As vendas da sua equipe...

A chuva está ficando mais forte. Se não fossem estes vidros grossos a prova de som, escutaríamos os deliciosos sons da chuva caindo. Tive uma namorada que disse que os sons da chuva caindo eram tão gostosos que desejaria comê-los. Começo a pensar um sabor para eles. Tento imaginar um aroma também. Preciso sair daqui.

- ... pioram a cada dia!! Eu sempre falo sobre isso, mas parece...


O Ragnarök começaria com uma grande tempestade e as gotas fariam barulhinhos sabor creme de avelã. As gotas escorreriam pela minha boca semi-aberta. Ligaria para minha ex-namorada: você tinha razão, os barulhinhos da chuva têm sabor. Ficaria feliz por isso. O Ragnarök destruiria tudo mas a chuva seria consolo triste no meio da destruição.

- ... que você não se importa com nada!


- Estou revertendo esta situação. Nos últimos dias...

E olhando mais além dos primeiros prédio, a água da chuva que cai, densa, escura, constrói uma cena sem beleza, mas que prende o olhar e faz esquecer o Ragnarök. E por detrás da eficiência de minhas explicações de subalterno, apenas desejo minha demissão, apenas um confortável seguro-desemprego, apenas algumas migalhas pelo esforço de anos aqui. A imagem longínqua dos prédios, cada vez mais opaca e distante, mesclando-se ao som de minha voz mentirosa, que diz aquilo que precisa ser dito e que não impõe respeito nem convicção, vai aos poucos perdendo o interesse, e nada mais consigo olhar, nem sentir – sou todo voz, e uma voz toda de mentira e engano. Reproduzo com automatismo coisas inventadas não por mim, mas não reconheço quem as inventou. Até mesmo duvido se sou eu mesmo falando, se não há mais alguém que não vi quando aqui entrei, mas a dúvida é banal e passa depressa. Logo vem a mente mais uma vez a chuva, as telas de El Greco, uma confusão, mas não importa o que eu penso, o discurso é arranjado com precisão arrisco a dizer aritmética, contraditório atribuir às palavras uma alma de número, mas assim as coisas acontecem quando o que se fala é aquilo que o outro quer ouvir, um esforço mental quase nulo, basta deixar que o decoro e a hipocrisia guiem a língua. Coloco ao lado do discurso pronto um sorriso simpático, não há como dar errado tal tática, e já não me importo mais com a aparência de ambulatório da sala, apenas quero terminar mais esta encenação, e se o sorriso adiantar o fim melhor.

5.17.2007

Dezesseis


"Não sei se isso é algo com que eu deva me preocupar. Não sei se sequer devo pensar nisso. Basta que você atreva-se somente uma vez. Ao menos foi assim comigo e, desde então, desço mais e mais degraus, procuro mais e mais sujeiras. É lixo o que busco, este lixo que se traduz como um apetite que pede um corpo de dezesseis anos com os odores inebriantes da adolescência... as pernas abertas, a vagina de pêlos macios implorando para serem mastigados, mordidos, batizados em sangue e esperma... E se aqui você sente uma náusea, um prelúdio ao vômito, é porque não sabe o que é uma ninfeta, nem ouviu o grito dela quando um soco a faz cair no chão e seguidos pontapés transformam aquele anjo em desespero, em sensual e apetitoso desespero. Os cabelos enrolados nas mãozinhas frágeis, olhinhos perdidos na confusão da violência, nada disso seria diferente de um espancamento qualquer se não fosse o malicioso sorrisinho nos lábios daquela criança. Quer tentação maior do que esta? Um sorriso que aprova, que torna a boca ainda mais deliciosa e quase implora por murros mais fortes? Como não deixar a menina saciar sua sede lambendo as bolas, a cabeça, o pau todo, engoli-lo e massageá-lo, cheia de lágrimas impossíveis de distinguir se são de dor ou prazer? Apertar o pescoço dessas garotas enquanto enfia-se o pau inteiro em suas boquinhas proporciona um prazer indescritível: perder o ar intensifica as sensações e o fogo que sairá dos olhinhos dela deixarão isso claro e, digo mais, a cadelinha irá retribuir à altura. Quanto mais prolongado for o estrangulamento, quanto mais próximos da morte, maiores recompensas estarão reservadas aos amantes. Sufocá-la assim, com o falo, não pode ser crime e, se o for, eu digo: esta lei nada sabe sobre a Natureza, nem sobre os instintos nem sobre aquilo que faz homens e mulheres continuarem vivendo nesta desgraça de mundo. Essa lei é surda quando falo que cabelos de mulher existem para serem puxados enquanto estão sendo fodidas; que elas querem coitos longos e pesados; e que as utopias da mãe e da mulher casta foram destroçadas pelos novos tempos. Se agora carrego comigo esta condenação, se a lei desaprova minha conduta e o que fiz foi errado segundo ela, pois bem; mas essa lei, que (supostamente) existe para nos tornar melhores e ordenar os compromissos da vida social, consegue suas vitórias nos traindo. Está impondo limites onde a Natureza criou abundância de liberdade e fazendo de nós um bando de medrosos que sentem vertigens de nojo quando a mulher banha-se na urina quente do amante e toma por banquete suas fezes. Se quiserem me condenar, então o façam, encarcerem-me. Nunca compreenderei esses seus procedimentos, tidos como elementares, mas se aqui vivo devo ao menos me portar de acordo com a conveniência e – impossível ignorar o fato – não posso escolher agir de outro modo, estou totalmente subjugado a vocês. E da mesma forma que agora me tens de joelhos sempre é bom lembrar – como uma espécie de advertência e antídoto contra a arrogância – que também a Natureza nos tem nas mãos e assopra nossa face de acordo com seus caprichos; ela é quem produz flores de rara beleza e frutos venenosos numa mesma árvore; faz chuva para fertilizar os campos e furacões que destróem cidades inteiras; esta mãe que julgamos ingrata, que acaricia os filhos antes de mandá-los ao cadafalso, ela continuará nos observando e, mesmo que lutemos com toda a ferocidade, ainda assim será um combate estéril tal como o da Triste Figura; e à revelia de leis e vontades e morais e todos-os-outros-empecilhos, continuará produzindo garotas de dezesseis anos cujos corpos ganham formas que só nascem para servir aos mais extremos prazeres."

5.14.2007

E ao reler o Breviário, encontrei:


"... Até que tu vieste, Insônia, para sacudir minha carne e meu orgulho; tu que transformas o bruto juvenil, matizas teus instintos, avivas teus sonhos; tu que, em uma só noite, concedes mais saber que os dias consumados no repouso e, nas pálpebras doloridas, descobres um acontecimentos mais importante que as enfermidades sem nome ou os desastres do tempo! Tu me permitiste escutar o ronco da saúde, os humanos mergulhados no esquecimento sonoro, enquanto que minha solidão englobava a escuridão circumdante e tornava-se mais vasta do que ela. Tudo dormia, tudo dormia para sempre. Nenhuma aurora mais: velarei assim até o fim das eras: me esperarão então para pedir-me contas do espaço em branco dos meus sonhos... Cada noite era igual às outras, cada noite era eterna. E sentia-me solidário de todos os que não conseguem dormir, de todos esses irmãos desconhecidos. Como os viciosos e os fanáticos, eu tinha um segredo; como eles, havia constituído um clã, a quem tudo desculpar, tudo dar, tudo sacrificar: o clã dos insones. Atribuía gênio ao primeiro que chegasse com as pálpebras pesadas de fadiga, e não admirava nenhum espírito que conseguisse dormir, fosse ele glória do Estado, da Arte ou das Letras. Havia consagrado culto a um tirano que - para vingar-se de suas noites - proibira o repouso, castigara o esquecimento, decretara a desgraça e a febre. E foi então que apelei para a filosofia: mas não há idéia que console na obscuridade, não há sistema que resista às vigília. As análises da insônia desfazem as certezas. Cansado de tal destruição, chegava a dizer-me: nenhuma hesitação mais: dormir ou morrer... reconquistar o sono ou desaparecer... Mas tal reconquista não é fácil: quando nos aproximamos dela, percebemos o quanto estamos marcados pelas noites. Se amas, teu ímpeto estará corrompido para sempre; sairás de cada ´êxtase´ como de um pavor de delícias; aos olhares de tua vizinha excessivamente próxima mostrarás um rosto de criminoso; a seus arroubos sinceros responderás com as irritações da uma voluptuosidade envenenada; à sua inocência, com uma poesia de culpado, pois tudo se tornará para ti poesia, mas uma poesia da culpa... Idéias cristalinas, encadeamento feliz de pensamentos? Não pensarás mais: será uma irrupção, uma lava de conceitos vomitados, agressivos, saídos das entranhas castigos que a carne se inflige a si mesma, pois o espírito permanece vítima dos humores e fora de questão... Sofrerás por tudo, e desmesuradamente: as brisas te parecerão borrascas; as carícias, punhais; os sorrisos, bofetadas; as bagatelas, cataclismos. É que as vigílias podem cessar; mas sua luz perdura em ti: não se vê impunemente nas trevas, não se extrai delas ensinamento sem perigo; há olhos que nunca mais poderão aprender nada do sol, e almas doentes de noites das quais jamais se curarão...".

CIORAN, Emile. Breviário da Decomposição. Tradução de José Tomas Brun. Editora Rocco, São Paulo, 2000.

5.12.2007

Snooker, pipoca e crises


Porque entre os escombros ainda brota vida, e nem mesmo Deus, em sua solidão infinita, pode impedir que nós brinquemos de anjos rebeldes que a tudo negam com apenas uma palavra.

E assim se passa uma noite entre mesas de bilhar onde as horas voam, onde confissões são feitas e laços se tornam ainda mais firmes.

Acendo um cigarro, penso na forma inesperada como aconteceu toda aquela conversa, e em tudo que falei e principalmente no que ouvi. Sim, Deus, triste é sua solidão e ela nem se compara com a minha. Mas no intervalo de algumas horas o meu universo foi preenchido - e para minha felicidade, agora nada mais será como antes.

5.09.2007

Abraços de um sem fim

M. andou por muitas horas. Era sua terapia quando estava ansioso. Comprou para ela um lindo colar que há tempos prometera. Nem pensou em embrulhar: colocou no bolso da bermuda e fez o caminho de volta. Tinha ido muito longe, o caminho de volta seria fatigante. Mas era um daqueles dias onde fazemos coisas idiotas, e M. sabia disso mais que ninguém. Por que dar um presente desses quando tudo agora é cinzas, pensou. Era uma pergunta importante, mas M. sabia que a resposta poderia ser qualquer uma, até mesmo uma resposta dada em forma de engano: saudade, desejo de criar uma fantasia, dívida com o passado que insiste em voltar. Ela nunca acreditara nele mesmo. Se não acreditasse na sinceridade daquele presente, era apenas mais uma incredulidade de mulher. Afinal, ele era um homem, e segundo o catecismo feminino homens são seres que mentem usando palavras cobertas com açúcar. Saber que ela pensava assim o fazia sofrer, e ela, quietinha, também ao seu modo sofria. Mas quando M. mirava aqueles olhos cheios de brilho e falava "gosto de você, menina", a sua alma era só emoção e nas suas palavras só existia verdade. E era a verdade deste sentimento que o fazia mexer no bolso da bermuda e apalpar o colar. Ansioso como nunca, ia mais rápido para a casa dela. Queria entregar o presente, queria beijá-la mais uma vez, sentir o calor de um abraço que já conhecia, mesmo que fosse para nunca mais. Era um dia comum em São Paulo, com seu ar tórrido de rush e buzinas e gente cheirando a estresse - mas graças à ansiedade de M. as avenidas eram como corredores de um sonho e as pessoas desfilavam em harmonia abrindo-se em seu caminho. E na casa dela, M. tira o colar do bolso e mostra cheio de orgulho. Demorou pra achar um do jeito que você falou, mas enfim encontrei. Ela agradece, voz baixinha, misturando um pouco de timidez com uma dose generosa de alegria. Aproximam-se, pé ante pé, parece que vão se beijar pela primeira vez, assim é o beijo dos apaixonados, carregam os mistérios de Vênus na tensão que o antecede. Mas enfim não se beijam, apenas se abraçam, e é um abraço que parece poesia, o rosto de M. mergulhado no perfume dos cabelos dela, e a face de menina-mulher brilhando feliz ao sentir o másculo amplexo. Minutos infinitos eles ficam ali, absolvidos na emoção do reencontro, afogados no momento que querem a todo custo reter e fazer gelar, e sabem que não vão conseguir, que terão que se soltar e encarar-se; e a vida, que em momentos atrás parecia um sonho vivido, vai esbofetear o rosto destes dois apaixonados e fazê-los acordar. Mas até lá, M. ficará mergulhado naqueles olhos feitos do mais doce brilho, e vai dizer novamente “gosto de você, menina” - e ela, desta vez, vai acreditar.

5.06.2007

Noite insone



As noites insones são as maiores delícias mortas na vida de alguém. É como se o tempo passasse sem passar, como se carro do Sol se levantasse e trouxesse um dia novo, sem parecer que o dia que foi ontem se foi para sempre. As noites insones te levam do quarto para a cozinha em busca de algo para beber e aquecer aquele frio que insiste em entrar pelas frestas da janela, e no meio do caminho ainda há uma tentativa de ligar a TV, mas logo se percebe que aquele mundo da telinha não é mais para você. As noite insones são acúmulos de horas que inquietam o espírito. Os olhos buscam leituras, letras, frases, períodos, poemas que balbuciam dores em cada verso, romances que esbofeteiam, filósofos tão incompreensíveis como as razões que te deixam desperto e com batimentos cardíacos acelerados em plena 4 horas de uma quarta-feira qualquer.

As noites insones castigam mais do que os remorsos dos velhos, aqueles remorsos de uma vida que foi perda, ruína e covardia. E não é demais pensar que o próprio Cristo teve a sua noite insone, no escuro Getsemâni, a procurar uma razão para seu sacrifício. Cristo compreende os insones. Ele conhece a agonia de querer dormir, do corpo pedir descanso e encontrar a resistência de pensamentos que não cessam de reclamar. A tolice ainda aumenta quando o cigarro é aceso, a nicotina afasta o sono como cruzes afastam maus espíritos, e ainda busca-se um café para completar o desastre, ou chá, ou os dois, mesmo o chá verde tem cafeína, um veneno a mais para a desgraça de ficar confinado entre o azedume característico das lembranças que não querem partir.

As noites insones são todas. Não lembro quando tive a última noite de sono saudável, regular noitinha gostosa envolto entre cobertas cheirosas das 22 às 7, uma delícia, acorda-se com a disposição de um conquistador, come-se pão fresquinho com um leite vaporoso de quente. Agora a minha hora é inversa a da maioria e eu estou a mil quando o mundo estaciona em letargia. Adormeço por momentos, resmungo, os sonhos são tristes e eu invejo aqueles que jamais se lembram deles. Como muito mal. Às vezes esqueço de tomar banho. Respiro o ar de um quarto que nunca está com a janela aberta, odeio vizinhos bisbilhoteiros. Sei que Deus me vê agora, este Deus absurdo que brinca com os homens em suas ironias, mas Ele eu tolero e não tenho como evitar. Penso como foi triste a agonia no Getsemâni, afinal Jesus não tinha livros, nem computador, nem café para lhe fazer companhia, e os folgados dos apóstolos estavam é dormindo. Era só Cristo com o desespero de uma noite que não se dorme. Eu sempre achei que estes infernos noturnos me seriam negados, mas eu estava errado.

E nas noites insones leio, escrevo, penso, leio mais, escrevo mais um pouco, busco uma saída e o presente de encostar a cabeça no travesseiro e simplesmente repousar - mas não acontece. Desejo que Hipnos embale meu pensamento e o deixe dócil, pequeno, envolto em nuvens etéreas - e ele não aparece. Ao contrário, tenho um coração que não pára e uma ânsia de absoluto que fica ao meu lado sugerindo planos para o próximo dia. Sou um atleta do devir. Especialista em fazer de noites inteiras um laboratório de tormentos e lágrimas, e com a sensação de estar enlouquecendo por isso sem ao menos dar importância.