12.28.2013

Comentários sobre o livro "Os filhos místicos do Sol"



O livro "Os filhos místicos do Sol" foi lançado em 1971 em Paris, pela Editións Robert Laffont, e a edição brasileira chegou às livrarias em 1976 através da Difel Difusão Editorial, como um dos livros da coleção "Enigmas de todos os tempos". Eu não sei exatamente quantos livros compõem essa coleção, mas entre eles conheço outros três: "O livro da Tradição", "Hitler e as religiões da suástica" e "Hitler e a tradição cátara". Todos esses livros foram escritos pela dupla Michel e Jean Angebert, pseudônimos dos franceses Michel Bertrand e Jean-Victor Angelini, respectivamente. É bem fácil encontrar "Os filhos místicos do Sol" e "O livro da Tradição" no Estante Virtual; já os outros dois são mais raros, sendo que o último é praticamente impossível de ser encontrado e, com uma boa dose de sorte, não sairá por menos de R$ 200,00.

Ante de irmos ao livro, um parênteses para que você, (talvez) um futuro leitor de "Os filhos místicos do Sol", não se decepcione: a tradução é um lixo. E não, eu não li o original francês e cotejei os textos, assinalando as imperfeições com uma paciência algo filológica - você as percebe claramente pela falta de fluência com que o texto se desenrola em determinadas partes. Há trechos onde as orações simplesmente não se encaixam, e é necessário ler e reler para que o sentido então floresça. Nas 341 páginas da obra, curiosamente, essa deficiência (que presumo ser da tradução, posto que já tive a oportunidade de debater erros tradutológicos em outra obra, de outra editora, e essa falta de "fluência" se repetia de maneira muito similar) apareceu mais monstruosamente presente no epílogo. Seria um indício de que a "tradutora", cansada, ficou ainda mais displicente, produzindo um texto com menos cuidados, uma tradução quase literal, palavra a palavra, prenunciando em quase três décadas os equívocos do Google Translator? [uma outra hipótese: a dupla francesa realmente escreve mal. Mas não acho que é o caso. Franceses podem ser uns porcalhões, mas escrevem bem, com elegância, vide o efeito que a vivência parisiense produziu no estilo de autores tão díspares como Cioran e Cortázar].

Deixando de lado essas questões sobre a qualidade duvidosa da tradução, a tese do livro pode assim ser resumida: a influência decisiva (e por vezes terrível) que o Sol tem sob a vida dos seres humanos. Partindo de uma premissa, por assim dizer, astrológica, ou se preferirem o dito hermético "tanto em cima como embaixo" - isto é, que a movimentação e a posição dos astros no cosmos influencia indubitavelmente o destino dos homens em particular e da humanidade como um todo - os autores assinalam que nessa rede infindável de forças cósmicas, o Sol tem a primazia, sendo o centro de orientação das estrelas e planetas que compõe o Zodíaco. Premissa inegável, de fato, desde que você obviamente não entenda por astrologia essas vulgaridades baratas de "adivinhações" presente nos horóscopos diários de jornais e sites "esotéricos", que nada mais do que uma versão bastante deformada e "profana" da autêntica Astrologia, ciência antiquíssima (talvez a mais antiga a permanecer entre nós, mesmo que como um eco), e que a ânsia "objetiva" dos cientistas modernos relegaram a um patamar inferior de "crença", colocando a Astronomia como verdadeiramente "científica".

Na sua misteriosa alquimia, o Sol no plano astral condensa as forças inorgânicas imensas, as energias contidas no cosmos, e essa vitalidade prodigiosa, que parece constantemente renovada, participa verdadeiramente do poder divino e, por trás do Sol visível, deslumbrante luminária, permanece como um braseiro imenso, infinitamente mais vasto e mais terrível, o Sol invisível, o Sol negro dos magos e dos alquimistas, assim chamado devido ao seu terrível brilho, ao nossos olhos emanação do Logos Divino... Outrossim, não é dado aos humanos, pelo menos nessa vida, contemplar esse fogo espiritual, de tal forma brilhante que faria arder a nossa alma pela eternidade. Em compensação os textos sagrados da humanidade, tal como o Livro dos Mortos egípcio ou o Bardo Thödol tibetano, presumem essa luz que poderemos contemplar do outro lado do espelho, isto é, depois de nossa morte terrestre. É o Sol de Osíris dos sacerdotes de Mênfis, a "luz azul" do plano budístico, o "Sol dos mortos", o que, sozinho, guia as almas para o Espírito e transcende o mistério do Conhecimento Supremo. O segredo do logos, o conhecimento do Sol negro, caminho da vida e da morte, tal era a chave dos grandes mistérios conhecidos em outros tempos dos colégios de iniciação, dos pontífices atlantes, dos sacerdotes egípcios e dos grandes druidas antes da extinção da luz da Tradição soprada por um "vento de loucura" nascido em alguma parte da Judéia. (página 4)

Mas o livro não é simplesmente uma interpretação astrológica de eventos e personalidades históricas. A referência teórica é mesmo anterior à Astrologia, considerada não em si, mas tão somente como uma herdeira de uma sabedoria muitíssimo mais antiga, que extrapola os limites da história oficial, do que hoje é tomado como "verdade histórica"; uma sabedoria que permanece codificada nos ritos de mistério da Antigüidade, nos tratados alquímicos da Idade Média, nas construções templárias repletas de simbolismos, e que possuem, segundo os autores, todos eles um mesmo tronco comum, perdido na névoa dos templos - a mítica Atlântida.

O que acabou de ser dito - Atlântida - surge quase como uma anátema sobre mim para alguns. Lida com espanto, a palavra remete aos nefastos programas da History Channel (que contribuem, através do recurso do ridículo, em colocar véus ainda mais pesados sobre determinadas questões, com o estratégico objetivo de obnubilar o entendimento geral, mas isso já é matéria para outro texto). Remete a fantasias sem nexo e a uma retórica "New Age" que é apontada com cinismo, cinismo "irreverente" repetido bilhões de vezes em memes que são o resumo e objeto cultural mais do que representativo da bobagem pós-moderna. Sobre isso, sobre esses possíveis olhares de reprovação ao se invocar Atlântida nesse texto, nada mais a dizer do que o que segue:

(...) enquanto do ponto de vista da "ciência" se dá valor ao mito pelo que ele poderá fornecer de história, dá-se pelo contrário valor à própria história pelo que ela nos pode fornecer de mito, ou pelos mitos que se insinuam em suas malhas, como integração do "sentido" da própria história (Revolta contra o mundo moderno, edições Dom Quixote, 1989, página 16)

Ou seja: a suposta "cientificidade" do History Channel e outros programas/publicações do tipo está bastante distante do ponto de vista sustentado pelos autores, que se aproxima muito do ponto de vista evoliano. Eles buscarão, ao analisar a trajetória de oito personalidades históricas - Akhenaton, Zoroastro, Alexandre o Grande, Juliano o Apóstata, Frederico de Hohenstaufen, Napoleão, Hitler e Mao Tsé-Tung - a influência que o mito do Sol desempenhou na biografia de cada um desses homens, homens que em diferentes épocas e de diversos modos promoveram gigantescas mudanças na história humana.

O capítulo dedicado a Akhenaton foi para mim o mais interessante. Esse faraó misterioso, que revolucionou o Egito em 1.300 a.C. implantando a primeira religião monoteísta da história - o culto ao Sol, a Aton - enfrentou o poderoso clero do deus Amon, tornou ilegal o culto aos antigos deuses e proclamou a si e a sua esposa Nefertiti como divinos e únicos representantes do Sol na terra. A nova religião tinha como principal sacerdote, justamente, o faraó: cristalização perfeita do papel imperial e religioso em concordância, próxima à configuração tradicional que estabelece que os poderes espiritual e temporal devem ser um único poder. E o mais interessante: Aton, o Sol, não deveria ser personificado em uma estátua, bem ao gosto dos egípcios. A única representação permitida de Aton era o disco solar, feito em ouro, que posicionado no centro-alto do templo, recebia os primeiros raios do Sol, resplandecendo em um milagre de luminosidade - a adoração feita desse modo assemelha-se aos primórdios da religião romana, onde os deuses eram tidos como forças, como numen, presentes no universo e envolvendo a tudo e a todos os momentos da vida.

Outro capítulo que merece destaque é o último (na verdade, um epílogo) dedicado ao "Sol Vermelho" de Mao Tsé-Tung. Tendo em mente o leitor que o livro foi escrito em 1971 e, portanto, as informações sobre a China eram infinitamente escassas, a pesquisa realizada pelos autores por si só já merece aplausos; mas mais do que isso, trouxe para mim aspectos sobre a Revolução Cultural que eu desconhecia completamente, como por exemplo a Sociedade Hung, uma milenar sociedade secreta, espécie de Maçonaria chinesa, para fazermos uma comparação extremamente grosseira. Segundo os autores, os quadros do alto comando do Partido Comunista são todos membros da sociedade Hung. De fato, parece crível: a China pode ter hoje uma abertura muito maior ao mundo ocidental, e recentemente, em seu plano quinqüenal, acenou para uma liberalização ainda mais acentuada. Mas a hierarquia do Partido e o controle absoluto da sociedade chinesa permaneceram intactos, o que demonstra a existência de um "núcleo duro" e uma centralização total do poder. Há sempre uma aura de mistério, de algo não dito, sobre a China e suas intenções no cenário geopolítico mundial. Citamos um trecho do livro, que na verdade é citação de um outro, "L´agonie de la Vielle", feita pelos Angebert:

A situação... permite prever um terremoto capaz de engolir nossa Atlântida... Três catolicismos desmoronam: o catolicismo de Roma, o de Washington e o de Moscou - e sobre suas ruínas medra silenciosamente o joio do nacionalismo (...) Suprema irrisão: se um sentimento internacional nascer, encontrará amanhã impulso e fundamento na ameaça que representarão um bilhão de chineses nacionalistas, xenófobos e armados até os dentes. Ele será pois branco e racista. Nesse dia, sobre o imenso campo das ruínas da moral cristã (a moral socialista foi apenas uma tradução moderna da anterior), uma ordem nazificante estenderá a vasta envergadura de suas asas. Do Valhalla, Hitler poderá fazer esta reflexão: "Enganei-me somente da data. Fui muito apressado." Sim, o presidente Mao, "Sol vermelho, irradiante, glória do Universo e flor maravilhosa da criação", pensa na reação que arrisca a desatar, ou bem, está de tal forma confiante na inelutável decadência da sociedade ocidental? Sabe-se que alemães e japoneses pagaram muito caro essa tendência de subestimar o adversário... Passar-se-á o mesmo amanhã?

A dimensão apocalíptica do aviso nos parece ridícula. Vemos a China apenas pelos olhos da mídia como um país "comunista" que se rendeu ao capitalismo. Mas será apenas isso mesmo? O enorme apetite por commodities faz a China comprar minérios, grãos e combustível de todas as partes do mundo. No recente leilão do pré-sal, um dos consórcios é chinês - trocaremos a tecnologia deles com o petróleo pátrio. E toda essa energia levada ao solo chinês, que fins terá além da óbvia manutenção da enorme população chinesa? A sociedade Hung possivelmente ainda permanece com influência nas decisões estratégicas do país, e talvez ainda alimente o sonho de dominação do "Sol vermelho" de Mao Tsé-Tung. É necessário, portanto, ver além dos véus e entender os sinais que indicam sentidos além dos óbvios.

Enfim, "Os filhos místicos do Sol" apresenta uma releitura de biografias históricas sob uma perspectiva nada oficial. Para os que apreciam temas esotéricos e interessam-se pela Tradição, é uma leitura complementar que possibilita ver o jogo de forças aeônicas atuando na História e exercício interessante para descobrir, nas entrelinhas, as formas tradicionais de vida em choque com suas antíteses.

10.30.2013

Germinal


essa notícia e, na hora, lembrei-me desse trecho do Germinal:

"Era a visão vermelha que arrastaria a todos, fatalmente, numa dessas noites sangrentas desse fim de século. Sim, uma noite, o povo em torrentes, desenfreado, correria assim pelos caminhos, gotejando o sangue burguês, exibindo cabeças, semeando o ouro dos cofres arrombados. As mulheres gritariam, os homens abririam suas queixadas de lobos, prontos para morderem. Sim, seriam os mesmos farrapos, o mesmo matraquear de tamancos grosseiros, a mesma turba assustadora, suja, de hálito fétido, varrendo o mundo caduco com a sua irresistível avalancha de bárbaros. Arderiam incêndios, nas cidades não ficaria pedra sobre pedra, regredir-se-ia à vida selvagem das florestas após o grande cio, o grande rega-bofe, e, que os pobres, numa só noite, extenuariam as mulheres e esvaziariam as adegas dos ricos. Não sobraria nada, as fortunas e os títulos das situações adquiridas desapareceriam, até o dia em que talvez desabrochasse uma nova sociedade. Sim, eram essas coisas que estavam passando pela estrada, como uma força da natureza, e vinha delas o vento terrível que lhes açoitava os rostos."

Zola, esperançoso, é também cauteloso: diz que "talvez" desabrocharia uma nova sociedade. No incêndio que assola a Zona Norte de São Paulo, parece-me que dos destroços pouca coisa sobrará, que a ânsia de destruição minará todas as possibilidades de renascimento. 

O niilismo em sua mais crua cristalização.  O vento terrível da revolta popular. Os sintomas claros - e cada vez mais evidentes - do fim de um ciclo. Sigo como um observador curioso, procurando ler nas entrelinhas dos noticiários as mensagens ocultas e tentando compor um cenário mais abrangente de tudo.  

10.11.2013

Algumas razões de não escrever mais aqui


Foi com algum tipo de surpresa que ontem, ao visitar o blog, constatei que em 2013 realizei simplórias seis postagens. Algumas poucas pessoas que acompanham as postagens aqui devem ter considerado a ausência como a morte do blog. Entretanto, eu nunca o considerei morto, talvez por uma espécie de mórbida afeição por coisas moribundas. Mas para prestar uma espécie de satisfação a todas as almas que aqui vinham, deixo algumas palavras de esclarecimento.

Se, nos anos anteriores, eu já tinha meu cotidiano marcado por um ritmo de trabalho frenético, 2013 tratou de acelerar ainda mais esse aspecto de minha vida. Nunca trabalhei tanto como nesse ano. Somado a isso, iniciei uma pós-graduação que consumia o já escasso tempo livre, como forma de aprimorar minhas qualificações profissionais. Em resumo: não contente com a quantidade de trabalho que eu tinha, tratei de aumentar o ritmo e criar condições para que novas responsabilidades sejam adquiridas no futuro. 

A esses dois fatores juntamos a preguiça. Na verdade, não é preguiça, mas um esgotamento físico e mental que me assola quando cruzo a porta de casa. É o preço a ser pago para tornar-se "eficiente". Busco conforto, então, em um prato de comida, na música (ouço agora os acordes de Dylan Carlson, esse oásis de calmaria em dias tão sempre repletos de caos), na leitura ou simplesmente na técnica que mais gosto: deitar no sofá, acender um cigarro e como que submergir nele, deixando que as almofadas me abracem, até que uma sonolência me capture - e então levanto, vou para o quarto e durmo, para começar no dia seguinte tudo de novo.

A pedra rola até o topo, cai, e você vai lá empurrando de novo para cima.

Gosto de imaginar que a vida é assim como todo mundo: envelhecemos e nos tornamos todos iguais. É extremamente confortável imaginar que se trata de um fatalismo, que mais cedo ou mais tarde até o mais irascível fã do Crass vai cogitar em fazer um seguro de vida. Mas isso é só uma crença, e como todas as crenças é duvidosa, em geral existe apenas como um frágil argumento para tornar a vida mais tolerável. Toda crença tem um pouco desse poder de permitir ao crente uma estratégia de fuga quando a situação se torna crítica. A minha é ver a minha vida se tornar medíocre e considerar que a de todo mundo é igual. 

O caminho para a mediocridade tem muita relação com a passagem do tempo e o acúmulo de compromissos que isso traz. Com vinte anos, eu tinha um conjunto de preocupações mais ou menos reduzido, mas certamente sem comparação com os que tenho hoje. Compromissos que envolvem dinheiro principalmente: esses são os mais nocivos. É através dessas dívidas que se multiplicam no tempo que somos arrastados para a vala comum dos vencidos. O dândi se transforma no proletário quando os juros do cheque especial batem à porta. A mediocridade é a transformação das relações humanas em um tipo onde o peso da matéria se acentua e passa de coadjuvante a protagonista - quanto mais envolvida nos véus da influência materialista, mais medíocre uma vida se torna. E isso não significa que apenas existências plenas de recursos materiais sejam medíocres. Não estou fazendo uma elogio do voto de pobreza, tão ao gosto desses tempos contaminados por uma moral de escravo. A vida medíocre se instala assim que preocupações materiais se tornem as principais, ocupando a maior parte do tempo/energia que temos.

Então, sempre quando chego em casa, olho com desdém um bar que fica em uma esquina próxima. Sempre vejo lá, sentado na mesma mesa, um homem gordo, que fuma e bebe às vezes sozinho, às vezes acompanhado. Tento imaginar que tipo de vida ele tem e só consigo vê-lo suado, rindo aquela sua gargalhada imbecil, rodeado de outros igualmente imbecis. Gosto de me imaginar uma pessoa incrivelmente mais interessante do que aquele gordo - afinal eu chego em casa e leio, enquanto ele fica lá se matando e engordando como um porco; eu escuto música decente, enquanto aquele infeliz tem uma experiência musical baseada em ritmos de FM e sons de botequim; mas principalmente eu chego em casa tarde, pois estava trabalhando, enquanto que ele fica todo dia em um bar jogando conversa fora. Em uma palavra: sinto-me superior àquele homem gordo mas, no momento seguinte, penso que tudo isso é simplesmente inveja, recalque, que na verdade tenho muito em comum com aquele homem que não conheço e já odeio, e então calo meus pensamento, subo pelo elevador, entro em casa, deito no sofá e morro.

Para começar no dia seguinte tudo de novo.

Entre uns momentos de descanso e outro, tenho rabiscado textos sem fim em um caderno. Eles fazem parte de um fanzine, que compilará uma série de pequenas histórias, cujo tema é o encontro amoroso. Eu já publiquei aqui no blog algumas dessas histórias, mas acho que quando se trata de amor, a tela do notebook é demasiado pobre. Amor é algo que se faz na base do tato, do encontro entre duas (ou mais) epidermes, é algo que é inseparável do contato. Por isso a insistência de levar para o impresso essas pequenas histórias, que estão sendo rabuscadas, geralmente, aos finais de semana. Dar qualquer prazo de quando isso estará pronto seria uma mentira a mais entre tantas que já contei, então digo apenas que, algum dia, se os deuses assim quiserem, essa publicação ficará pronta.

Isso tudo para dizer que cada vez menos frequentarei o Dissolve Coagula. Pelo menos até o final do ano. Não sei se é pelo fato de eu ter feito da Internet o meu ganha-pão, mas no tempo livre que sobra por vezes tenho um ciclópico cansaço de fazer qualquer coisa relacionada com a rede. Nos meses mais recentes, eu até cheguei a gastar um tempo considerável com redes sociais, me metendo inclusive em uma série de discussões. Mas foi tamanha a energia empreendida nessas "interações" que até isso me cansou e, além disso, sou péssimo em argumentar e defender meu ponto de vista, ainda mais em um ambiente onde, claramente, ninguém quer discutir nada, mas tão somente fincar pé em uma posição de modo bastante irrefletido e dogmático, ou então fazer piada com tudo e todos - e esse clima "irreverente" me cansou a um ponto que bloqueei tantas pessoas que preferi abandonar o uso do meu perfil, por não fazer mais sentido. No final das contas, a lição aprendida é que discussão na Internet é igual a Para-Olimpíadas: mesmo que a vitória seja sua, no final você sempre será um retardado. 

Escrever esse post enquanto os acordes do senhor Carlson ecoam pela sala foi uma exceção prazerosa, mas para esse sabor permaneça é necessário saber dosá-lo adequadamente. Quem sabe no final do ano escrevo de novo aqui. Agora, volto para o cotidiano estupidificante que me faz pensar o que estou fazendo de errado e se algum dia vou acordar com a sensação de que é tarde demais para mudar.

6.02.2013

Resenha de "O cemitério de Praga", de Umberto Eco


Comecei a ler Eco através de seus textos sobre semiótica e tradução (especialmente o "Quase a mesma coisa", livro saborosíssimo sobre a arte da traduzir, mas que certamente agrada não somente aos profissionais de tradução). Só depois é que fui ler "O nome da rosa" e "O pêndulo de Foucault" - esse último, aliás, é até agora o meu preferido, pela sua estrutura narrativa completamente sinuosa, os cruzamentos de dimensões temporais, os testemunhos escritos que constroem a ação narrativa, as teorias da conspiração que surgem mesclando política, esoterismo, sociedades secretas... E nesse romance mais recente, O cemitério de Praga, todos esses elementos estruturais comparecem mais uma vez, como marca indelével do estilo do autor, mas com sabores e cores novos, que me fizeram questionar em qual ramificação romanesca o livro se encaixaria: é um romance histórico? Ou um adepto do realismo fantástico? Sem conseguir muitas respostas, compartilho a seguir algumas das minhas impressões sobre a leitura.

"O cemitério de Praga" é um livro de 478 páginas repartido em 27 capítulos que contempla o período de, aparentemente, pouco mais de 60 anos (de mais ou menos 1830 até 1898) da vida do protagonista Simone Simonini. Nesse longo percurso, o leitor encontra no primeiro capítulo a voz de um oculto Narrador que descreve o ambiente: uma residência pequena, nos redutos mais pobres de Paris, onde há um cômodo repleto de móveis e objetos de decoração antigos, e no outro, entre perucas e roupas de manequim, uma espécie de diário, sobre o qual ele diz o seguinte:


“Tampouco espere o Leitor que o Narrador lhe revele que ele se surpreenderia ao reconhecer no personagem alguém já nomeado precedentemente, porque (dado que essa narrativa começa justamente agora) ninguém foi nomeado antes, e o próprio Narrador ainda ignora quem é o misterioso redator, propondo-se a sabê-lo (junto com o Leitor) enquanto ambos bisbilhotam intrusivos e acompanham os sinais que a pena daquele homem está traçando sobre aqueles papéis.”

Então desde o começo sabemos: a história que leremos está, na verdade, presente em uma espécie de diário, que o Narrador encontrou (não sabemos em que circunstâncias) e que compartilhará conosco, seu Leitor. Na verdade, serão dois diários distintos: o de Simone Simonini e do abade Dalla Piccola. Temos, então, três registros escritos que se alternam durante o romance: Narrador, Simonini, Piccola. Não sei se na versão italiana a diagramação resolveu isso como na edição brasileira, onde cada um desses registros aparece com uma fonte diferente – talvez como forma de guiar os olhos do leitor pelo labirinto de datas, lugares e personagens secundários que surgirão. 


Por ser um diário algo tardio, o romance se estrutura em duas dimensões temporais diferentes: uma é a que está presente nas datas do diário, iniciado em 24 de março de 1897 e que termina em 20 de dezembro de 1898 (praticamente um ano e oito meses); a outra é dimensão de tempo da história contada nos diários, que reúne acontecimentos de 1830 até a data final de 1898. Essas duas dimensões temporais encontram um ponto de suspensão nas intervenções do Narrador: atuando como um compilador dos fatos, um leitor em primeira mão dos diários, ele também comenta trechos de ambos, resumindo passagens e fazendo citações; compartilha, assim, com o leitor (que somos nós), as mesmas perguntas que temos ao longo da leitura: afinal, quem é Simonini? Quem é Dalla Piccola? Por que ambos estão sem memória? São, como suspeitam, a mesma pessoa, ou melhor, duas pessoas diferentes que compartilham o mesmo corpo? 

Além da dimensão temporal e da confusão em torno da identidade dos protagonistas, outro ponto a salientar são os personagens: todos, com exceção de Simone Simonini, são figuras que realmente existiram, não foram inventados pelo autor. Os jornais e revistas citados (e são dezenas deles) também o são. Até mesmo os acontecimentos que se desenrolam têm como pano de fundo fatos históricos: Simonini, após a morte do avô, junta-se ao exército de Garibaldi, nas suas campanhas na Itália, com o intuito pouco nobre de frustrar a insurreição; participa, como um agente secreto contra-revolucionário, da Comuna de Paris; envolve-se no episódio do caso Dreyfus, sendo peça fundamental no complô para incriminar o oficial judeu. Uma situação bem interessante e quase anedótica ocorre em um restaurante parisiense, onde Simonini encontra um tal doutor Froïde, que lhe fala sobre suas pesquisas sobre hipnose e o uso da cocaína como tônico fortificante... Ele desconfia das palavras desse desconhecido Froïde (sim, essa é grafia que aparece no diário de Simonini) principalmente porque ele é, certamente, um judeu – e o ódio contra os judeus, assim como uma intensa glutonia e misoginia, é o que mais caracteriza o inescrupuloso Simonini. 

Aqui entramos um pouco mais no tema do livro em si, que é a gênese dos Protocolos dos Sábios de Sião, o célebre texto anti-semita divulgado pela Okhrana, a polícia secreta russa, em 1897, que fala sobre um plano de dominação mundial arquitetado pelos judeus. Esse livro, de origem bastante controversa, é um daqueles registros que extrapolam suas limitações textuais e promovem verdadeiros abalos sísmicos na sociedade. É bastante difícil imaginar um Hitler, por exemplo, em um mundo que não tivesse conhecido os Protocolos. Ainda hoje, grupos neonazistas acreditam piamente na autenticidade desse texto, mesmo com todas as controvérsias sobre sua origem – e é essa origem controversa que Eco explora no romance, com doses cavalares de ironia.

O livro é recheado de ilustrações da época em que se passam os acontecimentos, provenientes do acervo do Umberto Eco, colecionador voraz. Essa aqui é sensacional.

Resumindo tremendamente a história, Simonini ouvia sempre do avô histórias de que os judeus eram “o povo ateu por excelência”, que matava crianças em rituais sanguinários, que venerava o demônio, que em conjunto com os maçons (cujos líderes eram todos judeus) fazia seus planos de agitação política puramente com fins de acumular todo o ouro do mundo e assim dominar completamente a Humanidade. Anos mais tarde, mediante seu envolvimento com a espionagem e os serviços secretos da Itália e da França, começa a perceber o quão os judeus eram mal vistos por esses serviços; que em todos os países europeus havia casos de judeus envolvidos com atividades ilícitas; que, sendo ele agora um agente com certa credibilidade, poderia ganhar uma pequena fortuna se, valendo-se de sua habilidade para criar documentos falsos, fizesse chegar às mãos das pessoas certas algo que comprovasse que os judeus tinham realmente um plano secreto para dominar o mundo. Esse documento precisaria ser crível, antigo, original, e deveria agradar seja quem fosse que o comprasse: assim, mediante adulterações de fontes jesuíticas, admiração por Dumas e um espírito inventivo sem igual, Simonini começa a confeccionar o texto. 

Acompanhamos a produção desse documento, que levou anos para ficar pronto e, redação após redação, foi recebendo as influências de diversos setores, todos transbordando anti-semitismo: os jesuítas, grupos maçons, os russos.  E de acordo com os ódios particulares de cada um deles, Simonini vai construindo a delirante versão do manuscrito, camada após camada, pacientemente esperando o comprador certo. E é de Herman Goedsche, o novelista alemão (que realmente existiu) que aparece no romance como um dos principais inimigos de Simonini, que são proferidas as palavras mais certeiras sobre o anti-semitismo que anima a ambos, com uma dose de ironia genial:

“- Convém retomar as palavras de Lutero, quando dizia que os judeus são maus, venenosos e diabólicos até o miolo; foram durante séculos nossa praga e pestilência, e continuavam sendo no tempo dele. Eram, nas palavras de Lutero, serpentes pérfidas, peçonhentas, ásperas e vingativas, assassinos e filhos de demônio, que mordem e lesam em segredo, não podendo fazê-lo abertamente. Diante deles, a única terapia possível seria uma schärfe Barmherzigkeit – Goedsche não conseguia traduzir, e entendi que deveria significar uma “áspera misericórdia”, mas que Lutero queria falar em ausência de misericórdia. Convinha incendiar as sinagogas – e aquilo que não ardesse deveria ser coberto por terra para que ninguém pudesse jamais ver uma pedra restante –, destruir as casas deles e fechá-los em um estábulo como os ciganos, tirar-lhes todos aqueles textos talmúdicos nos quais só eram ensinadas mentiras, maldições e blasfêmias, impedir-lhes o exercício da usura, confiscar tudo o que possuíam em ouro, moeda sonante e jóias, e colocar nas mãos dos rapazes judeus machado e enxada e nas mãos das moças, roca e fuso, porque, comentava Goedsche com risotas, Arbeit macht frei, “só o trabalho liberta”. A solução final, para Lutero, seria expulsá-los da Alemanha, como cães raivosos.”

Certamente, a intenção de Eco não era fazer de seu romance uma trincheira anti-semita (engraçado até mesmo lembrar que, na época de seu lançamento, ouve alguns resmungos de grupos ultra-ortodoxos sobre o livro – que certamente não o leram) mas ele conseguiu mostrar como o sentimento antijudeu era razoavelmente comum em muitos círculos europeus, inclusive entre vários extratos populares; e em como nesse caldo cultural de intolerância bastou algumas palavras fantasiosas (as de Simonini) para fazer nascer um sentimento de ódio disseminado. Isso não se aplica apenas ao anti-semitismo. Na verdade, julgo que o principal argumento do livro é que a construção de “verdades”, em muitíssimos casos, não passa de um ato discursivo: diz-se, e algo já é. O Verbo pairando sobre as águas. A voz dos homens criando suas realidades. E hoje temos quantas vozes criando verdades? Amplificadas por ondas invisíveis, as verdades disseminam-se em televisores, celulares, telas de computador, salas de cinema. A neutralidade impossível dos conteúdos que circulam e que nos atingem em todas as direções é algo que já ninguém mais acredita há pelo menos duas décadas, e mesmo assim nem mesmo entre os setores mais esclarecidos isso foi levado à sério até suas últimas conseqüências, isto é, em assumirmos que até em uma porcaria de um iPad há um valor ideológico cristalizado (virtualização do conhecimento, da experiência de comunicação). Temos legiões de Simoninis, agentes secretos, produtores de verdades, atuando nas redações dos jornais, nas agências de publicidade, nos estúdios de cinema, sempre prontos para construir novas verdades customizadas ao gosto do freguês. Verdades que, uma vez proferidas (como fala do âncora na TV, como texto na tela, como imagens no filme), tornam-se essa complexa e imensa fraude que chamamos de realidade.

Seria, para fechar, O cemitério de Praga um romance histórico, por ter como pano de fundo acontecimentos e pessoas reais? É de Lukács a definição que o romance histórico é aquele cuja estratégia narrativa consegue “reconstituir com minúcia os componentes sociais, axiológicos, jurídicos e culturais que caracterizam” uma determinada época. Ora, o texto de Eco traz muito disso como pano de fundo onde as ações de Simonini se desenrolam; entretanto, nosso protagonista é um elemento puramente ficcional; e mais do que ficcional, a sugestão de que os Protocolos foram produzidos por um agente secreto italiano exilado em França chega a ser surreal, contrariando qualquer noção de realidade. Devido a isso, então, ainda podemos colocá-lo na rubrica de romance histórico? Tendo a achar que não: Eco vale-se de um pano de fundo histórico, é fato, mas sem a ambição de fazer de seu romance uma reconstituição de uma época ou, pelo menos, essa não é a sua ambição primeira. Tenta, antes e mais do que tudo, criar uma realidade outra, baseada no fantástico, na suposição de que um único homem – Simonini – impulsionou a criação de um dos textos mais controversos de todos os tempos. Suposição forçada para muitos, mas nem tudo o que é forçado é impossível.

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5.10.2013

Pedaço de papel com anotações feitas em uma sala de embarque


Inacreditável a quantidade de LIXO que é possível ouvir apenas sentado por nada mais que meia hora em uma sala de embarque de aeroporto. Palavras que sintetizam os diálogos que pude ouvir: consumo, reclamações, queixinhas, vazio, sentimentalismo, patético, exibicionismo, putas, inveja, esnobismo, teatro, o verbo comprar conjugado em todos os tempos possíveis, Freeshop, medo, profissionalismo, moda, ausência de gosto, ridículo e olhares estupefatos ao me ver escrevendo nesse bloco de papel. Todos ao redor com seus notebooks e tablets, e eu aqui me sujando com tinta de caneta e buscando sintetizar o horror desse lugar que, sinceramente, não deveria existir. Sonho com tempos dos bandeirantes, das rotas de mulas, de longos trajetos percorridos em semanas. Encurtamos as distâncias, relativizamos o tempo. Outrora havia toda uma outra maneira do tempo, do espaço e das pessoas interagirem. Talvez tudo fosse uma enorme merda. Mas me parece que nesse "avanço" o que foi perdido supera, em valor, todos os (supostos) ganhos. Mas não é o progresso, em suma, um abandonar de possibilidades? No jogo infinito dos erros e acertos humanos, o que nos marca como signo fatal é o desperdício, a destruição dos caminhos que poderíamos percorrer. Deixamos de lado as mulas, agora que nos contentemos com os aviões.


PROLEGÔMENOS DA FUTURA ARTE DE ORGANIZAR AEROPORTOS SILENCIOSOS

  • um aeroporto silencioso é aquele onde se fala o mínimo possível; 
  • pessoas que desejam falar (seja com outra pessoa ou através de um aparelho celular)  terão filas, salas de embarque e aviões específicos;
  • sensores de som espalhados pelo aeroporto silencioso identificaram sinais de conversa abusiva. Os que desrespeitarem a regra serão automaticamente amordaçados e transferidos para áreas isoladas do aeroporto, até que fiquem calmos e deixem de falar;
  • área reservada para escritores, filósofos, poetas e quaisquer outras atividades intelectuais. Lá imperará o silêncio e meios analógicos de expressão. Portadores de notebooks, tablets, Kindles e outros não poderão entrar nessa área. Proíbe-se comer e beber (as mastigações e goles produzem um desagradável ruído), mas fuma-se à vontade;
  • gordos, crianças e pessoas que andam devagar terão aviões e salas de embarque específicos;
  • nas filas de despacho de bagagem, haverá um triagem realizada por especialistas em leitura facial: os espertos e organizados serão direcionados a uma fila, enquanto que os não-espertos e não-organizados para outra. Iguais com iguais, democraticamente no mesmo espaço, podendo até mesmo acenar uns para os outros - mas em filas diferentes;
  • graças à medida anterior, é natural que a fila dos espertos e organizados ande muito mais depressa que a dos não-espertos e não-organizados, que ficam sempre enrolados procurando os documentos no momento de despachar as bagagens
  • os Freeshops não terão autorização para vender suas mentiras em aeroportos silenciosos;
  • não haverá avisos sonoros: os passageiros deverão acompanhar em telões os seus portões de embarque e mudanças em horários de pouso e decolagem;
  • é vedado também o uso de óculos de sol dentro do aeroporto silencioso, péssimo hábito muito comum em aeroportos tradicionais.

5.02.2013

Rito sacrificial, induzido por D.R. Hooker




Nota: para corretamente ler o que se segue, acione o play na música abaixo. Em seguida, comece a leitura.

Voltava para casa no metrô lotado da Grande Cidade, sempre abarrotado de gente de todos os tipos, tamanhos e graus de educação. E cotidianamente em frente a tantos rostos que nada me dizem, a tantos destinos com os quais não me importo e que, apesar disso, tenho que compartilhar (forçosamente, mas ainda compartilhar) o mesmo ridículo espaço de um vagão de metrô, e isso há tantos anos que é como se todos esses destinos já fizessem parte de minha família, minha enorme família São Paulo lar de todos os imbecis orgulhosos de seus preconceitos e de seus divertimentos baseados em preços altos e longas filas. E então entro no vagão lotado, me esgueiro entre todos e consigo me encostar em uma porta; ligo o MP3 (maravilha tecnológica, escudo a nos proteger do caos das multidões) os primeiros acordes de uma música desconhecida, que nunca tinha antes ouvido; presto atenção na letra, e aos poucos sinto hipertrofiar o meu desacordo em relação ao mundo; foi como uma epifania musicalmente induzida, escancarando perante os meus incrédulos olhos todos os meus pecados, todas as minhas faltas, todas as minhas omissões; e não apenas humilhado graças ao peso fatal de todas essas revelações, que anjos arremessavam sobre mim (pois nesse momento eu já via uma imensa falange de anjos rodopiando sobre mim, sobre todos ali) percebi, refletido no rosto de todos os que forçados compartilhavam aquele vagão comigo,os meus próprios pecados; e misturado ao reflexo de meus pecados misturavam-se os deles também, e estavam todos nós ali imersos em erros, em abominações; e a cada novo acorde daquela maravilhosa música, mais forte em mim se tornava a revelação de que todos somos desgraçados pecadores, que o sacrifício na Cruz jamais nos absolveu, que na verdade a morte de Cristo abriu as portas para uma nova era de crimes. Então eu ouvi, além da música, uma angélica voz sussurrar-me ao ouvido (e era o mais doce som que já ouvi em minha vida) que chegada era a hora, o momento em que toda a minha existência enfim se justificaria, o clímax redentor e definitivo. E como em um filme (mas não era um filme, oh Deus, não era) tudo ficou lento, poeticamente fluindo como em uma romântica seqüência cinematográfica, e naquela metrô cheio fedendo a pecado, lodaçal de todas as depravações, altissonante tocaram dez mil trombetas em honra ao Senhor dos Exércitos, (mas nenhum pecador pode ouvi-las, continuaram em seu impassível estado-zumbi de trabalhadores cansados e insatisfeitos) e compreendi que esse era o aviso final; vi então na minha frente o Arcanjo Miguel com seu olhar incandescente, e aquele olhar não poderia ser mais expressivo, era como uma ordem que dele emanava, e com lágrimas nos meus disse "amém!" e de suas misericordiosas mãos recebi um toque -brevíssimo, casto, como convém aos anjos- e nada mais precisou ser dito, de repente compreendi tudo: retirei da mochila o facão que tinha comprado anos atrás (sem entender o porquê, agora mais cristalino que a glória divina) e iniciei os ritos sacrificiais; o sangue das ovelhas precisava cair, o pecado extirpado para sempre, o advento de um mundo novo e santo. Como foi lindo contemplar os anjos cantando, mãos postas em glória a Ele, e os golpes de facão no pescoço das ovelhas (que antes eram simples pecadores) jorrando o sangue como em chafariz; e já eram incontáveis os gritos e gemidos, os confusos olhares de pavor e perplexidade (tolos, não sabiam que o holocausto que presenciavam era na verdade um ato de renascimento, virginal oferenda de fluidos vitais santificados, limpando o mundo do Pecado). Ouvia o choro das mulheres implorando para que eu parasse, e como aquele choro me enchia de júbilo, um júbilo muito próximo da fúria (pois naqueles choramingos havia apenas o desejo de permanecerem com suas existências de pura luxúria e depravação, essas amaldiçoadas filhas de Eva, tão corruptíveis como sua mãe). Ouvia também o grito dos homens, ou melhor, de rebotalhos de homens, fúteis espécimes masculinos que nada mais tinham da altivez moral dos heróis do passado. Arruinados por uma vida onde o pecado era a regra, não compreendiam (ou compreendiam e se faziam de tolos? Difícil discernir isso agora, os estratagemas do Inimigo são tão ardilosos...) que eu estava ali como o mensageiro da salvação eterna, a eles entregue como um presente de Deus, tendo seus anjos misericordiosos como testemunha. 

O rito sacrificial foi breve, durando tão somente o caminho entre duas estações. Chegando no Trianon, as ovelhas sobreviventes (como queria tê-las matado todas)  correram confusamente para fora do vagão; permaneci ajoelhado entre as ovelhas sacrificadas, mãos estendidas ao alto contemplando as falanges angélicas rodopiando em espiral entre os esplendores dos Nove Céus. Não demorou muito para que os policiais, esses cães do Reino do Anticristo, me imobilizassem com toda a sua costumeira truculência. Eu chorava, e minhas lágrimas eram todas feitas de uma pura e incrível felicidade. O Arcanjo Miguel observava enquanto eu era arrastado para fora do vagão. No seu olhar era notável a serenidade, a beleza, a compaixão. 

3.29.2013

Quando a Democracia e a Tradição entram em choque

"Mas a Periferia do mundo, nós, ainda enfrenta o processo universalizante - a destruição acelerada de qualquer entidade social holística, a fragmentação e atomização da sociedade inclusive através da tecnologia (internet, telefones móveis, redes sociais), onde o principal ator é estritamente o indivíduo, divorciado de qualquer contexto social natural e coletivo. Um importante testemunho do uso dúplice da promoção da democracia foi explicitamente descrito em um artigo pelo especialista político e militar americano Stephen R. Mann, quem afirmou que a democracia pode trabalhar como um vírus autogerador, fortalecendo as sociedades democráticas existentes e historicamente maduras, mas destruindo e imergindo no caos sociedades tradicionais não preparadas adequadamente para isso". (trecho de "A Quarta Teoria Política", de Alexander Dugin).

O referido texto de Stephen R. Mann é "Chaos theory and strategic thougth, que pode ser lido aqui. E a citação de Dugin ajuda a explicar o vídeo abaixo, certamente o mais violento que já pude ver na vida - e vale dizer que o vídeo foi filmado na Praça Tahir, no Egito, local onde ocorreram protestos em prol da "democracia", todos amplamente ovacionados pela mídia ocidental. Só faltou algum imbecil global chamar os protestos de "festa da democracia", como insistem em chamas as eleições por aqui. Queria ver se chamaria de festa se fosse a mãe deles ali sendo o bolo, repartido com selvageria.

Sem mais, o vídeo. Vale também ler o texto que a mulher escreveu aqui.



3.18.2013

Nichos de mercado, minorias e as trombetas de Kali-yuga



A notícia de que alguns homens consideraram preconceituoso o comercial da Gillete (veja a matéria aqui) soou aos meus ouvidos como mais uma das trombetas a anunciar a micareta de Kali-yuga.

Se antes o coro de reclamações contra os padrões estéticos era composto majoritariamente por mulheres, agora é a vez dos homens se juntarem a essa “luta” e, também eles, colocarem a cruz da opressão sobre seus másculos ombros – que já não são tão másculos assim, ou melhor, o próprio conceito de masculinidade, homem e virilidade estão sendo colocados em cheque, relativizados e atuando como mais uma substância a compor o cenário pós-moderno da sexualidade, onde o continuum amorfo é a regra.

É importante partir, antes de tudo, do óbvio: eu não nego que a mídia adote um padrão de beleza. Aliás, não apenas um, mas vários: aquele mundo onde a televisão, os jornais, o cinema, etc propagavam apenas UM padrão, apenas UMA estética aceitável, este mundo está morto e claramente se decompondo perante nossos olhos, embora seu estado de putrefação ainda não nos tenha levado a desistir de analisar a realidade com as carcomidas óticas herdadas do passado. Os grandes grupos de mídia e as agências de publicidade aprenderam que a diversidade vende: a pluralidade de cores de pele, tipos de cabelo, orientação sexual e crenças são fatores que, se bem administrados, podem gerar muitos lucros. Os usos estereotipados que miseravelmente algumas novelas e programas humorísticos ainda fazem de negros e homossexuais, acredito, diminuirão cada mais, até ao ponto de se tornarem inexistentes. Como fatores dessa mudança, de um lado está a pressão realizada por grupos de direitos humanos, e do outro os interesses comerciais que encaram essas “minorias” como nichos de mercado - e esse último fator é, decisivamente, o que tem mais força e influência. O caso mais recente é a negociação aberta entre Rede Globo e o pastor Silas Malafaia para uma mais do que provável “novela evangélica”.

A tática que está por trás de tudo isso: antes os tentáculos da opressão determinavam dois grandes adversários bem definidos – Capital versus Trabalho. Porém, pelo menos desde o Maio de 68, a ala dos trabalhadores se esfacelou em uma miríade de fronts. Já enfraquecida pelo corporativismo sindical, responsável pela separação dos trabalhadores em sindicatos de categorias tão numerosos quanto ineficientes, o Trabalho foi ainda mais segmentado pelas ações de “guerra cultural”, que torna o trabalhador também um “estudante”, “mulher”, “negro”, “homossexual” e diversas outras micro-identidades, incomunicáveis entre si. E mais do que incomunicáveis, tais identidades terminam por obscurecer a identificação dos oprimidos como pertencentes a um grupo infinitamente mais vasto, em antítese fundamental com o onipresente Capital. A “causa histórica” do Trabalho contra o Capital cede à tentação da luta cultural, quando na verdade deveria manter-se dentro dela o tempo todo, como única forma de gerar uma oposição realmente significativa. Mas não é isso o que acontece: especializam-se de tal forma as frentes de luta e radicalizam-se tanto as posições que terminam por, finalmente, tornarem-se herméticas; perde-se o foco em relação a opressão de fundo econômico, invisível mola propulsora de todas as demais; todos enfrentam seus próprios e customizados moinhos de vento, tomando-os por gigantes; e sem grandes obstáculos para enfrentar (greves, por exemplo), os negócios prosperam. Patrões de todo o mundo, regozijai-vos

Achei muito curiosa a solidariedade entre homens e mulheres no choramingo contra a imposição de um “padrão” de beleza. Uma solidariedade não declarada, decerto, mas que mostra homens reivindicando uma bandeira que era antes um patrimônio (quase exclusivamente) feminino. Antes de lançar alvíssaras a isso, como os mais exaltados poderão fazer (sempre é bom desconfiar dos exaltados), quero observar como ambos os sexos distanciaram-se, nas últimas décadas, de seus respectivos, vamos chamar assim, “arquétipos”, galgando passos rumo a um novo paradigma de comportamento ainda impossível de vislumbrar com clareza, mas dos quais podemos observar contornos ainda difusos.

Primeiro as mulheres: sai de cena o modelo de “mãe” e “dona de casa”, ocupa seu lugar a mulher “independente”, cuja máxima realização é a “executiva bem sucedida”. Não apenas uma profissional altamente qualificada, mas também sexualmente ativa, buscando conscientemente parceiros/as sem a pretensão de laços firmes e duradouros. No linguajar comum, a mulher "ganha espaço". A versão sentimental e apaixonada de uma mulher em busca de um marido e do sonho da maternidade é trocada por outra onde o “sucesso” compensa a quebra do dogma reprodutivo ("você tem que ser mãe"), visto como acessório para a realização plena como mulher. É importante frisar que esse arquétipo, socialmente determinado, encontra portanto gradações, aliás muito interessantes: quanto mais burguês é o núcleo social de uma mulher, quanto mais possibilidades financeiras ela possui, tanto mais fácil é abraçar esse novo arquétipo. Em outras palavras: é o grau de riqueza, de condições materiais, que permite a essas mulheres o acesso a uma liberalidade antes exclusiva para os machos. Além disso, justamente essa riqueza proporciona a chance de subtrair-se de atividade tipicamente “femininas”: a “mãezona executiva” contrata babás e empregadas para efetuar as tarefas domésticas. E quanto mais empregadas ela tem para efetuar tais tarefas “menores”, tanto mais bem sucedida ela é. Resultado: cria-se uma “casta” de sub-empregadas, que enxergam nas patroas bem-sucedidas um exemplo, não raro admirado com inveja – e não se percebe, de nenhum dos lados, que a “executiva bem sucedida” e a “empregada do lar”, no final das contas, são ambas  desgraçadamente esmagadas nas engrenagens do MESMO sistema, e forçadas a enxergarem-se entre si com desconfiança, como autênticas inimigas [essa matéria aqui sobre "caçadoras de babás" é bem ilustrativa, além de ser um convite ao vômito]. E esse desprezo pelas tarefas domésticas é ainda mais acentuado – que ironia! – nesse país miserável que é o Brasil, onde qualquer palerma classe média contrata uma empregada para ir na sua casa de quinze em quinze dias, por achar que limpar banheiro, esfregar o chão é algo “menor”, “cansativo”, e que convém pagar para outra pessoa – no caso, sempre uma mulher pobre – para fazer o serviço “sujo”. 

Claro: há muitas outras que ainda nutrem o sonho da maternidade, de encontrar um “bom marido”, de se apaixonar e criar laços duradouros. Constituir um lar, enfim. Isso certamente ocorre e em uma quantidade absurda, mas o importante aqui é constatar que esse arquétipo da “mãe” perde sua hegemonia e convive, sem hostilidade, com o da “executiva bem sucedida”. Ocorre, inclusive, simbioses bem curiosas: a diretora de uma companhia torna-se ainda “mais mulher” quando consegue equilibrar o sucesso profissional com a maternidade e um casamento feliz. Amálgama de ambos os modelos, a “mãezona executiva” é, mais que uma síntese, o sintoma de uma época de transição que não ainda não desprendeu-se totalmente das formas do passado, que ainda caminha incerta em direção ao seu futuro. Mas os fatos contemporâneos indicam que será a executiva, mais do que a mãe, que por fim “vencerá” a “disputa”: relações pessoais cada vez mais virtualizadas e sujeitas a um compromisso “líquido” (Zygmunt Bauman); o imediatismo disso decorrente, não havendo mais espaço e sequer sentido ter filhos; o dinheiro mediando cada vez mais amplamente as interações entre as pessoas (nesse sentido, o mediano “Pagando por sexo” chega a ser profético) são alguns dos elementos favoráveis à cristalização de um novo arquétipo feminino que nada mais é que a plena realização do self made man em uma versão feminina, espécie de femme fatale não apenas para os homens, mas também para os mundos dos negócios.

sim, é um boneco Ken que faz a barba ¬¬
E os homens? Bem, estes nada ganharam – pelo contrário, inconscientemente desesperam-se com a perda de seu maior prestígio arquetípico: a manutenção de um lar. Não são mais imprescindíveis como “chefes de família”. Há mulheres que ganham o mesmo ou até mais que eles. De todas minhas experiências profissionais significativas – três ao total – em TODAS eu tive como chefes não homens, mas mulheres. A visão de um respeitável homem chegando em casa após o trabalho, com a íntima convicção de ter labutado pelo sustento dos filhos, essa visão não é mais possível: em nossas cidades cada vez mais caras, o salário de apenas um membro não garante o sustento da família. Em outras palavras: se antes o capitalismo, em sua fase mais áurea, proporcionava à classe média o nobre sonho do pai-de-família-provedor--e-esposa-rainha-do-lar, agora esse mesmo capitalismo necessita que ambos, pai e mãe, vendam suas energias para as engrenagens do sistema girar. Olhando por esse prisma, a "conquista" feminina é relativizada e mostra-se como uma caminhada da prisão doméstica em direção ao inferno das relações trabalhistas.

Mais uma vez insisto: o que importa discutir aqui é o “modelo arquetípico”, e não as particularidades sociais de sua aplicação. Sabemos que, entre os pobres de qualquer lugar, sempre foi regra todos os membros da família trabalharem como única forma de garantir o sustento do lar. Isso, ao invés de contradizer, serve como comprovação do que eu disse acima, isto é, que as condições do capitalismo atual estão ainda mais brutais do que aquelas do nascente mundo industrial: apenas chegamos em um estágio onde a exploração é tão ostensiva que termina por ocupar TODOS os aspectos da vida, sendo impossível fazer um contraste entre situações livres e opressivas (Lembro de um caso citado por um amigo meu, professor de Língua Portuguesa em um renomado – e caro – colégio paulistano: um aluno, após ler um texto, pergunta a ele: “professor, essa palavra que aparece toda hora no texto, ´opressão´, o que é? Eu não conheço essa palavra...´ – e pela reação silenciosa da classe dava a entender que MUITOS ali também não sabiam... Se você sequer sabe o significado da palavra “opressão”, conseguirá identificar uma situação opressiva?).

Outra perda arquetípica que os homens sofreram: a hegemonia nos jogos da conquista amorosa. Nem falo a respeito do cortejo galante, esse sonho de poetas, mas na conquista carnal pura e simples nos bares e boates. Antes, era ao homem que cabia a ação de "chegar junto". Hoje, nem apenas isso não acontece como são elas que, muitíssimas vezes, tomam a iniciativa perante mancebos e mesmo homens maduros completamente apalermados. Tal como qualquer homem, elas também buscam uma noite sem compromisso, uma simples "curtição” descartável, um fugaz prazer imediato que se resolve com o encontro entre líquidos seminais. No final das contas, foi bom para todos que as mulheres tenham ganhado maior liberdade nos jogos amorosos: mais desinibidas, mais vorazes, podendo experimentar posições e sensações que antes estavam marcadas pelo estigma do pecado. Entretanto, falo de outra coisa: a triste constatação de que essa doce liberalidade também ganhou aspectos ridículos. Vemos que todos aqueles comportamentos antes censurados nos homens, e antes exclusivos deles (ser “comedor”, beberrão, dado a brigas, etc), são então compartilhados com a esfera feminina, em uma democrática distribuição de tudo o que é desprezível. Igualados nos vícios e nas burradas, homens e mulheres “baladeiros” são o fruto inesperado do Maio de 68, fruto com o qual ninguém sabe ao certo como lidar.

Há somente “perdas” para os homens? Não necessariamente. Agora, é possível que eles sejam mais vaidosos, que se preocupem mais com a aparência, que se dediquem a comprar roupas e a se vestir com mais cuidado. Não estou falando de cortar o cabelo, fazer a barba e não usar roupas rasgadas: que fique claro que não foram os metrossexuais que inventaram a vaidade masculina. Ela sempre existiu, mas antes circunscrita a determinados procedimentos mais restritos e “austeros”. Falo da vaidade que motiva homens a buscarem cirurgias plásticas para afinar o nariz, clínicas para depilar a perna, salões de beleza para hidratar o cabelo – ou seja, práticas que antes eram exclusivas das mulheres. O Doctor Ray é o paradigma desse tipo de homem que nutre uma verdadeira obsessão pela aparência. Adotam práticas “femininas”, como fazer as unhas com uma manicure, sem se sentirem “menos” homens por isso.

Então é esse o cenário pós-moderno: mulheres agregando características “masculinas” ao seu comportamento (funcionárias altamente qualificadas, sexualmente livres, independentes), enquanto homens tornam-se mais “femininos” (cuidados com a aparência, divisão de tarefas domésticas). O resultado disso parece ter como resultado o prenúncio de novo tipo de ser humano, amorfo, capaz de transitar por padrões e comportamentos que, no passado, estavam enraizados e constituíam uma identidade mais ou menos sólida. Em outras palavras: coloca-se no torvelinho todas as opções comportamentais, faça com que todas se misturem promiscuamente sem restrições; acrescente a essa mistura desaprovação de qualquer limite que se queira impor a essa tendência aglutinadora; permita que seja dado livre fluxo a uma enxurrada de mutações, simbioses e reformulações sobre qualquer tipo de comportamento antes sexualmente determinado – desde que, é claro, todas essas combinações possam ser enquadradas em um canto na prateleira das opções de identidade e, consequentemente, comercializada como tal. O que importa, sempre, é categorizar tais identidades como potenciais nichos de mercado. O Sacro Consumo santifica tudo. Já é assim hoje: por exemplo, na Frei Caneca, rua paulistana que se tornou o point da cultura GLS da cidade, a especulação imobiliária construiu diversos condomínios residenciais de alto padrão, com foco exclusivo para o “segmento GLS masculino” – considerado um “público” formado por profissionais altamente qualificados e, portanto, bem remunerados. Importante ressaltar que se trata de uma fatia do GLS: até onde é meu conhecimento, nunca pensaram em fazer condomínios com foco em abrigar travestis, que dentro do espectro GLS estão entre os mais marginalizados e onde o envolvimento com a prostituição é muito mais acentuado – em uma palavra, são pobres, não podem pagar o altíssimo padrão de vida da região. E não por acaso, são os que mais sofrem preconceito e violência nas ruas das cidades. 

O que surge, então, no horizonte dos arquétipos? É impossível ver com clareza: tudo o que temos diante dos olhos é um amontoado de contornos difusos que, no limite, apontam para uma quimera que reúne em si tudo o que é de Si e do Outro, anulando qualquer diferença. É o sonho igualitário hipertrofiado de tal forma que nada mais resta a não ser indivíduos completamente padronizados, indistinguíveis, agindo mediante os mesmos impulsos e motivações. Não creio que isso se concretize algum dia, entretanto: seria esperar da História algo tão extremo que não tem possibilidade de existir no mundo dos homens. O desafio é saber distinguir nos discursos oficiais, na cultura televisiva, etc aquilo que é meramente propaganda do ideal igualitário proposto pelo Deus Mercado (que na verdade é a supressão de toda a diferença) do que é corajoso combate contra a violência voltada a negros, mulheres, gays, etc. Retomando o comercial da Gilete, mola propulsora desse texto, não se tratava ali de nenhuma “violência” contra homens peludos, mas tão somente uma estratégia publicitária que precisava de planejamento, para não deixar os “Tony Ramos style” com raivinha. Certamente na próxima eles acertam, e aí ninguém vai reclamar: todos se sentirão igualmente representados nos rituais de consumo – esses sim, jamais devem ser questionados. É aí que está o nosso fracasso: aceitar o dogma do mercado, assumir que todos são consumidores e portanto merecem seus “direitos” quando, na verdade, deveríamos questionar as megaestruturas do consumo e do trabalho – que não permanecem somente intactas mas prosperam sobre todos, com crises ou sem crises, sejam “minorias” ou não.

1.30.2013

Tom & Jerry e a globalização



Eu estava em um churrasco de final de semana e, em um horário já adiantado da noite, a tortuosa conversada embalada por cervejas e outros sortilégios etílicos descambou para a temática social: protestos, greves e essas coisas. Em um dado momento, comentei sobre como foram excitantes as manifestações anti-globalização, ocorridas nos anos da virada da primeira década do século XXI; de como eu e meus amigos daquela época nos preparamos para os embates com tropa de choque, comprando bolinhas de gude para jogar nos coxinhas, etc; do clima de contestação geral que fez com que o centro velho de São Paulo e a avenida Paulista fossem tomados por milhares de pessoas em um combativo protesto para denunciar os rumos nefastos, aceleradamente neoliberais, que o mundo estava tomando. 

Eis que então uma moça participante da conversa diz: "ter participado de uma manifestação anti-globalização denuncia sua idade". Todos riem. Eu também.

A conversa seguiu adiante, mudou de rumo, todo mundo ficou bêbado, a noite foi passando e dezenas de outros temas foram discutidos até ela terminar. Mas aquela frase - "ter participado de uma manifestação anti-globalização denuncia sua idade" - ficou comigo. Mais precisamente: o que ficou comigo foi o destaque dado pela moça ao prefixo "anti". No contexto, o indicativo de minha "velhice" estava no fato não de eu ter participado de uma manifestação no longínquo ano 2000, mas sim em participar, justamente, de um protesto contra a globalização. A risada geral tinha um pouco disso: como é possível que as pessoas tenham protestado contra algo que é tão natural? Afinal, a globalização começou lá com as navegações, quando os europeus chegaram à América, e então as trocas entre os países se aceleraram em tal velocidade, quantidade e constância que, hoje, almoçamos comida italiana feita por imigrantes bolivianos em um restaurante de São Paulo cujos donos são descendentes de poloneses. Que grande absurdo alguém querer protestar contra a globalização. É quase como se fossemos às ruas reivindicar que a chuva molhasse menos as coisas. Todos riem. Eu deveria rir também, mas não consigo mais.

No verbete da Wikipedia sobre o termo "anti-globalização", coloca-se que este "é um movimento que reivindica o fim de acordos comerciais e do livre trânsito de capital" e  que os seus adeptos opõem-se "à formação de blocos comerciais como o NAFTA e a ALCA". Mais adiante, cita um trecho de obra de Daniele Conversi, que define a globalização "como a importação, em via de mão única, de itens culturais estandartizados e ícones de um único país, os Estados Unidos, numa 'americanização' altamente superficial, incoerente, fracional e deficiente, em que os outros povos 'como macacos, imitam algo que eles nem mesmo entendem'". Motivações ambientais, culturais e étnicas também fazem parte do amplo espectro de reivindicações anti-globalistas, que em fins dos anos 90 e início dos anos 2000 ajudaram a formar um bloco de oposição que unia comunas, socialistas, anarcos e tantos outros. Uma honesta descrição do período pode ser lida aqui.

De certo modo, naquele mundo pré-11 de setembro, era legítimo questionar a globalização, que nada mais era que um pomposo nome, relativamente novo, para designar a expansão do capitalismo financeiro. Vendia-se a globalização como algo "inevitável" e "positivo", capaz de "gerar empregos" e "diminuir a pobreza". Nunca se falava, entretanto, que o que estava sendo ensinado era a agir como macaco, a imitar o american way of life, a incorporar no cotidiano os hábitos e padrões mentais estadunidenses. Claro que, naquela época, ninguém prestava a mínima atenção nas críticas que eram feitas. Duvido muito que algum almofadinha que trabalhava na Paulista, ao ver a avenida tomada por milhares de jovens gritando slogans contra a globalização, tenha de repente pensado "é verdade, esses caras estão certos" (é mais sábio esperar das pessoas o comportamento de rebanho inconsciente que elas sempre tiveram. Desde a Queda é assim, e até o Final dos Tempos assim será).

Entretanto, após os eventos do 11 de setembro de 2001, a balança do poder pendeu favoravelmente à expansão dos Estados Unidos que, sob a desculpa de "lutar contra o terrorismo", causou um dano avassalador no cada vez mais forte movimento anti-globalização. De repente, levantar essa bandeira passou a ser considerado quase que como uma declaração de pró-terrorismo para a mídia mais coxinha. E ser a favor do terrorismo era (é) um ato de profunda selvageria, de insensibilidade perante a "catástrofe" que se abateu sobre os Estados Unidos - e apesar disso nada se dizia (diz) sobre os ferozes gastos bélicos desse país, de todos os bombardeiros por eles orquestrados, por todas as destruidoras campanhas armadas na Coréia, Vietnã, Iraque, Afeganistão e dezenas de outros países. Enfim: o 11 de setembro simplesmente foi um dos melhores acontecimentos que a política externa estadunidense poderia querer, pois garantiu que sua esfera de influência se estendesse por praticamente todo o planeta. A globalização, então, alcança as condições para tornar-se uma realidade.

Realidade total, absoluta e inquestionável. Realidade que nos envolve completamente, sem espaço para o pensamento ir além de seus limites - afinal, como ir além de algo que não se pode sequer ver

Ter participado de uma manifestação anti-globalização coloca-me como uma espécie de homem cujo tempo já passou. A globalização deixou de ser um conceito, um tema para discussão e um motivo para sair às ruas em protesto: ela é a própria realidade. E se tomarmos como principal base ideológica da globalização o liberalismo e a sua proposta de ordenar a vida como um grande mercado, subscrevo letra por letra as palavras de Alexander Dugin quando diz que, na pós-modernidade (= o mundo que vive a vitória incontestável da globalização), o liberalismo deixa de ser um arranjo ideológico para ser o único conteúdo da existência, para ser "uma ordem objetiva de coisas cujo desafio não é apenas difícil, mas tolo" (grifo meu). 

É por isso que todos riram quando aquela moça falou, com certa ênfase no prefixo, em "manifestação anti-globalização". Riram porque o humor é feito disso: de coisas tolas, absurdas. Quando eu era pequeno, ria muito vendo o rato Jerry jogando um piano sobre o Tom: o pobre gato ficava achatado como uma pizza. Depois ele assoprava o dedo, inflava e voltava ao normal. A graça estava justamente nessa irrealidade tão boba. Talvez incitar a criação de um olhar crítico sobre a globalização nas condições atuais seja tão inútil quanto explicar para uma criança que o desenho do Tom e Jerry é uma coleção de impossibilidades. Seja como for, caso subsistam registros materiais de nosso tempo para os homens do futuro (esqueçam essa história de que o mundo vai acabar, que todos os homens morrerão: nossa espécie é tão amaldiçoada que não seremos agraciados com a dádiva do Fim) espero que eles reconstruam a pós-modernidade de um modo honesto, isto é, sem festas ou coloridos, sem sorrisos ou meias-palavras, mas com o devido rigor e coragem que, nos homens de hoje, estão em níveis tão baixos; e que nessa reconstrução consigam mostrar o horror que é esse mundo sem face, onde o dinheiro nivela tudo no chão, na lama da mediocridade, onde não há espaço para nenhuma diferença que não seja aquela que reza o credo do consenso liberal e suas leis.