12.14.2010

Carta número 2


O melhor das noites onde se perde o sono: ver o acúmulo lento, denso e inexorável de maus pensamentos, de rancores cheios de bile, de análises isentas de covardia que, nas horas luminosas, o espírito jamais conseguiria empreender.

12.11.2010

Maria Madalena


Recebi um postal belíssimo de uma amiga em estudos pelo Velho Mundo com uma reprodução da tela La Madeleine à la veilleuse (Madalena ao candelabro, ou luz de velas, em minha risível tradução). Ilustrando esse post, uma imagem da obra. O pintor é Georges de la Tour (1593-1652), um francês que, diferente do natural percurso dos artistas da época, não viajou para a Itália. Contudo, a influência de Caravaggio é notória nos efeitos de contraste claro/escuro.

Não entendo nada a respeito de artes plásticas e, ao lado do cinema, é um dos campos onde mais sinto falta de ter uma formação minimamente decente. Justamente por isso busco a sabedoria dos amigos que se dedicam ao estudo de tais artes. E o quadro de Georges de la Tour me chamou a atenção dias atrás, e qual não foi minha surpresa ao receber não só o postal com uma reprodução do quadro, como também com uma pequena "aula manuscrita" a respeito dele. Reproduzo abaixo o texto do postal:

Maria Madalena é normalmente reconhecida na arte católica por seus ícones: um pote de perfume (de quando lavou os pés de Cristo) e o seu longo cabelo. Interessante que somente o cabelo é o que vemos neste quadro e também não há nenhum indício de que se trata de uma santa (ausência de auréola), algo que foi usado por Caravaggio, os santos são mostrados como simples humanos para que os fiéis se sintam mais próximos do divino. Acredita-se que essa cena seria quando a santa parte ao exílio e se retira em uma gruta em St Baume, na França. 

Como vemos, pela presença de um chicote na sua mesa, ela é penitente. Ela se prepara para a morte. Os livros e a cruz de madeira são para nutrir sua alma. O crânio é um dos elementos tradicionais de uma natureza morta (vanité), também uma "invenção" de Caravaggio, que simboliza a temporalidade da vida. A vela também tem esse significado mas igualmente o de presença divina. 

No que diz respeito a luz, ele difere de Caravaggio por ter a luz que vem de dentro do quadro. Ela esculpe o corpo e põe em evidência as linhas simples (o que é muito moderno para a época) da composição. E não, ela não está grávida, é um código visual da época. Esta é a última das quatro Madalenas que George de la Tour fez, o que mostra a popularidade do tema na época. Também nos leva a pensar que esta seria a mais "bem feita" das quatro.

12.01.2010

Nos cumes do desespero



Uma das aquisições literárias mais agradáveis dos últimos tempos foi uma tradução espanhola de Pe culmile disperării, do Cioran.

Escrito quando o velho romeno tinha ainda vinte e dois anos, o livro é um murro após o outro. As sementes do projeto filosófico mais ignorado do século XX estão já todas ali, naqueles escritos plenos de impetuosidade e ódio do jovem insone que andava pelas ruelas de Sibil trocando confidências com prostitutas, bêbados e desgraçados de sorte ainda pior. Um pensamento que aposta na filosofia como sangue -e em tempos de homens covardes, de destruição de certezas, de esfacelamento de valores e da ressignificação de conceitos e papéis sociais o pensamento de Cioran serve como um convite à destruição e também apresenta uma ótica inovadora sobre os homens em geral.

Há muito o que ser dito sobre ele, mas pela hora que já vai adiantada, pelo cansaço que domina a mente e o corpo, dois trechos da leitura de hoje:

"Gosto do pensamento que conserva um sabor de sangue e carne, e à abstração vazia prefiro muito mais uma reflexão que se origine em um arrebatamento sensual ou em um desmoronamento nervoso."

"Que sucederia se o rosto humano expressasse com fidelidade o sofrimento interior, se todo o suplício interno se manifestasse na expressão? Poderíamos ainda conversar? Poderíamos trocar palavras sem ocultar o rosto com nossas mãos? A vida seria realmente impossível se a intensidade de nossos sentimentos pudesse ser lida em nossa cara."

11.15.2010

Glauco Mattoso

Passei o dia preparando as resenhas para o anuário de fanzines da UGRA e uma das leituras mais interessantes que encontrei foi o zine Spell Work. Especialmente, uma entrevista com o Glauco Mattoso, esse degenerado poeta amante de pés. Reproduzo a seguir um dos trechos da entrevista e deixo o convite para que vocês conheçam esse zine.

11.11.2010

Histórias de amantes IX


F. tinha um especial prazer em escolher as calcinhas, sutiãs e meias para suas mulheres. Gastava algumas horas imaginando como as amantes ficariam com as peças delicadas. Nos momentos de ócio excitava-se em múltiplas visões mentais e lembrava-se do branco de uma microcalcinha a contrastar com a pele morena de Renata, ou o negro das meias 3/4 que modelavam as coxas grossas de Cassandra, ou vermelho que caía tão bem nos apetitosos seios de Gabriela. Comprava tais peças às dezenas e as oferecia com gestos ensaiados de cavalheiro conquistador, desejoso de que os agrados despertassem o gênio da Lascívia em suas amantes. E mesmo cientes de que tudo era o interesse de um jogo nada secreto de segundas intenções, elas agradeciam os mimos luxuosos e aceitavam as regras, sorridentes e umidecidas.

11.01.2010

O Universo como um rascunho


"O mundo talvez seja o rascunho rudimentar de algum deus infantil, que o abandonou pela metade, envergonhado por sua execução deficiente; é obra de um deus subalterno, de quem os deuses superiores se riem; é a confusa produção de uma divindade decrépita e envelhecida, que já está morta."

10.30.2010

Meu amor idiota - Ordo Rosarius Equilibrio

 O Ordo Rosarius Equilibrio foi uma das primeiras bandas de neofolk que ouvi e sem sombra de dúvida a minha preferida. O intricado conceito da banda que mescla sexo, dominação, militarismo e religiosidade transparece grandiosamente não apenas nas espetaculares letras, mas também na sonoridade -que com bases simples e sensuais consegue criar atmosferas admiráveis, perfeitas trilhas sonoras para momentos solitários ou a dois (ou quantos a imaginação e a criatividade permitirem...).

E eis que hoje encontrei esse novíssimo clipe da banda, realizado pela mesma produtora dos novos clipes do Spiritual Front (bandas amigas, já gravaram um disco em conjunto que é uma das coisas mais espetaculares já feitas, como atesta essa música). Produção impecável, música com alta dosagem pop mas ainda assim mantendo a tradição que Tomas Petterson e a bela Rose-Marie Larsen criaram ao longo desses anos.Deliciem-se!



10.29.2010

Kali-yuga Blues


O Kali-yuga Blues é um dos sites de imagens que mais gosto. É mantido pelo Daniel Pellizzari, um sujeito de Porto Alegre que está envolvido também com tradução, literatura e quadrinhos.

10.28.2010

No Intervalo Banger

Meu excelentíssimo amigo Vakka me convidou para fazer um playlist no Intervalo Banger, com certeza um dos sites brazucas sobre metal extremo e adjacências mais original de todos os tempos.

Profundo conhecimento sobre música, notícias atualizadas e um senso de humor da pior espécie dão a tônica do Intervalo Banger. Vale a pena visitar mesmo e ver os outros posts.

Minha playlist sem vergonha: http://intervalobanger.tumblr.com/post/1414333392/playlist-le-marcio-life-is-a-lie


Ah, se você curtiu a foto que ilustra o post, veja lá no Intervalo Banger como descolar o seu.

10.25.2010

Ver o espetáculo do mundo?

Eu nunca liguei muito para eleições. Cheguei a considerar, e isso por anos, que todos os que estavam ali em busca de votos eram rigorosamente iguais. Na sua ânsia pelo poder valiam-se de todos os recursos, inclusive os mais podres, para conquistar votos. Isso claramente não mudou e não espero que mude. Mas a possibilidade real de uma guinada à direita no país por uma candidatura que se alinhou com os setores mais nefastos do catolicismo, do protestantismo e (chega a ser hilário ter que escrever isso) tem como vicepresidente um sujeito de tendências monarquistas me fez repensar completamente minha postura.

10.22.2010

Sucos naturais para guerreiros

Quando uma banda declara como influências "life, love, anger, heroes, friends, enemies and natural warrior juices" você precisa pensar seriamente em parar tudo o que está fazendo para escutá-la. Mas se essa banda tiver um membro do glorioso Cobalt, então a menos que esteja rolando a farra sexual dos seus sonhos você deve parar imediatamente e prestar atenção na música. É o que você deveria fazer agora, já que duvido que essa farra esteja acontecendo.






10.20.2010

Sobre a covardia

 A Covardia tem o seu devido lugar nas coisas humanas. Ela preserva o ser de, em um ímpeto, colocar a sua existência em risco; protege, com o cuidado de uma mãe carinhosa, os espíritos acanhados, os que falam e repetem ameaças escondidos nas trincheiras de sua pequenez. O covarde brada por destruição, vingança, justiça; paradoxalmente nenhum esforço empreende para destruir, para vingar, para equilibrar os acontecimentos na balança de sua deusa cega. Assemelha-se nesse aspecto ao demagogo, cujas palavras são feitas de vazio. Mas a este é pelo menos possível premiar pela ausência de escrúpulos em mentir para os homens, principalmente para os mais desgraçados, sem ao menos ruborizar. O leitor deve ter imaginado uma coleção imensa de homens públicos com tais características; é bom sempre lembrar , contudo, que há muitos outros, menos ilustres, que superam enormemente a estes na arte de inventar mentiras. A biografia de qualquer cidadão, escolhido por acaso, pode ser surpreendente: nossa espécie é uma criação única feita de violência, amor e mentiras.

10.13.2010

Felicidade segundo Sérgio Bianchi

"Uma perfeita forma de dominação autoritária: a felicidade. Mas é interessante em como ainda se insiste em criticar a Bahia. É claro que só é inveja da genialidade do projeto baiano. Enquanto que o resto do mundo se esforça para dominar as massas seja pelo capitalismo ou socialismo, a guerra, a evolução, até o consumo, eles não. Eles só fazem o suficiente pra gerar a felicidade: mantém todo mundo pobre, colocam um som pra tocar e pronto. Tudo bem que eles sejam gênios, mas por que os que não querem ser felizes são obrigados a participar? 

10.10.2010

Tradução, criação e subjetividade

Embora não tenha nenhum envolvimento profissional com o tema, interesso-me bastante pelo assunto tradução (especialmente a tradução literária) e já abordei o assunto algumas vezes por aqui. A leitura de livros como "Quase a mesma coisa", do Umberto Eco, foram responsáveis por aguçar ainda mais minha inclinação pela atividade tradutória, mostrando suas possibilidades, obstáculos e imperfeições.

10.06.2010

Born Again


"To everything there is season. For those who are cursed, a time to die and to be forgotten. And for the blessed, a time to be born again: to live on, beyond death, in the minds of men." - Blood Axis

Eis a trilha sonora dos últimos dias. Minha predileção por neofolk sempre esteve voltada para bandas que tinham uma sonoridade mais modernizante/industrial, como o próprio Blood Axis no início. Mas o novo CD, calcado em instrumentos antigos, surpreendeu-me positivamente.

Ouvir




9.23.2010

Post função fática

Entre canções de Omara Portuondo, litros de mate e leituras cada vez mais caóticas (pois assim denominaram meu processo de leitura que mescla livros de história, revistas de variedade, peças do Beckett e alguma coisa do Cortázar, claro) tenho me dedicado mais e mais aos textos da UGRA PRESS que ao meu velho companheiro de desastres e confusões Dissolve Coagula, que é esse blog mais ou menos abandonado que você está lendo agora.

7.29.2010

Trecho de Fim de partida, do Beckett

Na última promoção do site da Cosac Naify comprei , entre outros, dois livros do Beckett que conheci nas aulas de Correntes Críticas da FFLCH (aliás, um dos mais interessantes cursos do Departamento de Literatura Comparada, por promover o debate de obras/escolas modernas). Esses livros são Esperando Godot e Fim de partida, textos escritos após a Segunda Guerra Mundial e que retratam o destroçado ambiente mental e social dos anos seguintes ao conflito. Não é por acaso que os personagens são todos corrompidos, deformados, aleijados. Beckett não parece fazer concessões.

6.26.2010

Renovação


Os que visitam o blog regularmente já perceberam as mudanças que fiz por aqui. Fontes maiores, serifadas, área de leitura mais espaçada e um novo header. Não poderia deixar de colocar nesse header uma máscara de gás, uma de minhas fascinações.

6.15.2010

Carta número 1

A pior companhia que posso ter sou eu mesmo. Chafurdo na mediocridade como um porco na lama; feliz, lambuzado de todas as podridões que hipocritamente execro, torno-me lentamente um distorcido reflexo da autoimagem enganosa que tenho de mim. Projeto sonhos futuros feitos de uma matéria completamente ridícula. Construo uma casa, uma família e uma esposa ideais: nessa ilusão gosto de me demorar entre os compromissos cotidianos (imaginar a própria vida é o primeiro sintoma de que se odeia a própria vida). Então me vejo em uma ampla morada, uma arejada casa burguesa, com seu mobiliário estúpido, seus quadros estúpidos, seu cachorro de estimação estúpido; ainda não tenho filhos nessa vida imaginada e minha esposa é perfeita com um grande rabo, pernas torneadas e fome de puta. Ao mesmo tempo é completamente apaixonada e nada tem na vida a não ser a mim, o centro de seu sistema solar, o astro ao redor do qual ela orbita com a consciência de uma imbecil. Tenho dinheiro suficiente para viagens internacionais duas vezes ao ano, jantares nos restaurantes da Serra e caprichos outros dos quais as pessoas em geral se valem para gastar sem pensar muito. Tudo que foi relatado é um resumo aporcalhado dos pensamentos que eu desenvolvo até os detalhes: é assim que gasto as minhas horas, construindo mentiras.

5.28.2010

Malditos porteños! - a nova série da UGRA


Não conheço o tanto que eu gostaria, pelo menos por enquanto, mas me aventurei com a UGRA PRESS em uma insólita armadilha: escrever sobre escritores boanarenses que foram relegados a um segundo plano pela crítica ou ofereçam ao leitor mais do que amenidades.

A idéia surgiu de forma espontânea. Desde há quase dois anos tenho lido mais e mais da literatura em língua espanhola, especialmente aquela feita por escritores de Buenos Aires, ou que tenham tido algum tipo de ligação com o clima cultural peculiar da região do Rio da Prata. Literatura tão instigante quanto diversa, essas leituras tem me proporcionado não apenas um rico prazer estético quanto reflexões profundas sobre os homens e, especialmente, sobre que droga de papel a América Latina representa para o mundo de hoje, e o que é escrever/pensar sobre literatura nessa região do planeta, amiúde tratada como quintal para experimentações políticas autoritárias, celeiro do mundo ou paraíso do turismo sexual.

Demos um nome para essa série de escritos: Malditos porteños! é esse nome, e que você morra de câncer se achou que estamos nos filiando ao estúpido nhém-nhém-nhém brasileiro que insiste em tirar sarro de argentinos, em uma espécie de bairrismo sem razão de ser. Esse "maldito" é aplicado no sentido de que terão espaço nessa coluna aqueles nomes incômodos, que não figuram nos best-sellers, que não compõe o panteão dos artistas que juntos definem os limites do bom-gosto. Não que eles não devam ser lidos e, inclusive, debatidos. Mas preferimos nos ater àqueles que espalharam através de seus escritos algo mais do que suspiros emocionados.

O primeiro maldito porteño é um dos meus prediletos, o Roberto Arlt. Deixo-vos, agora, com o link para o post que escrevi para a UGRA, na tentativa de captar sua atenção e distraí-lo do fato que quase não escrevo mais por aqui.

http://ugrapress.wordpress.com/2010/05/28/malditos-portenos/

5.17.2010

Resultado de um dia inteiro dentro de casa, tomando remédios

Um domingo é um dia de tédio, e ele se torna pior quando, após um sábado apetitoso, você acorda com a garganta arranhando e dores espalhadas pelo corpo como se um caminhão de toneladas tivesse te atropelado.

Foi isso o que aconteceu comigo esse final de semana.

Reconheço: dizer tais coisas é vazio e minha vida não é interessante. Aliás, nenhuma vida é, quando vista de muito perto. A admiração se conquista com a distância. A proximidade é boa quando desejamos conquistar sexo ou prêmios mais ordinários, mas em geral ela destrói mais do que edifica. Comigo tem sido assim, mas reconheço que a culpa é mais minha do que da proximidade. Então, não direi mais nada a não ser que tomei duas doses de Tylenol de uma vez, ou seja, quatro comprimidos ao invés de dois. Experimente você também, se você gosta de ver tudo dobrado, como se o seu astigmatismo quadruplicasse em questão de minutos.

Como já falei em outros posts, estou com um projeto chamado UGRA PRESS. Nesse último sábado trabalhamos em nosso segundo vídeo. O primeiro ilustrou o post Queime sua própria igreja. Esse novo vídeo já terá um conceito diferente, contará com personagens, cenários, etc. Gravaremos na semana que vem, após o almoço dominical. Espero que eu sobreviva até lá, não porque eu ache que vou morrer de uma gripe, mas porque gosto do sabor trágico de imaginar que, sempre, tudo está prestes a ruir e se transformar em pó.

Possivelmente, esse vídeo ficará pronto em duas semanas. Até lá, eu tenho planos de colocar aqui o Canto II da Narrativa Mitológica de Curitiba, continuar minha leitura de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister e começar Cien Años de Soledad (sim, é uma vergonha não tê-lo lido ainda). Aliás, há muitos livros que nunca li e que juntos compõe um buraco em minha formação, como uma nuvem de vergonha a me acompanhar para onde quer que eu vá. E apesar de em partes concordar com Nick Hornby nesse artigo, não me sinto confortável em ver a literatura apenas como entretenimento, como algo que é feito para passar o tempo. Talvez seja uma visão demasiado carrancuda do ato de ler; mas quando vejo aquele discurso de que qualquer atividade só é válida quando nos garante "prazer", em geral esse dito prazer é apresentado como algo próximo da fanfarronice. Não preciso dizer o quanto isso me desagrada e o quanto isso se distancia da minha forma de enxergar as coisas do mundo -que se não precisam ser sempre sérias, igualmente não precisam nos fazer rir para serem importantes. Há muito mais que essa febre de hedonismo que guia a todos os corações atualmente.

5.12.2010

Kali


Essa noite sonhei com Kali e ela agitava seus muitos braços enquanto dizia coisas que eu não entendia. Talvez falasse em devanagari, talvez na estranha língua dos deuses, que não nos permitem conhecer aquilo que são. Só sei que acordei cuspindo sangue e penso em Kali o tempo todo.

5.09.2010

Mediocridade

A mediocridade me enoja e principalmente aquela que vem de mim.

Fiz um juramento de não mais ser medíocre, mas sei que desde o início ele seria um juramento vazio.

Imerso em minha diminuta mentalidade, repleta de preconceitos (de maus preconceitos, porque há aqueles que são bons) passo os dias nada fazendo a não ser multiplicando meus males, meus sofrimentos, minha nulidade feita de pó, lembranças, arrependimentos e vícios vazios.

Tudo o que aprendi estou lentamente desaprendendo. Como um ciclo, chego na metade de minha vida com vácuos na mente e na alma.

Tudo o que eu deveria fazer está muito bem desenhado na minha frente, como um desenho detalhado e repleto de minúcias. Contudo, esqueço dele, fecho os olhos, arremesso a Grande Obra para um canto qualquer e depois lamento.

Ouço o choro da criança que não tive, anos atrás. Um fantasma abortado, uma existência que eu não suportaria porque a minha, já bastante pesada, ocupa-me 24 horas por dia com inúmeras dores.

Será o choro de um fantasma? Eu acredito neles. Os mortos são mais reais do que muita gente de carne e osso. Reais por sua presença sentimental. E são os sentimentos o que importa. Tudo o mais é invenção, ou problema.

Esse choro, de onde vem, afinal? A vontade é esmagá-lo, a vontade é calar a boca da criança que chora com um murro que esfacela dentes, ossos e transforma aquela linda cabecinha de infante em um amontoado de sangue.

Engula esse choro, criança, engula-o.

5.06.2010

Cidade Orgia


No noticiário daquela manhã S. viu que uma terrível onda de calor assolava as cidades do Nordeste. Na TV as mesmas imagens dos bois magros, dos poços vazios, das famílias de Fabianos famintos e humilhados. Parecendo se alimentar do Sol, a imensa caatinga crescia como um invencível monstro de aridez que ria da desgraça dos homens. E entrando no elevador para ir embora o calor nauseante fez com que se lembrasse das imagens vistas pela manhã e que aqui, mais ao sul, os tempos vividos eram também tempos de seca: chegava ao final mais uma semana de trabalho, a noite de sexta-feira era deslumbrante e fazia um mês, doze dias e só-o-diabo-sabe-quantas-horas que S. não fodia.

Isso às vezes ocorre com um cara. Uma espécie de piada de mau gosto (de péssimo gosto, diria S.) que a Natureza reserva aos seus filhos, mesmo que eles estejam em forma, bem vestidos, com barba aparada e escorrendo testosterona. Vai a bares, shows, baladas, festas e volta para casa tão sozinho quanto antes; reativa contatos com amigos; liga para um caso antigo e descobre que a desgraçada casou; e com exceção das velhas querendo lugar no metrô, para todas as demais mulheres do planeta o sujeito tem certeza que se tornou invisível ou desnecessário, como se ali, no espaço ocupado pelo corpo de um homem em apuros, só existisse algo cujo destino é ser ignorado (o necessitado é, antes de tudo, um exagerado).

S. saiu do elevador e em dois passos já estava nas ruas. A sexta-feira tinha sido muito quente. Já fazia quase uma hora que o sol sumira atrás dos imensos prédios, mas sua incandescente presença permanecia nos decotes generosos, nas saias que balançavam ao ritmo de coxas firmes, nas sandálias de salto alto que eram como altares para pezinhos suculentos. E se para um homem que passou a noite anterior transando até às quatro da madrugada o efeito desta moda provocativa é considerável, que o leitor tente sentir (e a leitora faça um esforço para imaginar) como um infeliz na condição de S. (um mês, doze dias, só-o-diabo-sabe-quantas-horas) sofria ao ver aquele cortejo de decotes, saias e sandálias de salto alto.

Como aquela noite estava quente e a avenida Paulista tomada de carros, S. desistiu do ônibus e confiou a volta para casa aos seus sapatos. Poderia assim desfrutar do agradável calor por um caminho que não era muito longo. E com tantas pessoas pelas ruas e, principalmente, com tantas mulheres (decotes, saias, sandálias) que também voltavam para casa, a andança seria um ótimo passeio e –quem sabe– poderia reservar algumas surpresas, oportunidades e aventuras (o necessitado é, antes de tudo, um esperançoso).

A avenida Paulista estende-se em uma linha reta por sete estações de metrô, dois shopping centers, dois museus, cinco livrarias e incontáveis prédios de ambos os lados. Estes se elevam do chão aos céus às dezenas como longuíssimos falos, rijos e sedentos caralhos apontados para o alto, para a enorme bunda de Deus, sentado lá nas nuvens a observar o mundo horrível que criou. A Mãe Terra salpicada de falos que apontam para o céu, eis uma ironia terrível, uma mãe com falos, hermafroditismo curioso que a obsessiva mente de S. poderia muito bem criar se já não estivesse ocupada com outra analogia inesperada, que brotou quanto viu entrando, no túnel que fica no final da Paulista, um enorme caminhão pipa; o gigantesco veículo lentamente cruzava a entrada do túnel, quase encostando em seu teto com sua volumosa e roliça carcaça metálica. Isso ainda me bota doente, pensou, mas a sugestão da imagem nem por isso deixou de persegui-lo; reviveu em flashes lembranças de fêminas ancas, levantadas em posição canina, com ondulações apetitosas, suculentas, e lembrou-se como suas mãos se encaixam naquelas curvas, o contato das peles suadas, os gemidos que o túnel não dá, os jorros espasmódicos que ao caminhão não são permitidos, e S. calculou se talvez não estivesse a um passo de se tornar um maníaco (o necessitado é, antes de tudo, um desconfiado).

S. continuou caminhando de volta para casa e (nem é preciso dizer), sempre em alerta a qualquer movimento feito por qualquer mulher em um raio de vinte metros. (um mês, doze dias, pergunte-ao-filho-da-puta-do-diabo). Seus olhos vivazes flanavam entre camisetas delineando seios perfeitos, frentes únicas exibindo costas macias e calcinhas levemente à mostra que S. tinha certeza que eram ridiculamente pequenas, expediente que segundo ele era utilizado de forma deliberada e com o único intuito de provocar. E devido ao seu estado excepcional, S. cometia com uma freqüência maior um equívoco que todo homem já cometeu: a captação de flertes até mesmo onde não tem. Pois se é possível reconhecer alguma habilidade em um homem necessitado, essa está em uma imaginação sem limites que entende um simples olhar como convite a um ménage.

Foi algo parecido o que aconteceu com S. na esquina da avenida Paulista com a rua Augusta: lá estava ele misturado entre muitos outros pedestres parados no farol vermelho, esperando uma chance de atravessar, um rebanho de animais cansados querendo voltar para casa em uma sexta-feira quente; após um tempo de espera o farol ficou verde, o rebanho estoura, os animais se cruzam; só isso e nada mais, apenas pedestres que se cruzam em um farol, todavia S. acreditou que uma ruiva peituda vindo na direção contrária lançou sobre ele um olhar diferente. Obviamente que se trata de algo absurdo e que a suspeita de S. é claramente fruto de seu estado, mas mesmo assim ele quis voltar e puxar conversa com a ruiva de alguma forma (o leitor sabe que conversas desse tipo necessariamente não precisam de assunto: fala-se apenas, intercalam-se futilidades com restos de estupidez, permite-se que o nada construa a sintaxe do discurso; a “eficácia” de uma conversa dessas, cujo objetivo é obter sexo, é tão maior quanto menor for o conteúdo da conversa). Após algumas palavras arriscaria convidá-la para ir até a sua casa; inacreditavelmente ela aceitaria, excitada com a irresponsável aventura; não demoraria muito e estariam nus na cama de S., esfregando-se como bichos, lambendo-se como bichos; descontrolados, entregues a uma animalidade de fluídos corporais, para aqueles dois pouco importaria que não se conheciam - tanto melhor assim, o anonimato permitiria todas as obscenidades. Foderiam com uma intensidade primitiva, ofegantes e malcheirosos após um dia de trabalho, e para S. seria algo realmente fantástico aquela mulher gemendo embaixo dele e pedindo mais, pedindo mais para um estranho qualquer que teve a ousadia de segui-la e propor sexo com palavras completamente vulgares, e que após uma conversa vazia se apresentou dizendo seu nome, nome que ela já tinha esquecido e isso não fazia mais a mínima importância agora que S. se espalhava dentro dela de uma forma quente, densa e viscosa.


Mas nada disso aconteceu a não ser na imaginativa mente de S. Ele continuou seguindo em frente, e a ruiva também. Ficará no leitor a dúvida se o olhar dela guardava algo de mundano ou se os pensamentos de S. afinal são produtos de uma mente acostumada a ver filmes da Buttman. Não importa discutirmos isso: dados menos de dez passos, S. não mais se lembrava da ruiva. É que a capacidade de encontrar flertes onde não tem possui um sistema de defesa contra as decepções, que faz com que o pretensioso conquistador se esqueça de todas as suas fantasiosas quase-conquistas tão logo elas se transformem no que sempre foram - isto é, nada. Salvam-se assim de tristezas e desilusões por todas as mulheres perdidas ao longo da vida, mulheres que são apenas frações de pensamentos subconscientes e das quais não guardam a menor porção de lembrança (o necessitado é, antes de tudo, um inescrupuloso).


Chegou ao Parque Trianon, lugar onde sempre encontramos casais sentados nos bancos trocando carinhos, beijando-se ao lado de árvores centenárias, testemunhas mudas de afagos libidinosos, de confissões dolorosas, de promessas de amor eterno que o tempo tratou de provar que eram falsas. Talvez pelas condições cruelmente impostas a S. (um mês, doze dias, blá blá blá) a ele parecia que os casais ali se beijando estavam especialmente atrevidos naquela noite; vítimas dos calores tropicais, seus beijos pareciam arder de tanta volúpia; e eram tantos casais ali se beijando que na imaginação de S. o Parque Trianon estava prestes a ser palco de uma orgia onde a qualquer momento centenas de Cupidos gorduchos lançariam suas flechas naqueles amantes indecentes. Inflamadas até os ossos com os mitológicos dardos as mulheres empurrariam seus homens para a grama; já completamente loucas de desejo arrancariam as próprias roupas, despindo-se com a sensualidade das feras; fariam o mesmo com seus machos, distribuindo calorosos beijos ao longo dos másculos corpos com generosidade; e no gramado do Parque Trianon veríamos mulheres nuas movimentando-se ritmicamente sobre corpos de homens deitados; mãos hábeis e deslizantes percorreriam depravadamente cada contorno de seio, cada pedaço daquelas bundas macias que, movimentando-se com delícia, pareciam implorar por novos tapas; e os gemidos seriam muitos, de todos os tipos, seriam ofegantes e maravilhosos, compondo uma libidinosa orquestra de sons sexuais, orquestra que faria os Cupidos gargalharem de satisfação e lançarem mais e mais flechas em todas as direções até que aquelas bacantes modernas, suadas e cansadas, saciassem a sede de suas bocas secas com os sucos revigorantes de seus machos agradecidos.

S. continuou seu caminho deixando lá nos bancos do Parque Trianon os enamorados, sem saber se haveria orgia ou não. Andou um pouco mais e chegou ao edifício Kanavikós. Na suntuosa fachada desse prédio, que abriga o principal jornal da cidade, há uma escadaria que muitos usufruem para descansar. Era exatamente esse o ponto da avenida que S. mais gostava. Sempre era possível observar dali a movimentação dos muitos bares, livrarias e cafés das redondezas, como também acompanhar discretamente as mulheres que por ali passavam. Sentou lá pela altura do décimo degrau da larga escadaria, acendeu um cigarro e começou o exercício mental que sempre fazia quando estava por ali: escolher aleatoriamente uma garota que passava e descobrir de que forma ela mais gostava de foder. Morena alta de saia curta e blusa branca, de quatro; loira de cabelo curto e cara de sono, de lado; ninfetinha de calça apertada e regata do Ramones, topa tudo; cabeluda com shorts azul e salto alto, por cima; gordelícia de cabelo curto e bunda grande, dá o cú na primeira – era mais ou menos assim que a lista funcionava. Terminou o cigarro, fez uma rápida retrospectiva da lista recém elaborada e continuou o caminho pensando que, entre todas as garotas da lista, a gordelícia merecia o topo com louvor, não tanto pelo fato de dar o cú de primeira, vantagem competitiva que quase todas as gordelícias oferecem segundo as sofisticadas teorias sexuais de S., mas pelas formas a la Botticelli com suculentas e mordiscáveis curvas, aparato perfeito para que as mãos se encaixassem, para que a boca se demorasse em chupadas doloridas e para outras finalidades que não elencaremos aqui, posto que a lista de S. já é demasiado explícita (o necessitado é, antes de tudo, um inconveniente).

Cruzou a esquina com a avenida Desperado, ponto onde começava a parte mais bonita da avenida Paulista: ali estavam as cervejarias Taavesh e Rio Grande, as livrarias Martins Fontes e La Hermosa, as lojas onde S. preferia comprar suas roupas, o teatro Cia do Absurdo, a Casa das Rosas, a Praça Lins, os antiquários, etc. Era nessa região que em geral S. fazia o desjejum aos domingos, gozando da calma tranqüilidade dos cafés e das muitas árvores que ofereciam àquele ponto da avenida uma serenidade que dificilmente se encontrava na Grande Cidade.

Mas naquele momento não havia nada da calma tranqüilidade das manhãs dominicais: ainda era sexta-feira, uma quente e abafadamente lasciva noite de sexta-feira (um mês, doze dias, deixemos-o-diabo-em-paz). Taavesh e Rio Grande com todas as mesas lotadas de fiéis trabalhadores buscando o relaxamento merecido após cinco dias de escravidão assalariada. Bebendo, gesticulando e rindo em uma confusa melodia de happy hour, homens e mulheres formavam grupos de configurações bem variadas e nem é preciso dizer que S. prestava muito mais atenção nas mesas onde só havia mulheres: estavam rindo e certamente falando indecências, certamente contando para as amigas como que foi com fulano, e todas se deliciando naquela espécie de irmandade que o ato de beber oferece quando feito em conjunto. Quais não serão os segredos das conversas entre as fêmeas, das conversas depravadas das fêmeas que em nada devem aos homens em matéria de obscenidades e safadezas. Mas da calçada S. só consegue ver as bocas se mexendo, uma pena não ouvir o que aquelas mulheres dizem (loira de decote, por cima; amiga de cabelo tingido, de quatro; morena magrinha, de quatro também). No fundo é melhor que S. e todos nós sejamos privados destes segredos, que nem são tão segredos assim, mas como gostamos de jogos e ilusões é divertido assim imaginá-los, indizíveis e para sempre ocultos.


S. estava chegando em casa. Passou pela larga ponte que cruzava pelo alto a avenida XXIII e, lá de cima, viu ao longe o Obelisco. A Mãe Terra salpicada de falos que apontam para o céu. Andou um pouco mais e chegou ao entroncamento da Paulista com a rua Vittoria, onde S. morava. Parado no farol, esperando o sinal verde, S. viu do outro lado da rua, perto da entrada do metrô Paraíso, uma obra da prefeitura fazendo um enorme buraco na calçada. Um trabalhador segurava uma britadeira que castigava o solo, em um sobe e desce rápido que não deixou de produzir em S. uma outra analogia, uma outra seqüência de flashes pornográficos que mesclavam fodas de outrora, Buttman e a gordelícia de Botticelli, a ereção veio como um foguete, impossível evitá-la e afinal evitá-la para quê, olhasse para baixo e encontrasse seu pau duro mal encoberto pela calça quem quisesse. O farol ficou verde, atravessou a rua e desta vez não houve trocas de olhares, só um velho vindo no sentido contrário. Olhou de novo o buraco na calçada e cantarolou em pensamentos trechos de uma música (when I dig a hole in the ground, I got erection), e realmente sentiu que estava entrando em apuros, que a aridez do Nordeste estava matando gente às pencas e que a sua seca poderia matá-lo também, no limite transformá-lo em um maníaco (um mês, doze dias, muitas-horas-para-o-diabo-contar), que talvez melhor do que voltar para casa seria voltar para as mesas do Taavesh ou do Rio Grande, sentar em uma mesa, pedir uma Eisenbahn Pale Ale e sorvê-la como se deve, buscar os olhares das fêmeas, torcer para o Cupido ser um gordinho legal e alvejar algumas com suas flechas, e elas então corresponderiam aos olhares de S., motivadas pelas flechas míticas; o sinal do acasalamento estaria dado, o álcool levaria as pernas de S. até a mesa daquela que tivesse o decote mais indecente, mais Eisenbahn Pale Ale, a sexta-feira fervilha o sangue nas mesas do Taavesh e Rio Grande, o pau dele pulsando ao ritmo da horrível música que tocava, entre conversas vazias já estariam próximos o suficiente para S. sentir o perfume dela e fazer os mesmos batidos elogios que sempre funcionam, mais Eisenbahn Pale Ale, mais elogios, mais palavras maliciosas, risadas já altas e tudo seria uma questão de paciência para que os tempos áridos que S. vivia chegassem ao fim.

4.25.2010

Narrativa Mitológica de Curitiba - Canto I


Canto I

Chegaram à cidade de Curitiba em uma fria manhã sem nuvens de Sexta-feira Santa. Lembraram-se com emoção do Nazareno que morreu na Cruz logo que deixaram o ônibus, mas essa emoção passou rápido pois foram surpreendidos por uma visão: campos sem fim com centenas de Cristos crucificados, um Cristo para cada pecado cometido pelos homens. A visão ocorreu de forma simultânea para os três: não foi preciso que comentassem um com o outro o que tinha ocorrido. Isso secretamente os alegrou pois mostrava, de forma a não deixar dúvidas, que a decisão de comemorar os Mistérios da Páscoa em Curitiba tinha sido acertada, marcando o início de dias preenchidos com cânticos selvagens, orgias lúdicas e fruição estética de objetos sem beleza.

Foram recepcionados calorosamente na rodoviária por um judeu casado com uma italiana. Moravam na cidade há algum tempo, sendo amigos do Peregrinos desde “há inúmeras gerações”, como gostavam de falar, se entendermos gerações em um sentido não vulgar e sim relacionado com a idéia de samsara. O judeu e a italiana viviam afastados do centro de Curitiba, em uma filial do Templo da Juventude Psíquica. No Templo havia 7 gatos, 23 serpentes e infinitos quartos: em cada um deles habitava um vício e uma mentira. Os Três Peregrinos resolveram acomodar-se no mesmo dormitório, que ficava defronte ao que o judeu e a italiana utilizavam. Um dos sete gatos gostava de arranhar a porta do quarto dos Peregrinos quando estava fechada; conta-se que aquele gato habitava ali desde muito antes dos Tempos Históricos, e que a presença do Templo consistia para ele uma espécie de profanação. Não se sabe que deuses eram profanados, e nem mesmo quem conseguiu descobrir isso; eram deidades para sempre esquecidas, cujos nomes permanecem codificados nos miados dos felinos.

Os Peregrinos, cansados da viagem, não resistiram ao conforto do quarto e adormeceram por algumas horas logo após o almoço. Enquanto dormiam, o judeu e a italiana desenharam um detalhado plano para a noite de Sexta-feira Santa. Estavam entusiasmados: fizeram uma enorme lista de ritos, compromissos e lugares para visitar, e sua empolgação foi tamanha que estabeleceram atividades para os outros dois dias também, tudo para que as horas fossem preenchidas, ricamente preenchidas. O próprio ato de escrever a lista lhes causou imensa satisfação. Sorridentes, foram despertar os Peregrinos de sua sesta preguiçosa, encorajando-os a se preparem para os compromissos noturnos. Sabiam: seriam dias vividos não vulgarmente como um feriado, como uma desesperada tentativa de diversão, mas sim como uma experiência de criação intensa de realidades complexas, de novos limites cognitivos, de sensibilidade paradoxais. Mesmo que tudo isso, no fundo, não signifique nada – tanto os Peregrinos como o judeu e a italiana sabem e sentem que a Vida é nulidade, engano, ilusão e traquinagens do intelecto tentando justificar que no fundo não é nada disso.

Já começava a noite quando deixaram o Templo entregue aos caprichos dos 7 gatos e das 23 serpentes. O destino dos nossos falidos heróis era o centro de Curitiba, especificamente o Largo da Desordem: espécie de último resquício do passado da cidade, cristalizado nas construções antigas, o Largo da Desordem é repleto de bares que invariavelmente estão cheios. O vulgo em peso povoa as mesas e, como não poderia deixar de ser, bebe incontrolavelmente. Contudo, a embriaguez dele esgota-se em si mesma; quando muito alguém se torna agressivo ou melancólico ou ridículo; a agressividade tem ao menos o mérito de colocar o indivíduo em uma situação de perigo, fator que o tira da normalidade sufocante que é uma verdadeira ruína para o espírito. Mesmo assim, é uma ferocidade sem brilho algum, assemelhando-se a cães que disputam um osso encontrado ao acaso. Mas de qualquer modo havia mesas e lugares para os Peregrinos e seus anfitriões se sentarem, o que fizeram sem demora nas mesas pouca iluminadas do Schwarzwald, endereço presente na lista de lugares-para-ir feita pelo judeu e pela italiana enquanto os Peregrinos dormiam e sonhavam. Escolheram o lugar por dois motivos complementares: por se tratar de Sexta-feira Santa e por ali se servir carne de onça e carne de javali. Em uma estúpida encenação ritualística (e conscientes da estupidez) pediram bebidas e os dois pesados pratos. Da carne de onça era possível ver o sangue escorrendo, já que era servida crua, e a do javali o aroma da gordura cozida chegava a ser nauseante. Mas os limites do corpo existem justamente para serem estendidos ao máximo, na busca pelo ponto onde a configuração saudável dos órgãos se encontra comprometida; os resultados não físicos do esforço se justificam, como por exemplo a visão mais ampla da realidade obtida após uma semana sem dormir, ou a sensação de superioridade espiritual fruto da escalada de vertiginosa montanha em trajes menores. Para os Peregrinos, o abuso de carnes na data em que o Nazareno morreu serviu como um ato simbólico de negação; ao mesmo tempo, comportava uma ânsia por intoxicar o sangue com substâncias mortas. Tal intoxicação ocorreu: sentiram-se pesados, gordos e incapazes de pensamentos ou ações sublimes, e preparados para uma noite sem descanso. Pouco depois do Ritual de Intoxicação, chegaram ao Schwarzwald as Amigas do judeu e da italiana: uma delas era a Loira e a outra a Morena. Trajavam provocantes vestidos negros e imediatamente despertaram a atenção dos intoxicados Peregrinos (uma delas desempenhará um importante papel nessa Narrativa Mitológica, ainda no desenvolvimento do Canto I). Suscetíveis estavam a qualquer menção de feminilidade, e a das Amigas era de uma espécie que levantava paus apenas com uma breve insinuação.


Para que uma noite de Sexta-feira Santa seja realmente comemorada em Curitiba, os Peregrinos instituíram que era necessário render homenagens a um ídolo presente nas extremidades do Largo da Desordem: a estátua do Cavalo Babão. Rodeado por jovens almas completamente imersas em um niilismo passivo que faria Nietzsche arrancar os fios do próprio bigode, nas redondezas da estátua do Cavalo Babão vagam aqueles comerciantes que vendem brincadeiras mais divertidas já vistas – ou seja, traficantes. Os Três Peregrinos os reconheceram pelas suas características universais: sempre quietos, parados nos lugares semi-escuros e pouco movimentados, sérios, compenetrados como monges. Em um determinado momento da noite foram até lá para munirem-se de ácidos, acompanhados por uma das amigas da Loira e da Morena. Essa amiga chamava-se G. e tinha se juntado ao grupo fazia apenas alguns minutos; levou os Peregrinos para falar com um tal de Traficante do Capuz, cujas pílulas eram famosas entre os curitibanos. A negociação foi breve: saíram de lá com o suficiente para uma noite. G. ofereceu as pílulas aos Peregrinos colocando-as em sua boca e beijando-os, molhada e libidinosamente. Dizia-se que ela era uma bruxa e que aprendeu a arte de beijar em cerimônias de osculum obscenum praticadas amiúde nas terras do sul. Talvez daí se explique por que os Peregrinos tenham ficado com uma sensação muito viva de que o beijo de G. continha algo fecal e demoníaco, especialmente para o peregrino mais alto e que nunca dormia, que foi favorecido com beijos de ácido mais calorosos.


Desse ponto em diante a noite dos Peregrinos entrou em seu momento de ascensão, delírio e aventura. Sempre acompanhados do judeu e da italiana, seus anfitriões, e também das Amigas, nossos heróis percorreram as ruas centrais de Curitiba. Perdidos, alheios, gozando da influência dos beijos de ácido de G., entoaram os cânticos tradicionais da Sexta-feira Santa, celebrando o assassinato ritual do Nazareno segundo a exegética da Morte do Passado, ou seja, como um momento feliz; e dentre os muitos significados de tal morte, trataram de deixar claro que, como Jesus estava morto, tornava-se ilógico falar de pecado; devido a isso, pelo menos até a Páscoa, os pecados estavam suspensos e todas as ações não poderiam ser julgadas como boas ou más, justas ou injustas, já que deus estava ausente das coisas do mundo.

O clima de licensiosidade iniciado com a Intoxicação por Carne e hipertrofiado com os Beijos de Ácido de G. levou-os ao Blood, um lugar qualquer de Curitiba que não vale a pena explicar. Ali, os fatos que merecem ser enumerados se resumem a três: a Longa Conversa sob a Árvore do Vício, que fica na região exterior do Blood, cercada por areias impuras; nessa conversa tudo o que existe no mundo foi discutido e analisado sob inúmeros pontos de vista, todos estúpidos; a irritação de alguns machos locais, que odiaram a presença dos Peregrinos no Blood, talvez por os considerarem estrangeiros em sua cidade, típico bairrismo curitibano que os próprios Peregrinos consideram correto e desprezível ao mesmo tempo; e por último o ataque sexual sofrido pelo Peregrino de aspecto vampírico, que sucumbiu aos encantos da Morena. O intercurso entre os dois foi selvagem, bêbado e indecente, sendo que a Morena, uma sucubus em estado ideal, tratou de sorver praticamente todo o vril do peregrino de aspecto vampírico, chupando-o no pescoço. A ferida daí resultante permanece lá até hoje – o que nos deixa espaço para imaginar qual seria o resultado se a ela fosse dada a oportunidade de sugar o seu pau.

Há determinadas noites que deveriam ser eternas; entre o ocaso e o resplandecer do sol há mais vida do que em qualquer outro momento do dia. Os Peregrinos sabiam disso, e na volta do Blood para o Templo, onde moravam os 7 gatos e as 23 serpentes, seus espíritos rememoravam os acontecimentos de há pouco, assim como, sem nada dizer, amarguravam o final da noite, da primeira noite em Curitiba.


p.s.: Narrativa Mitológica de Curitiba é um relato dividido em partes. Esse é o Canto I. A Introdução e o Exórdio podem ser lidos aqui.

4.19.2010

Relatório de leituras: Fante, Veyne e Goethe

Completamente doente o final de semana todo, inclusive febril na noite de sábado, meus dois últimos dias em casa foram lamentáveis. O odor acumulado de minha respiração/transpiração somou-se a tantos outros odores desagradáveis que brotavam de minhas lembranças, mas a esses odores é mais fácil se furtar: basta apenas um coquetel de remédios fortes, vem o sono e pronto, a tranqüilidade algo zen domina-me por completo e eu até sonho.

Ficar em casa curtindo uma doença, todavia, não é nem de longe algo ruim, levando-se em conta que há muito o que um homem doente pode fazer como, por exemplo, ler. E a minha leitura de convalescente foi O vinho da juventude, do Fante. Se você já leu Pergunte ao pó ou Espere a primavera, Bandini com absoluta certeza vai amar os contos desse livro. "Um de nós", o conto que na primeira orelha é indicado como um dos mais pungentes da obra, está certamente na lista das coisas mais tristes que já li, mas há momentos ainda mais tensos e poéticos, como em "Lar, doce lar" e "O Deus de meu pai". Ri muito lendo "A última jogada de Oscar" (o episódio da briga semi-xenofóbica dos garotos fala mais sobre geopolítica do que cansativos artigos de especialistas) e ri mais ainda lendo "A canção tola de minha mãe". Não me lembro do último livro que me fez rir assim, com verdadeira satisfação, e poucas páginas a frente me deixar pensativo e emocionado com as lágrimas de arrependimento de Jimmy Toscana, o alter ego que Fante deu para si nos contos reunidos nesse livro.

Algumas palavras sobre o título do livro. O vinho da juventude não é de todo ruim, afinal o vinho é quase um personagem dos contos, estando presente em praticamente todos eles. Porém o título original, Dago Red, tem um sentido completamente diferente: "dago" era o termo usado para pejorativamente designar os italianos nos Estados Unidos. O termo que em geral usa-se no Brasil (ou usava-se) é carcamano. Em uma tradução mais fiel, O vinho dos carcamanos seria mais adequado. Mas talvez as exigências politicamente corretas e/ou mercadológicas tenham norteado a decisão de suavizar o título original, se bem que eu não entendo como alguém, hoje em dia, poderia se sentir ofendido ao ser chamado de carcamano. Talvez um velhinho da Mooca fique vermelho de raiva ao ser chamado assim, mas tenho certeza que nenhum velhinho de lá lê o meu blog.

A doença que me fez recluso nesses dois dias também rendeu a redação de um novo (ou melhor, o esboço de) post para o blog da UGRA Press. Provavelmente, na próxima quinta-feira, que é o dia em que colocamos no ar as atualizações, ele será publicado. Estou ficando feliz com ele, pois me baseei em um ensaio do Paul Veyne, historiador francês que desde meu segundo ano da USP me cativou, seja pelo seu estilo elegante e debochado ao mesmo tempo, seja pelos controversos pontos de vista que ele arrisca de vez em quando. Em seu último livro, "Quando o nosso mundo se tornou cristão", por exemplo, Veyne sustenta que só nos tornamos cristãos porque Constantino se converteu. Não nega a extrema habilidade política do imperador ao levantar a bandeira dos seguidores da Cruz, mas em larga medida credita nossa herança cristã ao radicalismo de um homem só - indo contra a opinião largamente aceita de que o cristianismo, na época de Constantino, já era um culto largamente adotado no Império Romano. Para ele, a desconstrução do paganismo ocorreu de forma política, e não meramente pelo trabalho das primeiras comunidade cristãs. A diferença pode parecer sutil, mas guarda consigo uma radicalidade profunda: só falta Veyne escrever que tudo o que foi dito sobre o nascimento do cristianismo era uma bobagem.

Pausa para mais remédios. Essa semana, a leitura será Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe. Na quarta, coloco aqui o Canto II da Narrativa Mitológica de Curitiba. E aos que rezam, peço que rezem por mim, já que não tenho fé para isso.

4.16.2010

Narrativa Mitológica de Curitiba

Nota introdutória
O que aqui segue é a parte inicial do esforço que denominei Narrativa Mitológica de Curitiba, após minha visita a essa cidade na última Páscoa. Foi a forma que encontrei para registrar, da forma que me parece a mais apropriada, os 3 dias entre a morte de Nosso Senhor e sua vitoriosa ressureição entre ovos de chocolate.

Haverá ainda três partes, que serão devidamente publicadas assim que eu me sentir satisfeito. Boa parte da Narrativa Mitológica de Curitiba foi escrita por apontamentos, coletados anarquicamente durante os dias do feriado. O trabalho maior está em dar um conjunto para tudo o que está espalhado em mais de vinte páginas de anotações, rabiscos, desenhos, fotos e cheiro de vômito.

Fatos, memória e fantasia estão completamente entrelaçados não apenas no resultado final da Narrativa, mas inclusive nas anotações. Todavia, tudo o que está escrito -absolutamente tudo- aconteceu de verdade
. Deliciem-se.


Exórdio

Os Três Peregrinos decidiram que a Páscoa daquele ano seria comemorada na cidade de Curitiba. Como em geral as coisas acontecem para eles, a viagem foi decidida aos solavancos, quase de improviso, o que não quer dizer que tudo o que aconteceu já não estava determinado em algum plano além-da-matéria que não explicaremos aqui. O fato é que arrumaram suas bagagens com satisfação, colocando nelas roupas, mentiras musicais, ilusões literárias e alguns sortilégios filosóficos. Combinaram de se encontrar na Estação Paraíso logo após o Sonnenuntergang; naquele horário a cidade agitava-se na a efervescência do movimento frenético de milhões de destinos vivendo o seu limbo-nada, desesperadamente querendo voltar para casa, caos que era a delícia-pesadelo de um Demiurgo vaidoso que com certeza ri e engasga com o próprio riso ao ver os Três Peregrinos se cumprimentando, abraços e tapinhas nas costas e sorrisos estúpidos, ansiosos pelo que estava por vir, por aquela Grande Viagem de Páscoa em que desceriam para o Sul, para o frio Sul, lar da dissolução de todos os Grandes Sonhos e Projetos.

Após se cumprimentarem, desceram as escadas e entraram no metrô que liga os extremos Norte, Sul, Leste e Oeste da cidade (o simbolismo da Cruz, escancaradamente presente na vida cotidiana ). Foram até a Estação Tietê. Ali fica uma rodoviária, arquétipo do Porto em uma versão modernosa ou empobrecida, adjetivos que parecem não ter nada de semelhante entre si, embora no fundo sejam semanticamente equivalentes e cabalisticamente irmanados. O Porto sempre foi o ponto de contato entre mundos diferentes, o grande misturador dos weltanschauung, a testemunha das despedidas fatais, a conexão mística das culturas em ascensão com aquelas que também desejam os altos vôos apolíneos antes do Esquecimento; lembremos que Fernando Pessoa, esse semideus feito não um mais muitos, escreveu uma ode ao Mar e ao Porto eterno que nos habita lusitanamente, que marca nossa alma com uma herança mediterrânea de Agitação e Perda. Mas se não há mais peixes nem marinheiros no arremedo de porto que a nós resta, nas rodoviárias há porém toda a sujeira e confusão de odores que caracterizam os redutos das embarcações. Malas são arrastadas, pessoas se esbarram sem parar, avisos sonoros alertando aos atrasados que é melhor se apressar, filas monumentais para compras de passagem, choro de crianças, resmungos de velhos, últimas recomendações para os que se vão: a rodoviária Tietê é uma coleção de tudo isso acontecendo sempre e sempre, um universo incansável de Tristeza, Perspectivas, Separações e Reencontros.

Os Três Peregrinos, que embarcariam no último ônibus da Viação Itapemirim, estavam alheios a toda essa movimentação da rodoviária: sua excitação com a viagem impedia reflexões mais profundas e senso de observação apurado. A saída do ônibus sofreu um atraso de quase uma hora, cortesia do engarrafamento da cidade, que ainda é tratado como um acontecimento excepcional quando na verdade transformou-se em fato corriqueiro, isso desde há anos. Mas assim se forma a Realidade, por um ato de Vontade, que muito deve ao uso da Palavra, esse instrumento de Poder que o Demiurgo vaidoso nos deixou para, em vão, tentar explicar o Universo.

Vencido o trânsito (exercício de contrapoder em nível lingüístico: vencida a condição natural de engarrafamento da cidade) o ônibus pegou a Autopista do Sul e em velocidade crescente seguiu para a cidade de Curitiba. Os Três Peregrinos então adotaram seus comportamentos padrões. O mais velho logo adormeceu: seus sonhos eram todos sexuais e invariavelmente envolviam lambidas no de mulheres depiladas. O outro peregrino, o mais alto, não dormia nunca: passava as noites desenhando histórias em quadrinhos de continuidade infinita onde a Derrota, essa deusa incansável, era venerada em diversas formas. O peregrino mais novo também não dormia, contudo permanecendo em um estado sonambúlico: tal estado lhe conferia uma aparência vampírica, acentuada por sua predileção por roupas negras e leituras em línguas estranhíssimas. Terminamos o exórdio dessa Narrativa Mitológica vendo nosso Três Peregrinos sentados em suas poltronas no ônibus e entregues cada um às suas manias prediletas.

4.12.2010

A realidade é aquilo que eu acredito


Nesse final de semana eu tive uma overdose de trabalho tão incrível que me fez perceber que o ridículo pode de fato tomar conta da vida de qualquer um. Ontem resolvi, então, fazer uma vingança simbólica: ficar acordado durante toda a madrugada não fazendo nada. Isso mesmo, não fazer nada, como um exercício calculado de ócio. Deu certo.

A madrugada rendeu uma evolução dos apontamentos para o novo texto que estou produzindo, o Narrativa Mitológica de Curitiba, relato de minha última visita aos amigos daquela simpática cidade. É um texto bem diferente de todos os que eu já fiz, pela mescla de realidade e fantasia que surge a cada momento. De qualquer maneira, tudo o que estará ali é verdade -já que a linha tênue entre verdade e ilusão que nos quiseram fazer acreditar não existe. Tudo é discurso, construção, vontade; lembro das últimas cenas de "A Montanha Sagrada" de Jodorowsky, da câmera se afastando e mostrando a equipe de filmagem, os atores e todo o resto ao mesmo tempo. Um filme é uma mentira, um conjunto de signos que se pretende real quando, na verdade, é apenas uma história. Mesmo a nossa vida não é, ao fim e ao cabo, aquilo que queremos lembrar? Tudo são escolhas. Eu, em geral, só faço as erradas. Deve ser por isso que eu não passo um dia sequer sem rir de tudo o que me acontece.

Narrativa Mitológica de Curitiba vai pro ar na quinta-feira. Isso pode ser mentira, aviso. Até lá, ouçam Crystal Castles. É a essência da AIDS em forma de música. Funciona muito bem, principalmente quando você está há 30 horas sem dormir nenhum segundo e luzes estranhas piscam no seu campo de visão. Eu teria medo dessas luzes no passado, sintomas de uma nova crise epiléptica. Mas a realidade é aquilo no que eu acredito -e eu não boto fé que vou cair no chão e começar a babar e tremer. Pelo menos, não hoje, não agora..

4.02.2010

Histórias e características dos zines


Publicamos no blog da UGRA o primeiro trecho da tradução de um texto de Fred Wright sobre a história e as características dos zines.

O texto terá sua continuação na próxima quinta-feira, onde Fred escava o tempo em busca das raízes mais remotas dessas publicações singulares, motivadas pelo desejo de compartilhar e discutir idéias, muito antes de blogs, Twitter e afins.

Vejam http://ugrapress.wordpress.com/2010/04/01/historia-dos-zines/ . E ajude-me a divulgar isso. Prometo guloseimas para os gordos, drogas para os junkies e carinhos nos solitários.

3.26.2010

Cioran por Boué


Atualizamos o blog da UGRA com uma entrevista com Simone Boué, a mulher de Cioran.

Talvez a única pessoa no mundo que compartilhou da intimidade com o velho romeno, a leitura da entrevista, publicada na revista El Malpensante, de Bogotá, revela alguns aspectos cotidianos do pensador.

Vejam http://ugrapress.wordpress.com/2010/03/25/cioran-por-boue/

Algum dia volto a escrever aqui. Nunca escrevi muito e envergonha-me escrever qualquer coisa após contínuas noites lendo Gogol e Cioran. Na verdade, é preguiça, esgotamento e uma autocrítica que não perdoa vírgulas mal colocadas. Ao inferno tudo que respira.

3.18.2010

Kashiwa Daisuke

Há algumas experiências que são especiais e que nos valem lembranças inúmeras. Também há músicas assim: chegam até nós com seus acordes banais e então nos vemos hipnotizados. Retiram-nos do ambiente prosaico e vulgar do cotidiano, colocam a vida em um novo patamar de Beleza em sua duração de minutos. Mesmo quando as ouvimos de novo, a fruição estética da primeira audição nunca se repete. Ainda nos emocionamos, mas o impacto não é -e jamais será- o mesmo.

Falei dos minutos que duram as canções. Na verdade, as grandes canções são apreciadas fora da escala de tempo ao qual estamos submetidos. Um professor meu disse certa vez que um relógio no pulso só pode ser visto como uma ofensa; é uma espécie de grilhão, mas discreto; aprisiona em larga escala e, pior, pagamos por ele, ou o ganhamos com imensos sorrisos de satisfação. É como se, ao abrir as portas da senzala, fossemos entrando nelas aos saltos.

É por isso que, quando conhecemos certas músicas, elas nos inspiram uma sensação de profundo deleite; respiramos com a leveza que apenas os libertos experimentam; o tempo de duração da melodia nos escapa, e é como se mergulhássemos em um ambiente onde nenhum ponteiro ou ampulheta faz sentido. O ritmo eterno de auroras e crepúsculos nada nos diz. Apenas ouvimos, e de cada nota escorre um saboroso líquido que embebeda a alma.

Kashiwa Daisuke é uma das bandas que conseguem criar canções assim. Eu fui apresentado a essa preciosidade por um amigo. A música abaixo é a primeira do Kashiwa Daisuke que eu ouvi. Na verdade, trata-se de um trecho, pois a versão completa tem mais de 30 minutos. Nada mais posso dizer a respeito: apenas ouça. Certas coisas são ridículas quanto comentadas e estou me sentindo ridículo por ter escrito tantas infelicidades para tentar explicar a música mais maravilhosa que já pude ouvir em toda a minha vida.

3.12.2010

Blog da UGRA mostra a última entrevista com vocalista do WORSHIP


Na verdade, possivelmente a última entrevista, que ficou por anos perdida nas anotações do Drógäss. A única certeza é que, pouco depois dela ter sido finalizada, o Fukked Up Mad Max se matou.

Hoje subimos a entrevista no blog da UGRA, com um link para baixar a demo do BEER VOMIT, um projeto noisecore dele. Você, amante da essência do underground anos 90, rockeiro doidão ou simplesmente um sujeito interessado em uma entrevista sobre (anti)música, misantropia e afins, vai gostar.

Eis o link http://ugrapress.wordpress.com/2010/03/11/beer_vomit/

3.10.2010

Trecho de um diário de Lúcio Cardoso


Desde a leitura que fiz de Crônica da casa assassinada -talvez o livro mais injustiçado da literatura brasileira- o nome de Lúcio Cardoso figura na minha lista dos escritores que conseguiram fazer de seus textos uma espécie de organismo vivo, um texto que vibra e pulsa em cada novo período.

Relendo anotações velhas antes de ir para a cama, encontrei esse trecho que transcrevi de seu diário, obra lançada em 1970 pela José Olympio. Os diários são sempre fabulosos: isentos dos caprichos estilísticos que muitas vezes afogam as explosões do sentimento, suavemente transmitem uma autenticidade que o romancista se esforça para obter. As personae são abolidas, e o escritor não tem motivos para esconder os recalques, as taras e as imprecisões que os editores observariam com severidade. Fluem os ódios e os abismos, a intimidade é devassada, o desejo voyerista do leitor farta-se aos montes. E no trecho que compartilho com vocês, vemos um Lúcio algo profético, que vê na Tijuca dos anos 1960 um pesadelo hedonista que estava apenas começando, sintomas da Kali-yuga que hoje vivenciamos em estado hipertrofiado:

"Vou com Fregolente à Barra da Tijuca, onde durante algum tempo, infeliz e sem repouso, viajo através de uma multidão feia, triste e sem nenhuma dúvida profundamente desgraçada. Só a desgraça alimenta uma tal sede de divertimento. Aliás, é sempre este o aspecto de um aglomerado que se reúne à procura de esquecimento: os limites humanos surgem com avassaladora nitidez e o rebanho festivo adquire um aspecto confrangedor, de coisa abandonada e amaldiçoada. Não é precisamente nesses minutos, nesses e não em outros, que ousamos desejar para toda essa gente uma catástrofe comum, uma guerra, uma inundação ou até mesmo um ataque coletivo de insânia ou de crueldade - qualquer coisa enfim que agite essas carnes moles que se estendem ao sol, domesticadas pela preguiça, pelo álcool e por uma sensualidade grosseira e sem profundidade?

Talvez o amanhã pertença a gente dessa espécie - talvez sejam eles os coordenadores do mundo em que começamos a viver. Mas são tão melancólicos e tão estritamente confinados à sua miséria, que possivelmente estão muito longe de perceber o que se passa. O Deus antigo, o Deus do terror e das hecatombes, bem poderia agora esparzir esse sangue bruto ao longo das areias mornas - bem poderia brandir um raio ou soprar uma rajada morna de demência - qualquer coisa finalmente que fizesse sangrar essas almas cativas, tornando-as acordadas e viris. Há uma determinada sonolência da alma, que só o castigo e o medo conseguem afastar. Os ferros do tempo dos escravos ou as tenazes ardentes da Inquisição, tudo serviria para fazer vir à tona das faces uma sombra de sentimento ou de espírito. Mas é inútil sonhar, eles apenas vivem uma agonia sem sentido, enquanto aconchegam ao sol brando, sem amor e sem piedade, as velhas carnes mal-tratadas.

(Inútil conter, é muito forte o sopro de impiedade que me atravessa. Ó carnes abastadas e domingueiras! Custa a crer que tenha havido um mistério da Encarnação, e que um Deus autêntico tenha descido a este mundo para redimir tal rebotalho... Sim, as revoluções, que são exteriores, podem lidar com isto - mas a religião, que fará desta vontade assassinada?) "

Em tempo: Lúcio Cardoso era um católico. Por católico não entenda a "religião" de Padres Marcelos ou outros alucinados quaisquer. Muito menos busque pontos de contato com a degeneração evangélica, que nada mais que é que um culto do desespero e da moral de rebanho em uma configuração ideal. O catolicismo de Lúcio se explica por um forte sentimento de antimodernidade, por uma rejeição do materialismo filosófico e por uma atitude trágica perante a vida. Sobre esse assunto, qualquer coisa que eu diga seria desnecessária, já que nesse artigo tudo está dito com muito mais propriedade: http://www.filologia.org.br/soletras/8/02.htm

3.09.2010

Histórias de Amantes VIII


VIII

Gostavam de passar as tardes juntos, caminhando pelas longas praias da cidade, usufruindo da companhia um do outro, da agradável sensação de ser alvo dos mimos e cuidados de alguém. E de fato tudo entre eles era sincero e bonito, mesmo quando visto de longe; devido a isso, uma enorme quantidade de corações feridos os miravam tocados pela inveja, ou então com um suspiro, que nada mais é do que uma inveja impotente e ressentida.

As areias das praias, acostumadas que estavam com os passos daqueles amantes, em uma certa tarde sentiram a falta deles. Na tarde seguinte também. E igualmente na outra. Foi assim por incontáveis dias, até que a mulher apareceu sozinha, sem aquele homem segurando sua mão nos passeios sem fim ao longo das areias das praias. Desnecessário dizer que seu caminhar era mais lento, que sua cabeça pesava em uma atitude de subserviência ao Irremediável - e dizer isso é o suficiente, já suspeitamos do que ocorreu, já nos entristecemos por aquela mulher deixada sozinha para caminhar na praia, relembrando as conversas com aquele homem que agora era uma coisa, um amontoado de células que se desfazem, um arremedo da virilidade que tantos prazeres lhe tinha proporcionado.

Passo após passo ela todavia continua andando, e os olhares da inveja que outrora acompanhavam seu caminhar agora não existem mais. Aqueles passeios vespertinos, celebração de um amor calmo e inabalável, são agora nada mais do lembranças; em seu luto, tentou manter acesas a todas elas, como uma ode ao seu querido que se foi para o Nada; apesar disso, teve que reunir forças sobre-humanas para voltar à praia, para mais uma vez percorrer, agora solitária, aquele trajeto que por anos pertenceu inteiramente a eles. E naquele cortejo fúnebre de uma mulher só os ventos litorâneos pareciam cantar uma nênia antiqüíssima, e ela chorava a cada novo passo com toda a força de seu ser despedaçado. Com cicatrizes profundas, daquelas que rasgam o espírito, conhecia uma verdade que não pode ser ensinada, conhecia um mistério que só se penetra pela experiência: que dor nenhuma, absolutamente dor nenhuma nesse mundo é comparável àquela de ser testemunha da morte de alguém que se ama.

3.06.2010

Novos mitos


Joseph Campbell, em O Poder do Mito, resume a história do Ocidente através de uma fórmula simples: os edifícios mais altos de uma cidade indicam qual é o seu centro dominante -e desse centro emanam os seus valores e mitos.

Na Idade Média, a religião era o grande prisma, o grande ponto de contato entre os indivíduos. A Catedral de Chartres, em França, é o exemplo dado por Campbell. Nos séculos dos príncipes, com o advento das Luzes, os palácios substituíram as catedrais em grandeza e magnitude. O poder político como soberano, consagrado pela fórmula "l´État c´est moi". Na contemporaneidade, são os edifícios que abrigam as grandes corporações que se arremessam como titãs na direção dos céus. Igrejas e prédios governamentais são anões comparados a eles. O paradigma dessa nova configuração arquitetônica de poder: as Torres Gêmeas.

Da espiritualidade para o Nada econômico, temos um percurso imenso e cujos detalhes não me permito aqui listar. Há livros inúmeros que tratam disso. Inquieta-me ainda -e esse post é uma inquietação, uma pergunta feita com sofrimento- as palavras de Campbell, que diz que os mitos são como sonhos: não é possível prever quais serão os próximos. Que assim seja: abraço essa impossibilidade como uma verdade revelada. Todavia, insisto em premonições sem brilho algum, em possíveis configurações de como, enfim, serão esses mitos que ainda não existem, ou talvez existam mas não cristalizados: as novas mitologias serão cunhadas com heróis carregando cifrões em suas frontes preocupadíssimas com as variações na Bolsa. Deselegantes, vestirão seus ternos feitos em série e carregarão não mais espadas e pesados escudos, mas celulares e notebooks cheios de arquivos inúteis. Sua jornada espiritual será amparada por receitas de tarja preta, seus ensinamentos compartimentados em PDFs de MBA, sua iluminação um nada feito por frases polidas colhidas de livros de auto-ajuda. Serão heróis estúpidos, orgulhosamente estúpidos, mas julgarão a si mesmos como homens a frente de seu tempo. Experientes em produzir ilusões, serão ainda melhores em consumi-las: praticamente todo o tempo de suas vidas será dedicado a apreciar prazeres irreais. Inconscientes de que são parte do mundo, passarão os dias em um hedonismo insaciável. A vida será vista como um passeio por um parque de diversões, as noites só terão sentido se forem dedicadas ao riso e risíveis serão aqueles que se preocupam com qualquer coisa que esteja além do baixo ventre. Anatematizados pelos heróis modernos todos aqueles que se esgueiram na noite da Dúvida e do Erro, bem aventurados os que se apegam a qualquer Certeza, a qualquer Convicção -pois o apegar-se é o primeiro traço desse tipo novo de herói, e principalmente se esse apego tiver como objeto coisas sólidas e embrutecidas.